Entre mitos e verdades: 6 histórias que você aprendeu errado sobre Manaus

Lendas sobre os Manaós, Ajuricaba, Sarah Bernhardt, o calçadão de São Sebastião e Gustave Eiffel fazem parte do imaginário da capital, mas registros históricos mostram que algumas dessas histórias não são bem como foram contadas.
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Entre Manaós e Eiffel: o que a história realmente conta sobre Manaus

A história de Manaus é cercada por relatos curiosos que atravessaram gerações e ganharam força com a tradição oral, o turismo e, mais recentemente, a internet. Muitas dessas narrativas são apresentadas como fatos, mas, quando confrontadas com documentos e pesquisas históricas, revelam versões diferentes  ou até completamente equivocadas.

Essas histórias podem ser compreendidas como lendas urbanas, narrativas que se espalham como acontecimentos verdadeiros e que ajudam a construir a identidade e o imaginário de uma população.

Em Manaus, a ausência ou redução do ensino específico sobre a História do Amazonas contribuiu para que algumas dessas versões ganhassem espaço. O resultado é que muita gente conhece os mitos, mas não necessariamente os fatos por trás deles.

A seguir, seis histórias bastante conhecidas sobre Manaus que merecem ser revisitadas.

1. Manaós ou Manaus?

Uma das dúvidas mais comuns envolve o próprio nome da cidade.

O povo indígena que habitava a região do Rio Negro era conhecido como Manau, de matriz linguística aruaque. A grafia “Manáos” foi uma forma utilizada pelos colonizadores europeus para representar, com o alfabeto latino, a sonoridade do nome indígena.

Segundo o professor de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Auxiliomar Ugarte, a forma “Manáos” foi utilizada oficialmente entre a segunda metade do século XVIII e meados do século XX. Posteriormente, a grafia passou a ser padronizada como Manaus.

A ideia de que a mudança teria alterado a pronúncia da palavra, porém, não corresponde à realidade histórica. A variação “Manaós”, popularizada principalmente na internet, acabou contribuindo para a criação de uma suposta mudança fonética que não é sustentada pelos registros históricos.

2. A suposta foto de Ajuricaba

Ajuricaba é uma das principais figuras da resistência indígena no vale do Rio Negro. O líder dos Manaus viveu no início do século XVIII e morreu por volta de 1728.

Por isso, existe um problema evidente com uma suposta fotografia atribuída a ele: a fotografia ainda não existia naquela época.

 

A técnica fotográfica começou a ser desenvolvida somente mais de um século depois, chegando ao Brasil na década de 1840.

A imagem que circula na internet como sendo de Ajuricaba, segundo pesquisadores citados no estudo, seria na verdade o registro de outra liderança indígena, fotografada no século XX.

A associação acabou sendo reproduzida em sites e redes sociais sem a devida checagem documental.

3. Manauara ou manauense?

Aqui a história é diferente: os dois termos são válidos.

“Manauara” é a forma mais popular e utilizada no cotidiano. Já “manauense” possui caráter mais formal e aparece com frequência em documentos e textos acadêmicos.

Não existe, portanto, a regra de que “manauara” seria quem apenas mora em Manaus enquanto “manauense” seria quem nasceu na cidade.

A afirmação chegou a circular nas redes sociais em 2025, depois que um turista afirmou ter recebido essa explicação de um funcionário de atendimento turístico.

A distinção, porém, não encontra respaldo na definição tradicional dos gentílicos.

4. Sarah Bernhardt se apresentou no Teatro Amazonas?

Essa é uma das histórias mais famosas relacionadas ao período áureo da borracha.

Sarah Bernhardt, atriz francesa considerada uma das maiores estrelas do teatro mundial, realmente esteve no Brasil em diferentes momentos de sua carreira.

O problema está na afirmação de que ela teria se apresentado no Teatro Amazonas.

