Toda rachadura conta uma história

Olhando depressa para uma parede de casa, notei uma rachadura e vi apenas um defeito. Um corte torto atravessando a tinta, uma marca inconveniente que o calor abriu devagar, em silêncio, enquanto ninguém percebia.
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Olhando depressa para uma parede de casa, notei uma rachadura e vi apenas um defeito. Um corte torto atravessando a tinta, uma marca inconveniente que o calor abriu devagar, em silêncio, enquanto ninguém percebia. Depois percebi que toda rachadura tem uma história. O cimento dilata, a estrutura cede um pouco, o tempo insiste. E aquilo que parecia sólido, invulnerável, perfeito, responde às mudanças do mundo com pequenas fendas. Nós também.

Há um momento da vida em que descobrimos que não atravessaremos os anos intactos. As experiências começam a abrir linhas invisíveis dentro de nós. Algumas surgem das decepções, promessas que não se cumpriram, ausências que doeram mais do que deveriam, despedidas que deixaram eco. Outras nascem das responsabilidades, do cansaço acumulado, das vezes em que precisamos ser fortes além do necessário.

Curiosamente, não são apenas as dores que nos racham.

As grandes alegrias também deixam marcas. O amor transforma a estrutura da alma. A chegada de alguém, a realização de um sonho, o nascimento de um filho, um abraço esperado, um reencontro improvável… tudo isso também nos desloca por dentro. Viver intensamente, seja na dor ou na felicidade, nunca passa sem alterar alguma coisa em nós.

Amadurecer, no meu míope ponto de vista, é justamente isso: aceitar que não fomos feitos para permanecer lisos e impecáveis.

As rachaduras revelam que houve calor, pressão, tempo. Revelam que existiu vida acontecendo. E por mais que tentemos esconder certas fendas com tinta nova, há marcas que não precisam ser apagadas. Algumas merecem ser compreendidas, pois nos tornam mais humanos.

Uma parede sem rachaduras talvez nunca tenha enfrentado o verão mais duro. Uma alma sem marcas talvez nunca tenha amado profundamente, perdido de verdade, recomeçado com coragem ou sobrevivido aos próprios dias difíceis.

No fim, as nossas rachaduras internas não são apenas sinais de fragilidade. Muitas vezes, são espaços por onde a luz consegue entrar.

E é bonito lembrar disso: algumas das flores mais resistentes nascem justamente da rachadura do asfalto. Contra toda lógica, contra toda dureza, elas encontram uma maneira de florescer.

Tomara que a vida sempre faça o mesmo conosco.

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