Na última quinta-feira, li uma notícia que me trouxe certa felicidade. Ao tomar conhecimento daquele fato, meu coração foi preenchido por mais um lampejo de esperança. Afinal, nem todo silenciamento é definitivo.
Para ser franca, eu estava incerta sobre o que escrever antes da leitura. Cheguei até a pensar que, se Caetano me conhecesse na época em que escreveu o verso “quem lê tanta notícia?”, da música Alegria, Alegria, certamente estaria pensando em mim. Mas esse não é o caso, por uma série de fatores, inclusive de espaço e tempo.
Talvez você também seja uma dessas pessoas que, mesmo ficando terrivelmente vulnerável diante de cada nova atrocidade cotidiana, sente a necessidade de se manter atualizado. Porque aprendemos que a globalização também é isso: ler tantos casos e acasos que, às vezes, nos fazem questionar se algum meteoro já está a caminho do nosso endereço.
A questão é que existem notícias que nos trazem felicidade e esperança. E existem aquelas que nos assustam e que se repetem numa frequência tão aterradora que, aos poucos, parecem querer se tornar parte da paisagem.
Todos os dias leio algo sobre uma mulher que, de alguma forma, teve sua integridade física, emocional ou mental violada.
São grupos em redes sociais que ensinam a dopar mulheres para violentá-las. São homens que matam mulheres porque não aceitam ouvir um não. São homens que matam os próprios filhos porque recusam o fim de uma relação. São homens que agridem e violam mulheres porque aprenderam a confundir poder com posse.
Ao ler sobre a sentença que anulou o julgamento que absolveu o algoz de Mariana Ferrer, quase dei um pulo de alegria dentro do ônibus. Mas o bom senso, que às vezes me acolhe, impediu-me de saltitar.
Sou daquelas pessoas que sentem muito. E a primeira vez que vi aquele vídeo, que circulou amplamente nas redes sociais pouco antes da pandemia, mostrando uma jovem vulnerável implorando para ser ouvida com respeito e imparcialidade, senti como se estivessem cortando a minha própria carne.
Passei dias sentindo a bile subir pela garganta. Era como se eu estivesse vendo uma das cenas mais chocantes de Clímax, de Chuck Palahniuk, desenrolar-se com naturalidade no mundo além das páginas.
Casos de violência contra mulheres não são novidade e, infelizmente, estou bem familiarizada com eles.
Perdi uma grande amiga para o feminicídio.
Perdi uma vizinha para o feminicídio.
E, infelizmente, assisti outra vizinha ser morta pelo companheiro na rua, em plena luz do dia, diante dos meus olhos.
Diferente de ler uma denúncia, presenciar a vida acontecendo em tempo real é algo muito mais brutal.
Jamais esquecerei os olhos daquela mulher no instante em que a vida deixou o seu corpo. Eu estava em choque. Não consegui sequer gritar.
E é por isso que algumas vezes me pergunto se a rotina diária obriga jornalistas a desenvolver algum tipo de armadura emocional. Mas algo consigo constatar, ainda que sem estatísticas para me sustentar: a morte vende.
Uma mulher denuncia violência.
Outra tenta provar que diz a verdade.
Outra é julgada pelas roupas que veste, pelas escolhas que faz, pelos lugares onde esteve ou pelas palavras que disse.
Outra é condenada por ser mãe solo
Entre comentários, acusações e sentenças apressadas, percebi algo que sempre me causou estranheza: mesmo com o passar dos anos e com toda a suposta evolução humana, a vítima ainda parece ocupar o banco dos réus.
A caça às bruxas, afinal, nunca terminou.
Todos os dias, cortam a cabeça da Medusa.
Fechei a tela do celular e pensei nela.
Ao chegar ao trabalho, ouvi as mesmas conversas de sempre e me permiti viajar no pensamento que se formava dentro de mim.
Trabalhando no automático, consegui juntar algumas peças.
E algo me ocorreu: durante muito tempo nos contaram que Medusa era um monstro.
Ao menos foi isso que ensinaram.
Havia um herói.
Havia uma ameaça.
E o final parecia simples.
O herói precisava degolar o monstro.
Nada de redenção.
Nada de finais felizes.
Medusa merecia a morte por ousar tentar ter voz.
Mas a vida possui o hábito, às vezes inconveniente, de nos fazer revisitar histórias antigas.
Quando voltei a olhar para Medusa, já adulta, ela parecia diferente.
Ou, talvez, quem estivesse diferente fosse eu.
Pensei em quantas vezes transformamos mulheres em monstros porque elas gritam, porque se revoltam, porque choram demais, porque falam demais ou porque simplesmente se recusam a permanecer em silêncio diante das injustiças.
Pensei em quantas aprenderam a pedir desculpas por dores que nunca causaram.
Pensei em quantas tiveram o direito de existir e de receber justiça violado porque foram transformadas em algo que nunca foram: monstros.
No entanto, Medusa nunca foi uma aberração.
Medusa nunca foi um monstro.
Ela foi violada na carne e na alma.
Teve a honra dilacerada e o coração fragmentado.
Esperou justiça.
Recebeu julgamento.
Hoje compreendo que suas herdeiras estão por toda parte.
Sentadas em ônibus, caminhando por ruas e becos sem iluminação, trabalhando atrás de mesas, sorrindo em fotografias, cuidando dos filhos, escrevendo textos, vivendo dias comuns enquanto travam batalhas que quase ninguém vê.
Nós estamos aqui.
As herdeiras de Medusa.
Na realidade que construímos, aprendemos algo que os mitos esconderam: esses deuses também sangram.
Quando o mito ensinou que Medusa transformava pessoas em pedra com seu olhar, talvez a verdade fosse outra.
Talvez ela apenas revelasse aquilo que já existia dentro delas.
Porque talvez a maior maldição sofrida por Medusa nunca tenha sido transformar pessoas em pedra.
Talvez tenha sido ser transformada na criatura que nunca foi.
Ter sido reduzida à imagem daquilo que habitava o coração de seu algoz.
E não nomearei o herói. Ele não merece.
Medusa jamais precisou dos Campos Elíseos.
Sua liberdade sempre viveu na verdade que tentaram sepultar.
E talvez a maior vitória de suas herdeiras esteja acontecendo agora, silenciosamente, toda vez que uma delas decide erguer a própria voz.