Os registros históricos de suas turnês brasileiras não confirmam uma passagem por Manaus. A atriz esteve no eixo Rio de Janeiro–São Paulo em suas apresentações no país.

A lenda pode ter surgido pela intensa presença de companhias europeias em Manaus durante o ciclo da borracha. A cidade recebia artistas, companhias de teatro, ópera e opereta vindas principalmente da Europa.

Com o tempo, a memória popular teria associado essas apresentações à figura internacionalmente conhecida de Sarah Bernhardt.

5. O calçadão de Manaus inspirou Copacabana?

O desenho ondulado das pedras portuguesas do Largo de São Sebastião é um dos maiores símbolos de Manaus.

Também é bastante conhecida a história de que o calçamento manauara teria inspirado o famoso desenho do calçadão de Copacabana.

Mas a história é diferente.

O padrão conhecido como “Mar Largo” já era utilizado em Portugal. O desenho foi aplicado na Praça do Rossio, em Lisboa, em 1848, representando o movimento das ondas do mar.

Durante o período de modernização de Manaus, no início do século XX, o padrão português foi utilizado no Largo de São Sebastião.

Anos depois, o mesmo tipo de desenho apareceu no Rio de Janeiro, durante as reformas urbanísticas realizadas na cidade.

Ou seja, Manaus e Rio de Janeiro compartilharam uma referência portuguesa e não há evidência de que o calçamento de Manaus tenha sido a inspiração original para Copacabana.

6. Gustave Eiffel projetou o Mercado Adolpho Lisboa?

Talvez uma das lendas mais conhecidas sobre o patrimônio de Manaus seja a suposta participação de Gustave Eiffel, engenheiro responsável pela famosa Torre Eiffel, na construção do Mercado Municipal Adolpho Lisboa.

A história, porém, não encontra respaldo nos registros históricos do mercado.

A construção começou ainda no século XIX. O pavilhão central foi inaugurado em 1883 e teve sua estrutura de ferro fundido produzida pela Francis Morton & Co., de Liverpool, na Inglaterra.

Anos depois, o mercado passou por novas ampliações. Em 1902, a estrutura metálica de uma das áreas posteriores e elementos da fachada foram encomendados à empresa escocesa Walter MacFarlane & Co., de Glasgow.

A associação com Eiffel pode ter surgido pela fama internacional do engenheiro francês e pela utilização de estruturas metálicas produzidas por grandes fundições europeias naquele período.

Assim, o mercado possui, de fato, uma história profundamente ligada à arquitetura e à indústria europeia, mas não há comprovação de que Gustave Eiffel tenha sido seu projetista.

Por que essas histórias se espalham?

As lendas urbanas não são exclusivas de Manaus. Elas fazem parte da maneira como sociedades constroem e transmitem sua memória.

No caso da capital amazonense, porém, pesquisadores apontam que a falta de contato sistemático da população com a história regional pode facilitar a disseminação de informações incorretas.

A socióloga e antropóloga cultural Rila Arruda defende a importância de recuperar o ensino de História e Geografia do Amazonas e ampliar também iniciativas de educação patrimonial.

A questão vai além de descobrir se uma fotografia é verdadeira ou se determinado prédio foi projetado por um personagem famoso.

Conhecer a história real de Manaus também significa compreender a identidade da cidade.

Os mitos fazem parte da cultura e podem continuar existindo como manifestações do imaginário popular. O problema surge quando são apresentados como fatos históricos sem que haja espaço para questionamento, pesquisa e consulta às fontes.

No fim, Manaus não precisa de histórias inventadas para ser fascinante.

A trajetória da cidade, marcada pelos povos indígenas, pelo ciclo da borracha, pela arquitetura, pela transformação urbana e pelas relações com diferentes partes do mundo, já é suficientemente extraordinária.

Entre Manaós e Eiffel, talvez o mais importante seja justamente separar aquilo que pertence à memória popular daquilo que os documentos conseguem provar.

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