Copacabana – por Luciano Amorim

Prefiro ficar, olhar, escutar e lembrar que a vida não precisa deixar uma marca permanente para ter sido inteira.
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Copacabana já foi um areal.

Antes dos edifícios, dos hotéis, dos restaurantes, dos turistas e das fotografias, havia areia, vegetação, pescadores e uma praia difícil de alcançar. O bairro precisou de túneis, bondes e ruas para deixar de ser quase nada e se transformar em um dos lugares mais conhecidos do Rio.

Gosto de pensar nisso quando caminho pela praia.

Porque existe magia em olhar para um lugar tão cheio e lembrar que, um dia, ele foi vazio.

Hoje, Copacabana não sabe ficar quieta.

A cidade corre pela avenida, os ônibus passam, vendedores anunciam suas coisas, bicicletas atravessam a calçada, alguém fala ao telefone, alguém fotografa o próprio rosto. Há sempre uma pressa acontecendo.

Na areia, a pressa perde força.

As pessoas deitam, caminham, conversam, leem, namoram, dormem. Um menino constrói um castelo que não chegará ao fim. Uma mulher fecha os olhos diante do sol. Um homem olha para o horizonte como se esperasse alguma notícia.

Ninguém pergunta o que eles estão fazendo.

Essa é uma das belezas da praia: diante do mar, ninguém precisa justificar a própria existência.

E o mar está ali. Não silencioso. O mar nunca foi silencioso.

Ele quebra, bate, recua, avança, arrasta pedras, empurra conchas, conversa com o vento. Às vezes parece uma multidão. Às vezes, uma orquestra inteira tocando sem maestro.

Seu barulho não incomoda. Organiza porque é um barulho sem urgência.

A onda não corre para chegar a algum lugar. Ela simplesmente vem e volta.

Enquanto isso, nós passamos a vida tentando chegar a alguma idade, a algum cargo, a algum lugar, a alguma versão de nós mesmos que imaginamos ser melhor do que esta que está aqui.

Copacabana me parece bonita justamente porque coloca essas duas coisas frente a frente: a cidade que não para e o oceano que não precisa chegar a lugar nenhum.

Fico olhando as pessoas e imaginando quantas vidas cabem naquela faixa de areia.

Alguém chegou ao Rio para começar de novo. Alguém terminou um amor naquela manhã. Um outro alguém está apaixonado enquanto outro está sozinho. Alguém acabou de receber uma notícia que mudou tudo. Alguém não sabe ainda que sua vida vai mudar.

E todos caminham uns ao lado dos outros sem conhecer a história de ninguém.

É assim que uma cidade funciona. Milhares de intimidades atravessando o mesmo espaço.

A praia apenas torna isso mais evidente.

Naquele pedaço de areia, o mundo perde um pouco das suas hierarquias. O executivo, a garçonete, o turista, o vendedor, a criança, o aposentado, o homem que corre e a mulher que simplesmente olha para o mar ocupam o mesmo horizonte.

Diante do oceano, todo mundo fica pequeno. Não é uma diminuição, é uma medida.

O mar devolve ao corpo o tamanho que a cidade faz questão de esconder.

Por isso gosto do areal. Ele não guarda nada por muito tempo.

Uma pegada aparece e logo desaparece. Uma criança escreve alguma coisa na areia e a água apaga. Um casal deixa marcas que a próxima onda desfaz.

A areia não protesta e nem exige permanência. Ela simplesmente recebe e depois deixa ir.

Isso muito me interessa nela. Não a ideia de esquecer, mas a ideia de não precisar permanecer.

A gente passa boa parte da vida tentando deixar alguma coisa para trás: um nome, uma obra, uma fotografia, uma lembrança, uma marca.

A areia simplesmente recebe nossos pés. E isso basta.

Fico ali, olhando o mar fazer sua música, enquanto a cidade continua correndo atrás de alguma coisa.

Não sei exatamente o que ela procura.

Eu também já procurei.

Hoje, diante do areal de Copacabana, prefiro outra coisa.

Prefiro ficar, olhar, escutar e lembrar que a vida não precisa deixar uma marca permanente para ter sido inteira.

A onda quebra. A areia recebe. A cidade passa.

E, por alguns minutos, eu não preciso ir a lugar nenhum.

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