As manhãs são para quem as acha lindas

É incrível como nosso ser passa a perceber tudo em volta com o peso dos anos acumulando-se em nossas costas.
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As manhãs são para quem as acha lindas.

De meu lado, jamais serei eu a dizer que não são, mesmo quando chuvosas. Acordar é ter outra chance. Desde o meu nascimento até o dia de hoje, momento em que escrevo, já se foram cerca de 14.762 manhãs. De todos os tipos.

Houve aquelas em que acordei feliz; outras em que meus olhos se abriram e, dentro do peito, apanhava um coração partido. Outras mais em que tive tanto medo, que o simples respirar trazia o pânico. Também aquelas em que a tristeza parecia não ter fim. Mas, para o respirar da alma, as melhores continuam sendo as manhãs em que saber que a vida ainda corre pelas veias é a felicidade enraizada na esperança de que poderei ler, ver, sentir e ouvir aqueles que amo novamente.

Seria hipocrisia deixar de fora as manhãs de ressaca moral, as de ressaca literária, aquelas provocadas pela própria vida e, pasmem — contém ironia —, as de ressaca de mim mesma.

Remoendo, e não refletindo, consigo compreender (mesmo que me doa admitir) que nunca, de fato, encarei essa parte crucial do dia como uma possibilidade de recomeço. Apenas abri os olhos, quase no automático. Absorvi pelas narinas e pelos poros o cheiro do café e do pãozinho com manteiga, comi saboreando o vício diário e parti para a rotina.

Hoje, no entanto, ao encarar a rua vazia por detrás da sensação de segurança das grades da minha casa alugada, sinto como se uma corrente elétrica se espalhasse pelo meu corpo. Ela me faz enfrentar a percepção de que aquelas manhãs de final de semana da infância não voltam mais.

Época em que minha mãe fazia uma lancheira modesta de pão com manteiga e cafezinho, e meu pai levava a mim e a minha mana do meio, a Dara, para trabalhar na Difusora com ele. Depois, quando acabava de apresentar o programa que tinha aos sábados, vinha o nosso passeio clandestino de canoa pela orla da Panair.

Mamãe só soube dos nossos passeios quando minha irmã soltou, sem querer, que viu um tubarão no rio. Meu pai, então, se viu obrigado a reduzir a frequência das nossas escapadas. Até um barco viking nós vimos — e isso é pura verdade. Essa, inclusive, foi uma das melhores manhãs da minha vida.

O cheiro do rio, dos peixes, o aroma da comida nas bancas da feira, dos temperos, das garrafadas, das pessoas que caminhavam e trabalhavam de um lado para o outro… Até mesmo o cheiro da sujeira pelas sarjetas na Panair, nos Barés, nas proximidades do Roadway. Tudo isso jamais será o mesmo, ainda que permaneça familiar.

É incrível como nosso ser passa a perceber tudo em volta com o peso dos anos acumulando-se em nossas costas. A cada nova manhã, é como se ficássemos mais livres, mas também como se nos tornássemos semelhantes a Atlas. É como se perdêssemos mais e mais memórias olfativas e afetivas. Mas também é como se destravássemos outras, mesmo que em menor quantidade.

Aquelas manhãs em que eu pegava o 010 ou o 004, na parada em frente à dona Kika, ou até mesmo agora, quando pego o 415 no terminal para ir ao trabalho, nunca foram encaradas como chances ou possibilidades. Eram — e talvez ainda sejam — a rotina de alguém que precisa sobreviver porque não existe possibilidade contrária.

Escutar as conversas paralelas de trabalhadores, estudantes, aposentados e até dos assaltantes — em meio às vendas de balas de mangarataia, cantores anônimos e pedidos de doações diários — nunca me pareceu parte de uma aventura, embora sempre tenha sido.

Engraçado, pois mesmo que meus ouvidos de escritora não tenham descanso e permaneçam atentos até mesmo ao indivíduo que é contra o uso dos fones de ouvido, coletar o cotidiano seguia como algo entre a empatia e o automático. Acho que dei por mim, apenas recentemente, de que cada pessoa naquele compacto espaço de metal ambulante também era e é como uma manhã, a seu próprio modo.

Houve uma época em que eu costumava pegar as madrugadas quase com as mãos e ver o sol raiar, mas isso foi há muito tempo, quando ainda vivíamos numa casinha de madeira no Morro da Liberdade — antes de o meu corpo decidir de vez que não foi feito para tal.

Nos últimos vinte anos, acordar antes das dez tem sido uma verdadeira sessão de tortura. Primeiro, pela fadiga crônica — embora o que eu mais ame seja o desejo à vida crônica. Segundo, pela rigidez matinal, que me coloca em um estado muito próximo ao de uma múmia (sem a parte da opulência e dos servos e animais também empalhados). Terceiro, pela vontade gigantesca de querer ir além, enquanto o corpo simplesmente determina que não é isso o que ele quer. Quarto, mas não menos importante, os dias em que até os cabelos doem e partes do corpo parecem estar em combustão.

Com tudo, e não contudo, passei a entendê-las como dádivas.

Meu relógio indica 10h. Chego atrasada para o trabalho todos os dias (mesmo compensando meus horários, para que fique registrado). Quando saio de casa, a cidade já está totalmente desperta: estudantes entrando e saindo da faculdade, sem-tetos dormindo nos bancos da praça em frente à igreja. E devo dizer que nunca entendi por que os portões da casa que seria de Deus permanecem fechados para eles, quando poderiam abrigar essas pessoas para uma noite de sono sem medo e sem frio, assim como queria Jesus — mas são apenas conjecturas minhas.

A agitação é palpável, mesmo nos dias de chuva. Mães e pais caminham com os filhos rumo às escolas. Jovens e idosos correm pela calçada — e os invejo, porque deveria me exercitar, mas detesto.

A travessia até o terminal sempre parece a mesma, mas nunca é: os carros, as motos, a temperatura, o vento, eu mesma. Policiais fazem a ronda nas viaturas e, dentro do terminal, a guarda municipal faz o mesmo. Mas é quase impossível que um ou dois ônibus não sejam assaltados ao longo do dia — e estou sendo otimista em minhas estatísticas.

X-caboquinho, pão na chapa, salgados fritos, café, suco, guaraná, bolsas, cintos, bijuterias, máscaras e tantas outras quinquilharias e trecos dividem espaço com as pessoas que esperam seus ônibus para seguir com o resto do dia.

São apenas as primeiras horas de uma nova data do calendário. Aniversário de alguns dos que circulam, com certeza; e é provável que alguns deles também encontrem o fim de seus próprios ciclos.

Se para o bem ou para o mal, a manhã é um novo dia, e amanhã vai ser outro dia.

Sim, caros, as manhãs foram feitas para quem as acha lindas.

 

 

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