Clube de Leitura de Quadrinhos Veneta debate ‘Berlin’, obra monumental de Jason Lutes

O evento faz parte de uma ação nacional patrocinada pela Editora Veneta, que convidou o premiado roteirista amazonense Evaldo Vasconcelos para realizar a curadoria de 10 títulos seminais do catálogo da editora.
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No dia 26 de junho, às 17h, será realizada mais uma edição do Clube de Leitura de Quadrinhos Veneta. O encontro deste mês mergulhará nas páginas de Berlin, a obra-prima do quadrinista norte-americano Jason Lutes. O local do evento será na livraria Valer, no Largo São Sebastião.

O evento faz parte de uma ação nacional patrocinada pela Editora Veneta, que convidou o premiado roteirista amazonense Evaldo Vasconcelos para realizar a curadoria de 10 títulos seminais do catálogo da editora, promovendo debates mensais com o público manauara sobre o impacto social, estético e histórico das histórias em quadrinhos voltadas ao público adulto.

Um Épico Humano em Meio às Ruínas de Weimar

Originalmente concebido em 1996 como uma série de 24 revistas e concluído apenas em 2018 — um esforço monumental que consumiu 22 anos da vida do autor —, Berlin é consagrado como um feito de resistência editorial. O quadrinho recusa o maniqueísmo tradicional para construir uma crônica polifônica e crua sobre o declínio da República de Weimar, entre setembro de 1928 e março de 1933, culminando na chegada de Adolf Hitler ao poder.

A República de Weimar foi o período democrático estabelecido na Alemanha entre 1919 e 1933, surgido logo após a derrota do país na Primeira Guerra Mundial e a queda do Império Alemão. Embora tenha sido uma era de extraordinária vanguarda artística, modernização cultural e ampliação de direitos sociais, o regime foi sufocado por uma crise econômica devastadora — marcada pela hiperinflação e pelo desemprego em massa —, além de uma violenta instabilidade política. Essa fragilidade institucional e o descontentamento popular pavimentaram o caminho para que o partido nazista de Adolf Hitler subisse ao poder em 1933, sepultando a democracia e iniciando o Terceiro Reich.

A grande força motriz de Lutes não está nos palácios governamentais ou nos generais de guerra, mas sim no asfalto. A graphic novel afasta a lente dos grandes líderes políticos para focar na vida de cidadãos comuns, capturando com precisão cirúrgica uma metrópole pulsante, que ao mesmo tempo ferve com a vanguarda artística, o jazz, a emancipação sexual e a efervescência intelectual, e se vê gradualmente sufocada pela violência urbana, desemprego e uma polarização política extrema.

O Retrato de uma Cidade Fraturada: Os Personagens

A HQ funciona cruzando constantemente as trajetórias de mais de vinte personagens que encapsulam as contradições, os medos e as paixões daquele período histórico:

●      Kurt Severing: Um jornalista idealista e pacifista. Através de suas crônicas e artigos, ele tenta desesperadamente alertar a população e a intelectualidade sobre o perigo iminente do extremismo de extrema-direita. Contudo, ao longo dos anos, Kurt se vê paralisado pelo cinismo, pela depressão e pela dolorosa percepção de sua própria impotência diante da marcha implacável da história.

●      Marthe Müller: Uma jovem estudante de arte que foge da sufocante vida do interior para buscar a liberdade e a auto realização na capital. É pelos olhos curiosos e frescos de Marthe que o leitor descobre a vibrante vida cultural, os cafés e a subcultura urbana de Berlim. Seu romance com Kurt serve como o principal fio condutor emocional da trama.

●      Anna: Um homem trans que atua como figura de destaque na próspera e vanguardista cena queer berlinense dos anos 1920. Anna torna-se amante de Marthe, e sua trajetória ilustra de forma dolorosa a perda brutal das liberdades individuais e sexuais que outrora definiram a identidade livre da metrópole.

●      A Família Braun: Uma família de classe trabalhadora tragicamente despedaçada pela ideologia. Enquanto a mãe, exausta da miséria, junta-se aos militantes e passeatas comunistas, o pai e o filho se voltam para o Partido Nazista e para as SA (tropas de choque) em uma busca desesperada por dignidade econômica e sentimento de pertencimento.

●      Silvia Braun: A filha mais jovem da família Braun. Solta pelas ruas e forçada a amadurecer precocemente, a garota transforma-se em uma testemunha ocular da violência explícita, dos massacres policiais (como o “Maio Vermelho” de 1929) e dos confrontos de sangue que tomam os bairros operários.

●      Músicos de Jazz Americanos: Um grupo de instrumentistas negros que chega dos Estados Unidos. Na Alemanha de Weimar, eles encontram temporariamente uma liberdade social e um respeito profissional inexistentes em sua terra natal segregada. No entanto, o cerco fecha-se rapidamente à medida que a xenofobia, o racismo científico e a censura cultural do novo regime começam a classificar a sua arte como “degenerada”.

Rigor Gráfico e Reconhecimento Acadêmico

Visualmente, Lutes opera uma subversão estética genial ao adotar a Linha Clara europeia. Esse estilo de desenho, popularizado por Hergé em Tintim, é conhecido por seus contornos limpos e pela ausência de hachuras, sendo historicamente associado a narrativas infantis e ingênuas. No entanto, Lutes insere-se em uma vertente de quadrinistas alternativos voltados ao público adulto que se apropriam dessa estética de forma propositalmente irônica. Ao utilizar um traço tão polido e elegante para retratar o avanço de um regime sombrio, a violência urbana e o declínio da República de Weimar, o autor cria uma profunda ironia visual. Com isso, ele não apenas questiona a falsa sensação de ordem e pureza, mas subverte completamente a união idealizada entre a inocência do traço e o conteúdo da história.

A densidade e a precisão da pesquisa histórica (baseada em mapas antigos, jornais e fotografias da época) transformaram a graphic novel em objeto de estudo internacional. Elogiada por historiadores de prestígio, como o francês Ivan Jablonka (que defendeu que a obra produz conhecimento histórico tão profundo quanto teses acadêmicas), Berlin chegou a ser adotada como material pedagógico em cursos de Arquitetura e Urbanismo para discutir a cidade como um arquivo vivo de memória e fratura social.

Público Escolherá a Próxima Leitura

Ao final do debate, o público presente terá papel ativo no direcionamento do clube. Os participantes poderão votar entre 8 títulos de peso do catálogo da Veneta para escolher qual será o livro debatido no mês seguinte. As opções para votação são:

●      Angola Janga – Marcelo D’Salete

●      Ayako – Osamu Tezuka

●      Do Inferno – Alan Moore e Eddie Campbell

●      Ikkyu – Hisashi Sakaguchi

●      O Livro de Ofélia – Gilbert Hernandez

●      Shmoo – Al Capp

●      Tungstênio – Marcello Quintanilha

●      Vizunga – Flávio Colin

 

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