O abraço de Nara

Uma apresentação intimista de Nara Leão, em São Paulo, em 1984, transformou um encontro inesperado em uma lembrança afetiva que resistiu à passagem de quatro décadas.
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Os da minha geração que se sentirem invadidos pela inveja que me perdoem. Mas não vou deixar de contar. Não vou mesmo. Não que seja meu propósito despertar inveja em quem quer que seja. Nada disso. Minha índole não me permite. Conto porque foi daqueles acontecimentos inesperados que, pela força da emoção, se alojam num cantinho da memória afetiva de longo prazo da gente. E só querem um motivo, qualquer motivo, para serem revisitados e revividos no rol das boas lembranças.

Dessa vez, o gatilho foi uma abençoada alma lembrar no Facebook que, neste 2024, se viva estivesse, ela teria 82 anos. Bastou para eu me reclinar na cadeira, fechar os olhos e me deixar invadir por completo pela doce lembrança: eu recebi e dei um abraço apertado e comovido em Nara. A Nara Leão! Isso mesmo! E lá se foram quarenta anos engolidos pelo tempo.

​ Era o ano de 1984. No bairro das Perdizes, Zona Oeste de São Paulo. A duas quadras da PUC, onde eu cumpria, desde o ano anterior, as formalidades para o mestrado, que eu terminaria no ano seguinte. Acho que era uma manhã de sábado. Naqueles tempos ainda distantes da chegada da internet. Quando a gente buscava o jornal na portaria do prédio, mas antes deixava um sorriso amigo e um amável bom dia para o porteiro. Depois, aboletava-se na poltrona mais confortável da sala do apartamento e dava início à sagrada liturgia da leitura do jornal do dia. Lá estava, no caderno de Cultura. O anúncio dizia que Nara Leão iria se apresentar no dia seguinte, às 11 da matina, no Centro Cultural São Paulo, a preço popular.

​Pois lá estava eu, domingo, 1 hora antes do início da apresentação. Acomodado em um banco não muito distante da frente do auditório. Já com meu ingresso garantido no bolso. Com algum tempo de vantagem, dividia minha espera entre o saco de pipoca, o relógio no pulso e a porta do auditório. De repente, virei o olhar despretensiosamente para o corredor à minha direita, que se estendia da entrada do prédio até a entrada do auditório. E, para minha baita surpresa, quem surge no início do corredor? Ela mesma! Nara Leão!

​Naquele momento, meu olhar passou a transmitir em câmera lenta os movimentos de Nara. E seus passos cadenciados me deixavam ver a simplicidade em pessoa. Sandália sem salto de cor preta, dessas que cobrem o rosto do pé com apenas três tiras. Calças jeans desbotadas, com as barras por fazer. Blusa branca de gola, com mangas curtinhas e um bordado indecifrável no peito. Cabelos curtos e arredondados repousando sobre os ombros. E uma franjinha lhe protegendo a testa. No rosto, o sorriso gracioso que parou no tempo e lhe dava o ar de sempre menina. Preso às costas por uma cinta que lhe atravessava o peito, o case com o violão. Só assim, com meu olhar captando as imagens em câmera lenta durante seu trajeto até a porta exclusiva que ficava antes da entrada do auditório, eu pude guardar, num cantinho exclusivo da memória, os lances da minha paixão de fã.

​Não era bem um auditório. Era um anfiteatro. Bem pequeno. Apenas quatro ou cinco fileiras de poltronas em volta de um tablado arredondado. Sobre ele, uma cadeira giratória. Ao lado direito da cadeira, uma mesa com um copo e uma garrafa com água. Ao lado esquerdo, o violão descansava no suporte. De repente, as luzes da plateia se apagaram. Segundos depois, um jato de luz foi buscar Nara na lateral do anfiteatro e a conduziu à cadeira giratória. E vieram os primeiros aplausos. E vieram os primeiros acordes. E a voz de Nara se espalhou pelo ambiente. E a doce e meiga voz de Nara acalentou os meus ouvidos e hipnotizou o meu olhar:

​Agora eu era o herói
​E o meu cavalo só falava inglês
​E a noiva do cowboy
​Era você além das outras três…
​
E eu ali, na primeira fileira de poltronas. Bem de frente para Nara. A apenas três metros de Nara. Quase a ouvir a respiração de Nara.

Foi quando a voz de Nara salpicou de ternura o anfiteatro com os últimos versos de João e Maria:

Pois você sumiu no mundo sem me avisar
Agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Daí, então, dei um pequeno salto da poltrona. E, tomado por uma incontrolável emoção, me danei a bater incessantes palmas. Nara se curvou para o público em agradecimento. Depois me dirigiu um olhar afetuoso acompanhado de um riso contido. Assim como quem parecia estar segurando um riso maior. Foi quando eu olhei em redor. E me dei conta de que eu era a única criatura no auditório, ainda de pé, batendo palmas. Esbocei uma cara meio envergonhada. Voltei a me sentar. Nara não perdeu a viagem. Alargou o riso. Encarou-me. Deu duas balançadas na cabeça em cumprimento àquele fã que tinha se excedido na emoção.

Depois vieram “A banda”, “O Barquinho”, ‘Além do horizonte”, “Diz que eu fui por aí”, “Desafinado”, “Opinião” e tantas outras canções. Mas só sei que, depois daquele olhar direto de Nara para mim, esqueci completamente que não estava sozinho no anfiteatro. Convenci-me de que aquele show tão intimista era exclusividade meu. Meu e de Nara. E só acordei dessa ilusão quando ela devolveu o violão para o suporte ao seu lado, deu dois passos à frente e começou a se despedir do público. Mas o êxtase maior estava por vir.

Como esquecer? O público já deixava o anfiteatro. Eu estava em pé. Batia palmas freneticamente. Sozinho, como da outra vez. O olhar hipnotizado na direção de Nara. Tão pertinho de Nara. De repente, não mais que de repente, ela deu uns três passos em minha direção. Interrompi as palmas. Nara enlaçou-me num gentil abraço. Petrifiquei. A princípio, não sabia o que fazer. Meus braços ficaram esticados como os de uma estátua. Até que, libertando-me daquele estado catatônico, fechei os braços e retribuí com a mais profunda ternura o abraço de Nara.

No mais, quando dei por mim novamente, estava sentado no banco do corredor. Perto do pipoqueiro. Absorto naquele abraço que não se desfizera. Ao mesmo tempo em que continuava a ouvir a voz de Nara. Ela cantava só pra mim os derradeiros versos de João e Maria:

Agora era fatal
Que o faz de conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim

Pois você sumiu no mundo sem me avisar
Agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

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