Um dos maiores desafios para um escritor é criar uma história que toque o leitor e gere a famosa sensação “terminei de ler e preciso de um tempo para absorver aquela história”. Monique Malcher faz isso em seu romance Degola.

Somos conduzidos para uma ocupação de terra em Manaus, o chamado Mundo Novo, que não representava apenas um pedaço de chão, e sim, a esperança de um recomeço para a família que perdeu o filho caçula. Alfredo, Joana e Sol, arrumam as malas rumo ao desconhecido e cheios de sonhos, para serem deflagrados pela crueza do que é ser pobre no Brasil.
“Não entrava transporte público na ocupação porque para a prefeitura de Manaus a gente não existia. A maioria dos bairros Manauaras nasceram assim, em terras esquecidas que pessoas sem condição alguma loteavam e ali erguiam seus barracos.”
O livro narra a falha do Estado em proporcionar qualidade de vida para pessoas que buscavam ter um teto digno para prosperar e criar seus filhos com as mesmas oportunidades que contrastavam com os magnatas da Zona Franca de Manaus. Degola pinta a realidade com autenticidade.
Sol é uma mulher que cresceu na pobreza vendo um pai que sempre tentava coisas novas e uma mãe que não conseguia superar o luto pelo filho. O enredo costura minuciosamente uma sequência de violências que Sol sofre ao procurar alguma demonstração de afeto em sua mãe enlutada e no distanciamento emocional que vive com o pai.
Existem dores que o tempo não cura, feridas que o tempo faz dilatar como uma fenda rochosa sofrendo o processo de erosão causado pela vida desgastada pelas decepções, lapidadas pelas mágoas difíceis de superar. Certas dores são desfiladeiros pelo qual se derrapa e cai sem se ver a profundidade.
Sol é uma protagonista que nos permite ver como a ocupação molda sua forma de entender o mundo, até que ponto somos transformados pelas ações que outras pessoas pregam em nossas vidas e pela amizade com duas galinhas que são a própria personificação de uma menina tão solitária que encontra amizade em dois animais.
A escrita de Monique Malcher transforma dor e sofrimento em poesia, ilustra que o ato de crescer pobre no Brasil é algo pago com a própria infância. Sol precisou crescer rápido, teve que superar a linha tênue de ternura e violência emocional que vivia com os pais e, no fim, ser maior que a violência que sentia que merecia para si mesma.
“Sou no agora adulta e encaro essa parte que não me cabe decidir se boa ou ruim. A dor não me coroou com ensinamentos, só me fez demorar a gostar de estar viva no mundo que os adultos me apresentam.”
Degola não é o tipo de história que pede licença para acontecer, quando você percebe, já está mergulhado nos traumas de infância que levaram Sol a ser uma mulher solitária que, embora esteja cheia de cicatrizes, ainda busca encontrar sentido em continuar existindo.
Durante o evento do Festival Literário do Centro, promovido pelo Centro Cultural Casarão de Ideias de Manaus, tive o prazer de fazer uma breve entrevista com a autora Monique Malcher.
Na ocasião, perguntei: “muito se fala sobre a literatura regional, literatura nacional e universal, mas, para você, qual é a literatura que toca o leitor?”
A resposta que tive foi: “Eu acho que a literatura estremece aquilo que são nossos medos e tensões, é claro que um livro que toca nossas belezas também mexe com a gente. Como leitora, sinto que o que mexe comigo é quando o livro me convoca a me olhar no espelho e encarar esse medo profundo que o ser humano tem de ver suas inseguranças expostas, estamos o tempo todo fingindo que somos seguros. Quando a literatura não tem medo, nos sentimos confrontados. Pensando como esse autor ou autora nos mostra uma história sem medo, e como vou internalizar isso. A literatura não responde, ela faz você criar novas perguntas, essa é a literatura que me move”.
Monique nunca soube que essa entrevista não foi publicada porque meu microfone desligou sem que eu percebesse, me deixando um vídeo com áudio péssimo. Contudo, deixo aqui nessas linhas o registro de que sim, sua literatura me confrontou, agora escrevo como um leitor que performa segurança.
Enquanto, na verdade, estou exposto pelo desfecho de Degola, e precisando de um tempo para absorver cada sentimento que essa história desencadeou em mim.
Por: Eber Bentes
Revisão: Deuziane Sackamulth