O silêncio que profana

Curioso como ninguém estranha o sino da igreja tocando ao amanhecer, o culto transmitido em caixas de som ou as procissões ocupando ruas inteiras. E nem deveria. A fé, quando vivida com liberdade, é um direito sagrado.
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É muito cruel quando alguém invade a fé do outro sem tirar os sapatos da arrogância. Não é apenas uma porta que se abre à força, um tambor que se cala ou um altar que se intimida. É a tentativa antiga de dizer quem pode rezar e quem deve se esconder para existir.

Em Manaus, mais uma denúncia de racismo religioso reacende uma ferida que o Brasil insiste em maquiar com discursos de tolerância enquanto parte de seu povo ainda é tratado como suspeito por carregar guias no pescoço, acender velas ou cantar para seus ancestrais. O terreiro, para muitos, não é apenas um espaço espiritual. É abrigo, memória, cura, acolhimento e resistência. Quando ele é desrespeitado, não se atinge apenas uma religião, atinge-se a dignidade humana.

Curioso como ninguém estranha o sino da igreja tocando ao amanhecer, o culto transmitido em caixas de som ou as procissões ocupando ruas inteiras. E nem deveria. A fé, quando vivida com liberdade, é um direito sagrado. O problema nasce quando algumas crenças são vistas como legítimas e outras como ameaça. Quando o preconceito veste farda moral, jurídica ou social para decidir qual espiritualidade merece respeito.

O racismo religioso não começa na violência explícita. Ele começa no riso debochado, na piada repetida, no olhar atravessado, no medo cultivado contra religiões de matriz africana. Cresce no silêncio de quem presencia a discriminação e escolhe não se envolver. E amadurece toda vez que a sociedade relativiza o sofrimento do outro porque sua fé não cabe dentro da maioria.

Nenhuma democracia será completa enquanto alguém precisar esconder seus símbolos religiosos para evitar humilhação. Nenhuma civilização pode se chamar justa se não aprende a conviver com a diversidade sem transformar diferenças em alvo.

Respeito não deveria ser favor, concessão ou exercício de conveniência. Respeito deveria ser inegociável. Porque antes de qualquer religião existe algo maior: a humanidade que compartilhamos.

O Brasil precisa compreender, de uma vez por todas, que liberdade religiosa não significa apenas permitir que o outro exista. Significa garantir que ele exista sem medo. E isso deveria ser obrigação moral de todos nós.

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