
Às vezes eu tenho a impressão de que o Brasil olha para o Norte como quem olha para uma fotografia antiga. Admira, comenta, acha bonito, até se emociona, mas não chega perto.
Quando se fala em literatura nortista, ainda aparece, quase automaticamente, o mesmo repertório: floresta, rio, boto, cobra-grande, matinta, pajé, lenda, encantamento. Como se todo escritor nascido no Norte tivesse recebido, junto com a certidão de nascimento, a obrigação de colocar uma criatura fantástica em cada capítulo.
Isso me incomoda. Não porque eu tenha qualquer problema com os mitos, as lendas ou as histórias que atravessam a Amazônia. Muito pelo contrário. Elas fazem parte de uma memória profunda, de uma maneira de contar o mundo que merece ser preservada e reinventada.
O problema é quando isso vira a única maneira pela qual o Brasil consegue nos enxergar.
O Norte também tem ciúme, adultério, solidão, racismo, desejo, velhice, infância, abandono, violência, política, dinheiro, família, sexo, morte, humor, fracasso, ambição. Tem gente que acorda cedo para trabalhar, tem gente que não consegue pagar as contas, tem mãe enterrando filho, tem gente se apaixonando no ônibus, tem gente envelhecendo sozinha, tem gente querendo ir embora e gente fazendo de tudo para ficar. Tem vida. E onde existe vida, existe literatura.
É aí que mora o problema: ainda há quem espere que a literatura do Norte explique a Amazônia, quando ela deveria simplesmente poder contar histórias.
É muito estranho que um escritor nortista precise ser permanentemente identificado pelo lugar de onde veio.
Ninguém apresenta um escritor paulista como “um escritor do Sudeste que escreve sobre pessoas”. Ninguém precisa explicar que um romance carioca pode falar de solidão. Ninguém olha para um livro mineiro e pergunta, antes de qualquer coisa, onde está a montanha.
Mas basta um escritor do Norte publicar um livro para aparecer a pergunta: “E a Amazônia?”
Como se a Amazônia não pudesse estar justamente naquilo que não parece Amazônia.
É por isso que eu gosto tanto de lembrar de nomes como Odenildo Sena. Há uma delicadeza em sua escrita memorialística que não precisa de pirotecnia para alcançar o leitor. Em “Memórias de Menino”, por exemplo, ele volta à infância, ao bairro de São Raimundo, às relações familiares, às pequenas lembranças que vão ficando guardadas na gente.
E o que existe de mais amazônico nisso? Tudo. E, ao mesmo tempo, nada. Porque a infância de Odenildo é amazonense, mas a saudade é de todo mundo.
É aí que a literatura deixa de ser regional e passa a ser humana.
Tenório Telles também ocupa um lugar importante nesse pensamento. Professor, poeta, ensaísta, dramaturgo e crítico literário, ele há décadas trabalha para que a literatura produzida no Amazonas seja lida, discutida e preservada. E essa é uma das tarefas mais difíceis: não apenas produzir literatura, mas construir leitores capazes de reconhecê-la.
Porque não basta escrever. É preciso que alguém esteja disposto a ler, e ler sem preconceito.
Sandra Godinho é outro desses nomes que me parecem impossíveis de ignorar. Sua literatura não está interessada em deixar a Amazônia bonita para quem olha de fora. Está interessada em mexer nas feridas. Em Tocaia do Norte, A Secura dos Ossos, O Negro Secou e em tantos outros trabalhos, a autora se aproxima de memórias, violências e personagens que muitas vezes foram empurrados para as margens da história. Seu trabalho crítico já foi reconhecido como uma literatura que transforma memória em lembrança, denúncia e resistência.
Isso não tem nada de exótico. Tem humanidade.
Airton Souza, vindo de Marabá, no Pará, também desmonta essa ideia de que a literatura nortista precisa caber numa única forma. Poeta, cronista, contista, romancista, autor de literatura infantojuvenil, construiu uma obra extensa a partir das ruas, das pessoas, da periferia, da memória e das vozes que muitas vezes não tiveram oportunidade de contar a própria história.
E que coisa bonita quando a literatura faz isso: quando alguém escreve não apenas sobre um lugar, mas de dentro dele.
Há ainda tantos outros.
Dalcídio Jurandir, que fez do Pará e do Marajó matéria de uma das obras mais importantes da literatura brasileira do século XX.
Milton Hatoum, que colocou Manaus no mapa da grande ficção brasileira sem precisar transformar a cidade em uma caricatura amazônica.
Márcio Souza, que entendeu que a história da Amazônia também podia ser contada com ironia, inteligência e irreverência.
Astrid Cabral, Thiago de Mello, Luiz Bacellar, Paes Loureiro, Myriam Scotti, Thiago Roney entre tantos outros que construíram e continuam construindo essa literatura.
Eu preciso dizer uma coisa que ainda parece óbvia demais para precisar ser dita: o Norte não precisa provar que produz literatura. Produz. Sempre produziu. O que falta, muitas vezes, é o Brasil ler.
Ler sem aquela condescendência meio disfarçada de admiração e sem esperar que todo livro venha acompanhado de uma aula sobre a floresta.
Ler como se lê qualquer grande literatura: com atenção, desconfiança, desejo, disposição para discordar, com a coragem de entrar numa história e deixar que ela nos desorganize um pouco.
Porque literatura foi feita, entre outras coisas, para nos apresentar aquilo que ainda não conseguimos enxergar.
Por isso que olhar para o Brasil profundo é uma das maneiras mais bonitas de entender o Brasil inteiro.
Não o Brasil dos discursos oficiais ou das capitais que aparecem no mapa com letras maiores. Não o Brasil que se acostumou a falar por todos.
Mas o Brasil das margens, das distâncias, das cidades esquecidas, dos bairros, dos rios, das estradas, das casas de madeira, dos prédios de concreto, das universidades, dos terreiros, das bibliotecas pequenas, das livrarias que insistem em existir.
O Brasil que escreve, que lê e que ainda está tentando contar a própria história.
Falta a uma parcela do leitor brasileiro aceitar que não existe apenas um Brasil possível e que o Norte não está aqui para alimentar a imaginação de ninguém.
O Norte não é cenário, folclore ou exotismo. Não é uma paisagem à espera de um escritor de fora para finalmente ganhar significado. O Norte é sujeito. E quando seus escritores escrevem, não estão simplesmente contando histórias sobre uma região distante.
Estão falando de nós e nossos medos e desejos. Estão falando de poder, amor, perda, memória e vida.
Por isso, passou da hora de perguntar o que há de amazônico na literatura do Norte. A pergunta deveria ser outra: o que há de brasileiro em tudo aquilo que ainda não nos ensinaram a ler?
A resposta deve estar no livro que ficou fora da lista, no escritor que nunca chegou às grandes vitrines, na autora que publicou quase sozinha, no poeta que escreve numa cidade distante dos centros editoriais, na história que não acontece em São Paulo, Rio ou Belo Horizonte.
Porque um país só começa a se conhecer de verdade quando deixa de olhar para si através de um único espelho.
E o Brasil, convenhamos, ainda precisa de muitos espelhos. Um deles é o Norte.
Não para mostrar um Brasil diferente. Mas para mostrar, finalmente, o Brasil inteiro.