Na história amazônica, muitos povos originários foram silenciados antes que suas vozes pudessem ser integralmente registradas. Quando idealizei a série de quadrinhos Maramunhã, iniciada em 2022, meu propósito era criar uma coletânea de adaptações de lendas indígenas, onde cada narrativa seria devidamente creditada ao seu povo de origem. Como autor da obra — trabalhando ao lado de uma talentosa equipe de ilustradores —, decidi que o nosso primeiro volume precisava, obrigatoriamente, resgatar uma lenda dos Manaus, o povo guerreiro que deu nome à nossa cidade.
Ao iniciar as pesquisas para o roteiro, no entanto, esbarrei em uma barreira trágica. O profundo apagamento cultural e físico que os Manaus sofreram ao longo dos séculos de colonização não deixou registros intactos de suas narrativas ancestrais. Com o apoio do historiador Joaquim Melo, da Banca do Largo, confirmei que suas histórias e boa parte de sua memória haviam sido silenciadas pelo processo colonial.
Diante dessa ausência, surgiu o dilema: como contar as tradições de um povo que teve suas memórias apagadas? A solução que encontrei foi recorrer aos pouquíssimos elementos fragmentados da cosmologia dessa etnia, como as deusas Manara e Sara, e construir algo novo. Para emular um mito que ecoasse a grandiosidade de uma autêntica lenda dos Manaus, criei uma adaptação livre da Batracomiomaquia — a paródia épica grega, atribuída a Homero, sobre a guerra entre sapos e ratos.
Transportei a essência dessa “Guerra de Troia” para as profundezas da selva amazônica, substituindo os animais europeus por criaturas da nossa fauna: os ágeis quatipurus e os astutos jabutis. Ao fazer isso, incorporei — mesmo que de forma intuitiva na ficção — o conceito central do perspectivismo ameríndio, desenvolvido pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Para o pensamento indígena, humanos e não humanos compartilham a mesma intencionalidade e condição de “sujeito”, possuindo organização social e cultura próprias, diferindo apenas em suas corporalidades. Assim, o relato de guerra da Batracomiomaquia ganhou novas camadas e transformou-se em um mito de criação: a história de como surgiram os incêndios na Amazônia.
Na trama, um mal-entendido trivial entre os jabutis e os quatipurus deflagra um conflito sem precedentes. Os jabutis procuram os humanos para aprender a arte da guerra e a construção de armas. Na narrativa, a adoção dos armamentos humanos pelos animais é retratada de forma catastrófica e serve como uma poderosa metáfora do próprio processo de colonização: a guerra na floresta só atinge seu ápice destrutivo após a interferência humana.
O quadrinho foi publicado em 2022 com o título Maramunhã – Uma Lenda Manaus. No ano seguinte, a obra foi finalista do prestigiado Troféu HQMix na categoria Melhor HQ Infantil. O processo de pesquisa para sua produção foi o grande estímulo para o meu crescente interesse pelo estudo da cultura indígena do Amazonas e do restante da Amazônia.
Em 2024, lançamos a continuação: Maramunhã – Na Terra do Waraná, que aborda a cultura do povo Mawé. Diferente do primeiro título, escrito inteiramente com base em pesquisas bibliográficas devido ao apagamento dos Manaus, Na Terra do Waraná contou com a colaboração direta da comunidade Sateré-Mawé de Manaus. Essa parceria resultou na criação do curso Quadrinhos Sateré-Mawé, no qual formei a primeira turma de roteiristas de quadrinhos indígenas do estado. Esse grupo está, atualmente, trabalhando na publicação de sua primeira HQ autoral.
Cabe ainda destacar que Maramunhã faz parte do projeto “Conta aí”, desenvolvido na comunidade ribeirinha Agrovila, localizada em Manaus, Amazonas. O projeto promove o acesso de crianças ribeirinhas a livros e quadrinhos. Os interessados em apoiar essa iniciativa podem doar livros diretamente ao projeto por meio do link da lista de desejos na Amazon: https://www.amazon.com.br/hz/wishlist/ls/JZKN9VJ5LF9V?ref_=wl_share. Também é possível conhecer melhor o projeto e seu trabalho pelo perfil no Instagram: https://www.instagram.com/contaai_incentivoaleitura/.
Os próximos artigos desta coluna abordarão um pouco alguns temas utilizados na obra. Nos vemos de novo em uma semana.