Há um verso de Rodrigo Bittencourt cantado por Thaís Gulin em “Cinema Americano” que sempre me encontra antes que eu o encontre:
“Prefiro o poeta pálido
Anti-homem que ri e que chora
Que lê Rimbaud, Verlaine
Que é frágil e que te adora
Que entende o triunfo da poesia sobre o futebol
Mas que joga sua pelada
Todo domingo debaixo do sol”
Nunca consegui ouvir esse trecho da canção como quem ouve uma comparação. Escuto como quem recebe uma provocação. Porque é verdade: a poesia vence.
Vence porque permanece quando o estádio esvazia. Porque sobrevive ao placar, à tabela, ao campeonato. Porque um poema pode atravessar séculos sem perder o fôlego, enquanto até a mais gloriosa das finais acaba reduzida a uma estatística. A poesia transforma o instante em permanência. O futebol, por mais bonito que seja, parece condenado ao apito final.
Mas então chega o domingo.
E um homem de quarenta anos coloca uma chuteira já cansada, amarra o cadarço com a solenidade de quem veste um terno para um casamento. Outro inventa uma desculpa para a dor no joelho e vai assim mesmo. Um terceiro leva o filho para assistir, na esperança de que ele herde alguma coisa que não cabe em herança nenhuma.
E eles jogam. Não por dinheiro, nem por fama e muito menos pela taça que nunca existiu. Jogam porque durante noventa minutos o mundo diminui até caber entre duas traves improvisadas.
É aí que a frase da música muda de lugar dentro de mim.
Talvez a poesia triunfe sobre o futebol quando está escrita no papel. Mas, no campo de terra, é o futebol que vira poesia.
Há metáfora em um drible que ninguém esperava. Há rima na sequência de passes que encontra o companheiro sem que uma palavra seja dita. Há um soneto inteiro no silêncio que antecede um pênalti. E existe uma beleza estonteantemente literária naquele jogador que sabe que não vai mais correr como antes, mas corre mesmo assim.
A poesia escreve com palavras; o futebol escreve com corpos e os dois tentam a mesma coisa: dizer o indizível.
Essa é a razão pela qual tanta gente chora diante de um gol sem conseguir explicar exatamente por quê. Não é a bola entrando. É alguma coisa muito antiga acertando em cheio um lugar que nem sabíamos que existia.
No fundo, ninguém joga futebol por causa da vitória. Joga por causa da infância. Aquela que continua escondida dentro de um homem grisalho que ainda pede “mais uma” antes de ir embora. Aquela que faz um adulto esquecer o relógio, o trabalho, as contas, a pressão alta e a segunda-feira. Durante uma pelada de domingo, o tempo aceita perder.
E esse é o verdadeiro triunfo da poesia: lembrar que a vida vale pelos instantes em que ela deixa de ser útil para simplesmente ser bonita.
O futebol faz isso de um jeito que os poemas invejam. Então, não. Não acredito mais que exista um vencedor nessa disputa.
A poesia entende o futebol porque sabe reconhecer a beleza quando ela aparece suada, com a camisa encharcada e barro na canela.
E o futebol entende a poesia porque, mesmo sem escrever uma única palavra, consegue fazer milhares de pessoas sentirem exatamente a mesma coisa ao mesmo tempo.
No fim, o verso de “Cinema Americano” esconde um segredo: quem compreende o triunfo da poesia sobre o futebol continua jogando sua pelada todo domingo debaixo do sol porque descobriu que algumas poesias não foram feitas para serem apenas lidas. Foram feitas para serem vividas.