Não é de hoje que a Amazônia costuma ser narrada sob o signo da abundância: fartura de verde, de água, de umidade e, sobretudo, de calor. Não raramente, essa temperatura é convertida, inclusive, em marca do exotismo, um traço sensorial que só ratifica a distância entre o Norte e o olhar de quem o observa de fora.
Quando me propus a escrever literatura – de ficção e de não ficção – estava ciente da força inescapável do clima e, à medida que escrevia, percebia com mais e mais nitidez que me interessava seguir outro caminho: não o do calor como espetáculo, mas como experiência vivida. Mais do que cenário, o clima me parecia uma condição material da existência, algo que organiza o trabalho, forja o cansaço, altera os humores e penetra nos vínculos humanos.
Percebi também que, historicamente, outras regiões do país também leram (e ainda leem) o Norte sob o signo da exceção; quase sempre associado ao exotismo, à metáfora do selvagem, ao extraordinário. A imensa Amazônia: menos como experiência cotidiana e mais como paisagem mítica ou cenário alegórico.
Nos últimos anos, contudo, a literatura contemporânea tem tensionado esse olhar. Autores do Norte vêm deslocando a Amazônia do campo do extraordinário para o da experiência comum, cotidiana, urbana, contraditória. É possível sentir esse deslumbramento renovado. Não o deslumbramento do exotismo, mas o da complexidade humana, ao ler, por exemplo, Ayrton Souza em Outono de Carne Estranha ou Monique Malcher em Degola. Essas obras não recorrem ao estereótipo; ao contrário, revelam personagens atravessados por tensões históricas, urbanas, afetivas e, sobretudo, políticas, mostrando uma Amazônia que não se reduz à floresta nem à metáfora. Portanto, a ênfase não está restrita à paisagem contemplada, mas na pele que reage, na umidade que se impõe, no organismo que precisa se reorganizar a partir da mudança climática impossível de ser ignorada. Antes de ser compreendida, a Amazônia é sentida. Não há distância segura entre sujeito e ambiente, pois entra-se nesse espaço sendo imediatamente tocado por ele.
Essa percepção se amplia quando o clima deixa de ser considerado apenas sensação e passa a operar como força histórica. O calor não compõe uma moldura dramática, antes redefine trajetórias e redesenha geografias afetivas. No cotidiano, essa força se manifesta de maneira menos espetacular, porém não menos decisiva. O ambiente se infiltra nas relações e reorganiza a sociabilidade. O comércio, espaço tradicional de trocas, torna-se território de tensão. O calor produz exaustão e essa exaustão não é apenas física, mas social.
É nesse ponto que a reflexão de Ailton Krenak me ajuda a aprofundar essa leitura. Em Ideias para adiar o fim do mundo, ele escreve:
“Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida.”
Se tomo essa ideia como lente de aumento da realidade que me cerca e cogito novas interpretações, começo a entender o exotismo não como algo positivo e sim como uma tecnologia de distanciamento. Afinal, ao transformar o ambiente em espetáculo, ou seja, algo a ser visto, admirado ou consumido simbolicamente, ele impede que esse mesmo ambiente seja reconhecido como realidade vivida. Exotizar se transforma então em produzir ausência: é olhar sem habitar, descrever sem ser afetado, converter a experiência concreta em imagem distante; essa distância que permeia a mente de quem mora nas demais regiões do país e continua a pensar a Amazônia como um lugar longe e misterioso.
Não à toa, escrever o calor como experiência cotidiana é também um gesto crítico que escolho praticar na minha literatura. Significa recusar essa produção de ausências e recolocar o corpo no centro da narrativa. Significa lembrar, acima de tudo, que o clima não circunda a vida, ele a traspassa com toda a força. No entanto, reduzir o calor a uma força hostil seria igualmente simplificador. Há uma ambivalência que me parece fundamental preservar. Quando a experiência do encontro com a literatura produzida aqui é comparada à água morna do fenômeno do Encontro das Águas entre os rios Negro e Solimões, o que emerge é outra dimensão térmica: a do acolhimento. O calor também pode ser vínculo, mistura, pertencimento. Ele dissolve distâncias, aproxima corpos, cria intimidade. O território tanto impõe, bem como pode abraçar.
Talvez o meu maior desafio enquanto alguém que escreve sobre a Amazônia seja escapar das imagens fáceis. A paisagem que procuro narrar não é espetáculo para o olhar distante; é cotidiano. Para quem vive aqui, o calor não surpreende, organiza. Determina horários de trabalho, regula pausas, exige estratégias de sobrevivência física, influencia o humor, o desejo e até os modos de convivência. Ele está na fadiga das tardes, na lentidão dos gestos, na necessidade de adaptação constante. Isso para mim se torna evidente quando tenho a oportunidade de viajar para outra regiões e comparo as diferenças no cotidiano diante de um clima mais ameno.
Hoje, depois de uma década escrevendo literatura cuja paisagem é o Amazonas, me parece claro que o calor atua como uma espécie de personagem. Move decisões, tensiona afetos, aprofunda exaustões e também aproxima. Certos conflitos talvez não existissem sem essa temperatura; certos encontros talvez não se dessem em um clima mais brando. O ambiente integra a própria engrenagem narrativa.
Se há algo que aprendi ao escrever nascendo e habitando a Amazônia é que não existe vida fora da natureza. O que muitas vezes se apresenta como pano de fundo é, na verdade, matéria constitutiva da experiência. Reconhecer isso é abandonar a lente do exotismo e aceitar uma evidência simples, embora frequentemente esquecida: não observamos o mundo de fora. Vivemos dentro dele.
Por fim, compreendo que narrar o calor não se trata apenas de descrever uma condição climática. É tentar registrar como o território se inscreve nos corpos e como os corpos, por sua vez, aprendem a existir sob determinada temperatura. Talvez por isso eu desconfie cada vez mais das paisagens que se oferecem apenas ao olhar. Interessa-me aquelas que nos transpassam e que, uma vez sentidas, continuam a abrasar dentro de nós.