Quando dois dos maiores intelectuais do país decidem mergulhar na história da Amazônia brasileira, o resultado é um panorama cultural simplesmente extraordinário. Em uma costura potente entre memória, história e reflexão, chega nas prateleiras um livro imperdível para quem quer entender melhor a alma das duas maiores metrópoles da região Norte. O escritor amazonense Milton Hatoum e o saudoso filósofo paraense Benedito Nunes assinam a “Crônica de duas cidades: Belém e Manaus”, reeditado pela Companhia das Letras.
O livro reúne ensaios profundos, onde os autores resgatam as memórias de suas respectivas cidades de infância. É um mergulho não apenas afetivo, mas histórico, que leva o leitor de volta ao passado dessas duas capitais nortistas, costurando as transformações urbanas, culturais e sociais que moldaram o coração da Amazônia.
Mais do que um registro do passado, o texto é um espelho crítico e necessário para entender como Manaus e Belém se moldaram na floresta e os desafios urbanos e sociais que carregam até hoje. Um verdadeiro mergulho na identidade amazônida que todo mundo precisa ler para compreender de onde viemos e para onde estamos caminhando.

A jornalista e editora-chefe do Amazônia Incrível, Bruna Chagas conversou com exclusividade com o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Milton Hatoum sobre essa obra.

O escritor explicou que escreveu uma apresentação para esse livro em que fala da origem dessa crônica sobre Manaus. “Ela se originou numa pesquisa de iniciação científica que eu fiz em meados da década de 1970, quando eu estudava arquitetura na USP. E eu, naquela época, fui orientado pelo grande geógrafo e pensador Milton Santos, e ele me estimulou a continuar a pesquisa e a aprofundá-la”, contou Hatoum.
Ainda de acordo com o escritor amazonense, em 2001, Benedito Nunes, o grande filósofo, também crítico literário, convidou Milton para escrever um ensaio para um dos volumes de uma obra intitulada ‘Culturas Literárias da América Latina – uma história comparativa’. E esse ensaio foi publicado num livro, em um dos três volumes, em inglês, da Oxford University Press, em 2004.
“Bom, o livro foi publicado em 2006 pela Secretaria de Cultura do Pará e agora, recentemente, foi reeditado pela Companhia das Letras. Eu fiz essa apresentação, o livro manteve a maioria das fotos de Manaus e Belém e manteve também o belíssimo prefácio do professor Aldrin Moura de Figueiredo, que é professor da Universidade Federal do Pará. Então, daí surgiu dessa pesquisa, lá atrás, quando eu era estudante de arquitetura, e depois, com o convite do professor Benedito Nunes, eu acabei escrevendo essa crônica.”, explicou Hatoum.
Como foi o processo de interlocução para alinhar essas crônicas e como você percebe o cruzamento entre a filosofia de Benedito e a sua literatura na construção desse panorama cultural duplo da Amazônia?
Bom, o cruzamento da filosofia, você sabe que o Benedito Nunes foi um grande filósofo e crítico literário. Como filósofo, ele escreveu ensaios importantes sobre Heidegger e, como crítico literário, ele escreveu um livro importantíssimo sobre Clarice Lispector, que se chamou ‘Drama da Linguagem’. Escreveu também ensaios muito importantes sobre Guimarães Rosa, sobre Oswaldo de Andrade, enfim, sobre vários escritores brasileiros. E, modéstia à parte, não sendo eu um grande escritor, mas ele teve a generosidade de escrever um livro ensaio sobre ‘Dois irmãos’.
Mas, nesse texto, eu acho que o Benedito, ele foi mais historiador do que filósofo ou enquanto filósofo, ele foi mais um historiador e crítico cultural de primeira grandeza. Então, ele traçou a história de Belém do ponto de vista social, político, econômico e cultural. E é incrível como ele vai costurando essas várias instâncias da sociedade.
E o final da crônica é quase pessimista. Porque de algum modo, sem que a gente tivesse conversado sobre o texto de cada um, também o final da minha crônica tem um certo laivo de amargura. Porque nós vivemos, passamos a nossa infância, o Benedito mais ainda, porque ele era mais velho do que eu e conheceu uma cidade ainda muito preservada e eu conheci ainda uma Manaus com igarapés, com seus casarões.
Uma Manaus relativamente pequena, uma cidade de 300 mil habitantes, na minha infância. Muito pouco violenta, ao contrário da Manaus de hoje, uma cidade muito carente em tudo, uma cidade que, por exemplo, não tem calçadas. É um absurdo não ter arborização em calçada na maior metrópole da Amazônia.
Acho que o Benedito usou o seu conhecimento de história, de Belém e do Pará, para construir o texto dele. Eu também recorri a textos de história, a textos de arquitetura, a ensaios sobre a arquitetura de Manaus, sobre Manaus contemporânea e Manaus da época da borracha. Cito aí vários amazonenses e paraenses intelectuais e professores que escreveram sobre a nossa cidade.
Pensando na destruição dos igarapés e no crescimento urbano predatório que vocês dois apontam, você enxerga a literatura e a crônica histórica como formas de resistência ou apenas como o registro de uma batalha que a memória já perdeu para a ‘modernização’ das capitais amazônicas?
Agora, a literatura e a crônica histórica, elas são as duas coisas. São formas de resistência e também um registro muito vivo da memória. Porque eu, na literatura, nos meus romances, sobretudo em ‘Dois Irmãos’ e ‘Cinza do Norte’, Manaus é uma personagem. Então, eu tentei falar dessa transformação da cidade através da vida das personagens. Quem leu ‘Dois Irmãos’ ou ‘Cinzas do Norte’ percebeu isso.
A literatura também como uma forma de conhecimento da realidade, só que é uma realidade que foi inventada, que foi construída, que foi, enfim, moldada pela imaginação e pela memória.
Os dois textos falam dessa ‘modernização’, que é uma modernização, eu chamo de modernização postiça, porque ela contempla uma pequena parte da população. Isso serve para Belém também. O Benedito, na crônica dele, diz que nunca houve tantos ricos em meio de tanta pobreza.
Então, é isso que está acontecendo, uma concentração de renda enorme e uma massa de pobres, de miseráveis, inacreditável. Basta ver as periferias da Zona Leste de Manaus ou, na verdade, qualquer bairro, mas a Zona Leste, que é muito mais extensa, com bolsões de pobreza, com enormes bolsões de pobreza. E também no caso de Belém, acontece a mesma coisa.
Esse livro pode servir para uma reflexão sobre as nossas cidades. Tão amadas por nós e, ao mesmo tempo, tão maltratadas. Cidades em que poderiam ser belíssimas, a população poderia ter uma vida bem melhor se as políticas públicas fossem mais inteligentes e mais voltadas para o coletivo.
SOBRE O LIVRO

