Para Jadna Alana, escrever do interior é um ato político. A escritora, vencedora do Prêmio Kindle de Literatura 2025, acredita que produzir literatura longe das capitais e dos grandes centros urbanos também significa disputar espaço em um cenário cultural que, historicamente, costuma dar mais visibilidade às vozes consideradas centrais.
Na avaliação da autora, escrever a partir de cidades pequenas, comunidades ribeirinhas e outros territórios afastados dos grandes centros é uma maneira de afirmar que essas realidades também fazem parte do país e merecem ser narradas.
“Quando escrevemos do interior, nós dizemos: o mundo também acontece aqui”, afirma Jadna.
A escritora questiona a ideia de que a literatura considerada universal precise estar necessariamente associada a uma produção urbana, branca ou distante das experiências regionais. Para ela, as histórias produzidas no interior carregam justamente aquilo que as torna particulares: a memória, o sotaque, os costumes, os lugares e as experiências cotidianas.
Literatura também nasce no cotidiano
Para Jadna, uma das forças da literatura produzida fora dos grandes centros está na capacidade de transformar experiências aparentemente comuns em narrativa.
São os causos contados dentro de casa, os nomes que permanecem na memória das famílias, as histórias de personagens anônimos e as experiências de comunidades inteiras que, muitas vezes, não chegam aos livros.
“É dar nome ao que ficou escondido. A gente pode tirar da gaveta os causos, os nomes esquecidos”, diz.
Nesse processo, a escritora entende que a literatura também exerce uma função de preservação da memória. Ao transformar essas experiências em histórias, escritores do interior ajudam a registrar modos de vida que podem desaparecer ou permanecer invisíveis diante de uma produção cultural concentrada nas capitais.
Um Brasil que também fala com sotaque
A reflexão de Jadna parte ainda da relação entre literatura e território. Para ela, a produção cultural não precisa abandonar suas características locais para alcançar outros públicos.
Pelo contrário. São justamente os elementos que identificam determinado lugar, o sotaque, os costumes, a paisagem, as relações familiares e os modos de vida, que podem dar identidade à narrativa.
“O interior, ao contrário, é localizado e é marcado, ele é cheio de memórias”, afirma a escritora.
Na visão dela, reconhecer essas características também é uma forma de devolver valor simbólico a histórias que durante muito tempo foram deixadas à margem.
“Escolher contar histórias com cheiro de casa, com personagens que falam, com enredos que vêm do cotidiano, é um modo de desenvolver dignidade simbólica a tudo aquilo que o discurso dominante tentou silenciar”, destaca.
Do interior para além das fronteiras
A trajetória de Jadna também mostra que uma obra nascida longe dos grandes centros pode alcançar reconhecimento nacional. Em 2025, a escritora venceu o Prêmio Kindle de Literatura, uma das principais premiações voltadas à literatura independente no Brasil.
O reconhecimento colocou sua produção em evidência e reforçou a possibilidade de escritores de diferentes regiões ampliarem o alcance de suas histórias sem precisar abandonar o território de onde vêm.
Para Jadna, essa permanência é parte importante de sua identidade como autora.
“Eu sou daqui, escrevo aqui e a minha literatura tem passado e presente”, afirma.
Mais do que uma defesa da literatura regional, a fala da escritora propõe uma mudança na forma como o país olha para sua própria produção cultural. Se durante muito tempo determinadas vozes foram consideradas periféricas, escrever a partir desses lugares pode ser justamente uma maneira de colocar essas experiências no centro do debate.
No fim, a literatura de Jadna parte de um lugar concreto, marcado por histórias, pessoas e memórias. E é nesse território que ela encontra matéria para escrever.
“Quando eu digo isso, eu tô pensando em pertencimento.”