Geni nunca morreu.
Mudaram apenas o nome da rua, a roupa da vítima e o jeito da violência chegar.
Todo dia alguém cospe numa Geni antes do café. Todo dia alguém ri de uma travesti espancada na esquina enquanto finge indignação diante do jornal da noite. Todo dia alguém transforma corpos LGBTQIAPN+ em piada, em escárnio, em fetiche clandestino e em alvo público. A mesma sociedade que consome essas existências na sombra continua apontando o dedo sob a luz do dia com a arrogância moral de quem acredita possuir o direito de decidir quais vidas merecem respeito.
A crueldade brasileira não veste capuz. Ela usa terno, púlpito, bancada parlamentar, uniforme escolar, comentário de rede social e mesa de jantar. Ela senta para almoçar em família enquanto expulsa filhos de casa. Ela ergue templos enquanto condena adolescentes ao medo. Ela fala em defesa da vida enquanto enterra pessoas trans antes dos trinta anos.
“Joga pedra na Geni.”
A frase de Chico nunca pertenceu apenas à música. Ela virou método social. Virou projeto coletivo de humilhação. O país aprendeu a transformar diferença em espetáculo de linchamento. Quando a cidade precisa de salvação, procura justamente quem passou a vida inteira tentando exterminar. Quando convém, abraça. Quando passa o perigo, volta a cuspir.
A hipocrisia brasileira possui mãos limpas e consciência podre.

E os números transformam a denúncia em sentença histórica. O Brasil segue ocupando o posto de país que mais assassina pessoas trans no mundo. O dado se repete há quase duas décadas nos levantamentos da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Apenas em 2025, pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no país. A maioria das vítimas era composta por mulheres trans negras, jovens e pobres. O mapa da violência brasileira possui endereço, cor, classe social e identidade de gênero. Não existe coincidência em um massacre contínuo. Existe estrutura. Existe abandono. Existe ódio legitimado pelo silêncio social.
Quando Chico Buarque escreveu “Geni e o Zepelim”, em 1978, dentro da monumental ópera musical “Ópera do Malandro”, ele não criou apenas uma personagem. Chico escreveu um retrato cruel da sociedade brasileira. Geni representa todas as pessoas transformadas em depósito de desprezo coletivo: prostitutas, travestis, pobres, marginalizados, corpos expulsos da dignidade pública. A cidade inteira apedreja Geni até o momento em que precisa dela para sobreviver. Depois da salvação, volta a humilhá-la. A música nasceu como denúncia direta da hipocrisia moral, da violência social e do prazer perverso que as multidões sentem ao destruir quem desafia normas impostas pelo conservadorismo.
Querem artistas LGBTQIAPN+ nos palcos, mas não querem seus corpos vivos nas ruas. Querem a estética, a festa, a maquiagem, a música, a coragem e a liberdade produzidas por essa comunidade, mas odeiam a existência concreta dessas pessoas dentro do ônibus, da escola, do mercado e da própria família. O Brasil aplaude drags na televisão e abandona mulheres trans na sarjeta. O mesmo país que dança ao som de vozes dissidentes continua permitindo que a violência caminhe de braços dados com a impunidade.
Existe sangue demais debaixo do tapete nacional.
Cada piada normalizada empurra alguém para o silêncio. Cada expulsão de casa fabrica um abismo. Cada agressão ignorada ensina que certos corpos nasceram sem direito à paz. O preconceito mata antes da faca, antes do tiro e antes do espancamento. Ele mata no olhar que desumaniza. Mata no emprego negado. Mata na escola que persegue. Mata na família que abandona. Mata na igreja que amaldiçoa. Mata no Estado que se omite.
E ainda assim essa comunidade resiste.
Resiste dançando.
Resiste escrevendo.
Resiste amando.
Resiste ocupando ruas que juraram expulsá-la.
Resiste transformando vergonha imposta em orgulho legítimo.
Resiste porque existir virou ato político diante de um país que insiste em converter humanidade em tribunal.
A população LGBTQIAPN+ não pede tolerância. Tolerância se oferece ao que incomoda. O que essa comunidade exige é dignidade, proteção, direito à vida e respeito integral. Nenhuma existência precisa pedir licença para respirar.
Geni nunca precisou ser salva pela cidade.
Era a cidade que precisava salvar a própria alma.
E continua precisando.
NÃO JOGA PEDRA NA GENI!!!