Vivemos entre cansaços e viagens imaginárias… um pouco de ficção sempre cai bem!

Sou encantada com esse livro, a capa é linda, tem ele sorrindo, de braços dados a amigos, bonita cena! Gosto de pensar que poderíamos ter sido amigos. É para isso que servem os poetas, afinal, tornam-se testemunhas da sua vida, da sua dor, da sua indignação…como no “Poema em linha reta”.
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De vez em quando procuro algo no livro de Fernando Pessoa “Quando fui outro” (edição da Alfaguara, 2006, organizada por Luiz Ruffato), que tenho há anos, algo que nem sei o que é, deixo ao acaso, mas é incrível como sempre “descubro” um poema novo! Foi o que aconteceu agora. Neste momento ( sim, meus deuses escritores podem se manifestar em sinais comigo!), ao abrir uma página , tipo oráculo mesmo, o poema “Cada coisa a seu tempo tem seu tempo” estava lá, me desafiando, me encarando. Penso ser um poema que diz da hora e do tempo. De coisas que estão seguindo o seu curso, mas que é preciso sabedoria e silêncio para compreender, por exemplo.

 

“À lareira, cansados não da obra

Mas porque a hora é a hora dos cansaços,

Não puxamos a voz

Acima de um segredo, (…)”

 

Sou encantada com esse livro, a capa é linda, tem ele sorrindo, de braços dados a amigos, bonita cena! Gosto de pensar que poderíamos ter sido amigos. É para isso que servem os poetas, afinal, tornam-se testemunhas da sua vida, da sua dor, da sua indignação…como no “Poema em linha reta”:

 

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

(…)

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?”

 

Sinto-me só, talvez sob efeitos da recente síndrome do ninho vazio, que me pegou de jeito…filhos voam e está tudo certo. Ninho vazio. Hora de escrever e pensar.

Ontem, terminei de ver a série “A vida mentirosa dos adultos” baseada na obra de Elena Ferrante, pseudônimo  da escritora Italiana de “Tetralogia Napolitana“, “A filha perdida” , entre outros. Estou ainda sob os efeitos da trama, acho bom isso, pois o encantamento tem o poder de me tirar do tédio, traz um desassossego ansioso na alma, acho bom.

Elena Ferrante é o pseudônimo de alguém que desde os anos 1990 vem encantando e desafiando a sociedade burguesa/intelectual Napolitana (e mundial) com suas histórias, tramas e dramas. Penso eu, e muita gente também, que ela pode nem existir de fato, pode ser um coletivo autoral, talvez, imaginação corre solta. Enfim, decerto alguém que viveu (ou nasceu) em Nápoles, só assim para descrever a alma,  tão bem, daquela gente!

 

Eu estive  em Nápoles por duas vezes, desci aquelas escadarias que dão acesso a mundos diferentes; da Via dei Mille, dos Hotéis de luxo e lojas exclusivas a classes sociais que vão se desprendendo do luxo e da polidez para dar lugar à gritaria majestosa das feiras ao ar livre! Saí para passear, enquanto o marido tinha ido a uma reunião de negócios, e distraída que sou , me perdi descendo, e descendo mais, as escadas que levam ao mercado de pesca do Mar Tirreno, onde uma enseada se forma para dar vista ao Monte Vesúvio.

 

Ao ler os livros de Elena Ferrante, automaticamente, me transporto para esse cenário e ao mundo matriarcal que faz a roda da vida girar em seus romances, seja preparando a “pasta”, seja manipulando os cordões da difícil harmonia familiar. Voltei para casa com uma marionete do Pinocchio na mala e uma vontade enorme de retornar um dia. Voltei pelas mãos dessa autora magnífica, muitas vezes, principalmente no romance “A vida mentirosa dos adultos”, uma história de reencontros , de laços rompidos no passado, de desencontros, lacunas e feridas abertas…até o dia que o destino (ou alguém) venha os reunir novamente, pelo meio do caminho, pelas escadarias ruidosas.

 

A poesia e as narrativas em prosa têm o poder de nos trasladar, automaticamente, a lugares incríveis e inimagináveis. A mágica se dá sem que o corpo saia do lugar. Como no poema de Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa):

“Ah, um soneto…”

 

Meu coração é um almirante louco

Que abandonou a profissão do mar

E que vai relembrando pouco a pouco

Em casa a passear a passear…

 

No movimento (eu mesmo me desloco

Nesta cadeira, só de o imaginar)

O mar abandonado fica em foco

Nos músculos cansados de parar.

 

Há saudades nas pernas e nos braços.

Há saudades no cérebro por fora.

Há grandes raivas feitas de cansaços.

 

Mas – esta é boa! – era do coração

Que eu falava… e onde diabo estou eu agora

Com almirante em vez de sensação?…

 

Por : RITA ALENCAR CLARK

Em 10/06/2026

 

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