Omawali: o construtor do fundo das águas e o modo Baniwa de ver o mundo

Omawali criou a diversidade de espécies de peixes a partir das lascas e pedaços de madeira que sobravam do seu trabalho e caíam na água.
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A figura de Omawali (também grafado como Umawali ou Koyaweno em certas versões) ocupa um lugar central e complexo na memória oral dos povos Baniwa da bacia do rio Içana, transcendendo a categoria de mero monstro folclórico. Venerada e temida como o grande “carpinteiro dos peixes” e “pai de todos os peixes”, essa imponente “pessoa-sucuriju” habita as profundezas do mundo subaquático conhecido como Iaradate, a segunda camada de Hekwapi, ou “Este Mundo”. Omawali representa uma ideia complexa sobre o mundo que envolve o contato com o diferente, a caça e a passagem de conhecimentos essenciais para os humanos sobreviverem.

A Criação Mágica e a Transição Agrícola

No tempo primordial, o mito narra o ofício de Omawali como artesão, dedicando-se à confecção de ralos de mandioca. Este utensílio doméstico simboliza a transição das sociedades amazônicas de uma fase de coleta e pesca pura para a agricultura. Por meio de um ato de magia demiúrgica, Omawali criou a diversidade de espécies de peixes a partir das lascas e pedaços de madeira que sobravam do seu trabalho e caíam na água. A forma do corte na madeira determinava a espécie: cortes redondos transmutavam-se em pacus ou piranhas, enquanto pedaços longos organizados em filas originavam grandes peixes, como o surubim e o tucunaré-açu.

Contudo, a teogonia Baniwa estabelece uma distinção crucial entre as criações. Ao contrário dos peixes “mansos” criados originalmente por Ñapirikoli (cujas cores foram extraídas diretamente do Sol e que não possuíam espinhos), as espécies originadas por Omawali são carnívoras, agressivas e intrinsecamente perigosas. Por carregarem a natureza do deus-serpente — um rival natural dos deuses criadores da humanidade —, peixes como o tucunaré, a piranha, o pacu e o jacundá são considerados fontes de doenças graves, exigindo rigorosos rituais de purificação (kalidzamai) e o uso de pimenta sagrada antes de poderem ser consumidos com segurança.

O Perspectivismo Ameríndio e a Morada do Outro

O mito de Omawali ilustra de forma potente o conceito de perspectivismo ameríndio, desenvolvido na antropologia contemporânea. O domínio de Omawali revela-se como uma grande comunidade organizada em malocas, onde se realizam festas e se consome o caxiri (bebida fermentada de mandioca) servido pelas mulheres. Nessa “sociedade espelhada”, os papéis são simétricos, mas invertidos em relação ao mundo humano. Por exemplo, o quelônio aara é visto pelos animais como um exímio “mestre de dança”, e a piracema das rãs é celebrada como uma autêntica festa comunitária.

Essa fluidez de identidade também se manifesta nos cantos rituais Hohodene (kalidzamai), onde a categoria de espíritos da água (umawalinai) é comandada por Omawali. Na poética mítica dessas rezas de cura, a serpente veste uma capa ou camisa (limaka ou likamitsa), mas, ao despi-la, revela sua verdadeira essência como pessoa (newiki), brincando com os limites da alteridade e da condição do sujeito.

A Transgressão Tabu e o Rapto

O equilíbrio cósmico exige o respeito estrito aos limites territoriais e de conduta. No tempo mítico, o acesso visual a Omawali era estritamente proibido, sendo alcançado apenas por meio de uma grave quebra de resguardo, como comer comida estragada ou não lavar a boca. Desafiando essas interdições e os avisos comunitários, um antepassado humano insistiu em navegar de canoa pelas águas proibidas de Bacaba-Poço. Como punição direta por essa agressão ética, Omawali raptou o filho do homem, arrastando-o para o abismo subaquático.

O Resgate, o Boto-Pajé e a Morte de Omawali

Para resgatar a criança, o pai precisou realizar a clássica jornada do herói ao submundo, uma travessia facilitada pela intervenção do boto-pajé. Agindo como um conselheiro dotado de clarividência, o boto revelou a localização exata do cativeiro e compartilhou sua própria queixa: ele havia sido severamente agredido por Omawali durante uma festa de caxiri. O boto descreve Omawali como uma figura monstruosa, um “homem enorme” na maloca, mas que na água assume a forma de uma serpente gigante “muito feia” com uma pele vermelha, o sucuri-tucano.

Aproveitando-se da embriaguez e da distração da grande serpente após a festa, o pai infiltrou-se na maloca. Omawali foi morto pelo homem, sendo envenenado pela fumaça da paxiúba (o mesmo material usado para confeccionar a armadilha do cacuri) ou flechado mortalmente. No instante de sua morte, um terrível estrondo semelhante a um trovão ecoou das profundezas: o som “bokhao pattra heee!!! Maleriiiiii!!!!” marcou o fim do poder do monstro, fazendo com que o local de Poperiana passasse a ser chamado de Maleriana.

A Consequência Ecológica e a Origem dos Cabeçudos

Embora a morte de Omawali tenha eliminado a ameaça imediata, ela desencadeou uma catástrofe ecológica irreversível para os Baniwa. Com o assassinato de seu criador, a potencialidade reprodutiva infinita dos peixes, que era um monopólio das serpentes, perdeu-se para sempre, explicando etiologicamente a atual escassez de pesca no rio Içana.

Além disso, o menino resgatado já havia sido ontologicamente transformado pelo contágio com o mundo do “Outro”. Incapaz de readaptar-se à vida em terra firme, ele buscava compulsivamente o meio aquático, subindo em árvores para se secar antes de pular novamente na água. O corpo do menino acabou por transmutar-se irreversivelmente, convertendo-se no ancestral mítico, o “avô”, dos cabeçudos e de outros quelônios (como os jabutis de vários tamanhos e o tartaruga aara) até então inexistentes no mundo.

Conclusão

O mito de Omawali estabelece-se assim como um intrincado tratado de direito, filosofia e ética ambiental na cosmologia Baniwa. Ele ensina que a transposição de limites territoriais e o desrespeito às leis invisíveis da floresta custam um preço altíssimo, a própria perda da condição humana. Omawali permanece como o símbolo de que a agressão desenfreada aos “donos” da natureza resulta em perdas ecológicas definitivas que moldam, até hoje, a sobrevivência e as leis da floresta.

Para Saber Mais:

Entre mundos: homens, serpentes e peixes em dois mitos baniwa, Luiza Garnelo e Gabriel Albuquerque. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 53, p. 129-147, jan./abr. 2018.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/elbc/a/69xj7YC8BZnqxSqCxLT388D/?lang=pt

Narrativas Quase Esquecidas: Leitura dos Mitos Baniwa . 2012. 245 f. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Instituto de Ciências Humanas e Letras, Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2012.
Disponível em: https://tede.ufam.edu.br/bitstream/tede/2367/1/Silvana%20Santos.pdf

Pursuing the spirit Semantic Construction in Hohodene Kalidzamai Chants for Initiation  Robin M. WRIGHT. Amerindia, Paris, n. 18, p. 1-40, 1993.
Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/BWD00025.pdf

 

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