Yubá – O Lugar Onde o Futuro Floresce

Entre uma conversa e outra, entre um gole e outro, fui tomado por uma sensação difícil de explicar: a de estar dentro de um conto de fadas amazônico.
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Existem lugares que não cabem em mapas. Eles existem primeiro dentro da gente e só depois ocupam um endereço. Foi exatamente isso que encontrei ao atravessar a porta da Galeria Yubá, em Novo Airão. Não era apenas uma galeria. Era um intervalo no tempo. Um refúgio onde o mundo desacelera para que a beleza possa respirar.

Sentei, observei, caminhei devagar. Entre uma conversa e outra, entre um gole e outro, fui tomado por uma sensação difícil de explicar: a de estar dentro de um conto de fadas amazônico. Não desses povoados por castelos, mas daqueles em que as árvores conhecem nossos nomes, os rios escondem segredos e a arte cresce como cipó, sem pedir licença para existir. Havia acolhimento em cada detalhe. Um acolhimento que não vinha apenas do espaço, mas das pessoas que o sonharam.

Buy Chaves e Helen Rossy parecem ter compreendido um segredo que poucos artistas alcançam: a obra não termina quando seca a tinta ou quando a escultura ganha sua forma. Ela continua vivendo na maneira como recebe quem chega. A Galeria Yubá tem alma, porque seus criadores decidiram morar dentro dela antes mesmo de construí-la.

As pinturas de Buy Chaves não parecem retratar a Amazônia. Elas parecem sonhá-la. Cores que desafiam a lógica, personagens que poderiam ter escapado de alguma lenda esquecida, animais, espíritos, rios, santos, alienígenas e florestas atravessados por uma liberdade quase alucinante. E então surge a assinatura. Não a assinatura do nome, mas a do tempo. Em vez do ano em que o quadro foi concluído, aparecem datas como 2055, 2079, 2081. A princípio sorri diante da curiosidade. Depois compreendi que aquilo era uma declaração de princípios. Buy não pinta para o presente. Pinta para um futuro que insiste em existir. Como se suas telas fossem lembranças de um amanhã onde a imaginação ainda é a linguagem oficial do mundo. Buy sabe que toda grande arte nasce antes do seu tempo.

Enquanto isso, Helen Rossy realiza outro tipo de encantamento. Ela recolhe aquilo que escorre pelos rios e o olhar apressado chama de resto: galhos, sementes, cascas, fibras, fragmentos, pequenas sobras da floresta e da vida. O que para muitos seria descarte, em suas mãos reaparece como deslumbramento capaz de entronizar reis e rainhas e iluminar cantos e caminhos. Do quase nada nascem peixes, pássaros, insetos, criaturas da mata e do rio, seres que parecem ter esperado pacientemente pelo instante de voltar a respirar. Helen não fabrica esculturas; ela liberta vidas escondidas dentro da matéria. Sua arte nos faz desconfiar de que talvez o lixo nunca tenha existido. Existia apenas beleza esperando por um olhar suficientemente generoso para reconhecê-la.

Saí da Galeria Yubá carregando muito mais do que lembranças. Levei comigo uma espécie de esperança. A esperança de que ainda existam lugares onde o tempo anda devagar, onde a arte acolhe antes de impressionar e onde duas pessoas decidiram responder à brutalidade do mundo com delicadeza, imaginação e afeto.

Esse é o verdadeiro milagre da Galeria Yubá. Ela não nos convida a fugir da realidade. Ela apenas nos lembra que a realidade também pode ser feita de encantamento. E, desde aquele dia, gosto de pensar que existe um pedaço de Novo Airão vivendo dentro de mim. Ou talvez seja o contrário: uma parte de mim tenha ficado para sempre naquele lugar onde o futuro já começou a florescer.

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