“Cada escritor elege seu paraíso, sabendo que se trata de um paraíso perdido”, anota, de saída, Milton Hatoum em seu texto sobre a cidade de Manaus. É sob o signo dessa perda — íntima, histórica e coletiva — que se constrói Crônica de duas cidades. Reunindo dois ensaios que, em surdina, dialogam entre si, o livro propõe uma leitura profunda e crítica de Belém e Manaus, cidades que nasceram entre rio e floresta e que, ao longo do século XX, foram progressivamente afastadas de seu entorno natural.
Benedito Nunes revisita Belém como quem recompõe uma cidade-história: do período colonial às ilusões da belle époque, do fausto da borracha à destruição de seus ícones urbanos, traçando uma reflexão aguda sobre memória, cultura e esquecimento. Milton Hatoum, por sua vez, percorre Manaus a partir da experiência pessoal e dos voos da imaginação e da memória, revelando uma cidade marcada pela violência contra os povos indígenas, pelo delírio modernizador e pela exclusão social. Sem nostalgia fácil, mas movidos por um forte vínculo afetivo por estes espaços, os autores interrogam o sentido do progresso e o preço pago por ele. O resultado é uma obra luminosa e inquietante sobre urbanização, identidade e perda. O que restou das ruínas de um passado tão recente, apagado abruptamente, brutalmente? Como podemos sonhar estas cidades para o futuro?