As mudanças climáticas costumam aparecer nas discussões públicas acompanhadas de números, termos técnicos e previsões para o futuro. Em Manaus, uma iniciativa quer levar esse debate para dentro das comunidades e relacioná-lo aos problemas que já fazem parte da rotina de quem vive nas periferias.
É com essa proposta que o coletivo Arte Ocupa inicia neste sábado (22) a campanha “Paredes do Futuro”, no Parque das Tribos, zona Norte da capital amazonense. A primeira atividade será a roda de conversa “Quem cuida da nossa casa comum?”, marcada para as 15h, na Casa de Conhecimento Ancestral.

A discussão será voltada inicialmente aos adultos da comunidade e terá a participação do professor e clérigo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil Iuri Lima e da doutora em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e professora associada da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Maria Betânia.
A proposta é discutir a crise climática a partir da realidade de quem vive nos territórios periféricos, sem transformar o tema em uma conversa distante da vida cotidiana.
Quando o clima pesa no bolso
A campanha parte de situações que já podem ser percebidas pelos moradores: calor extremo, aumento da conta de energia e alta no preço dos alimentos.
A ideia é discutir como esses fenômenos estão relacionados às transformações ambientais e como seus efeitos podem atingir de maneira diferente as populações de acordo com o lugar onde vivem e as condições sociais que possuem.
Para Sarah Campelo, fundadora do Arte Ocupa e coordenadora geral da campanha, levar especialistas para dentro das comunidades é uma maneira de criar espaços de informação e reflexão.
Segundo ela, a iniciativa pretende funcionar como um ponto de confiança para a formação de opinião nas periferias, aproximando especialistas, moradores e fontes consideradas confiáveis.
A campanha também busca evitar uma abordagem baseada apenas em previsões alarmistas. A intenção, segundo a organização, é discutir a questão climática de maneira territorializada, levando em consideração as experiências e os conhecimentos dos próprios moradores.
Debate com participação da comunidade
A primeira atividade terá limite de 25 participantes e será encerrada com um bingo, que terá premiações destinadas aos participantes da roda de conversa.
Para Sarah, a presença de Maria Betânia e Iuri Lima amplia o diálogo proposto pelo projeto.
A pesquisadora traz para a discussão a experiência relacionada à floresta e à relação entre ambiente e cidade. Já Iuri Lima contribui a partir da teologia e da atuação junto a comunidades de fé.
A proposta é justamente aproximar diferentes conhecimentos para discutir um problema que atravessa a vida das cidades amazônicas.
Crianças e jovens também entram na discussão
O debate não ficará restrito aos adultos.
A programação da campanha prevê atividades específicas para crianças, jovens e adultos do Parque das Tribos e, posteriormente, da comunidade Cafundó, no bairro São Francisco, zona Sul de Manaus.
No dia 29 de agosto, crianças do Parque das Tribos participarão da roda de conversa “Quem defende o território?”, conduzida por Gabriel Verçoza. A atividade terá ainda a exibição do filme O Lorax, de 2012, seguida de uma discussão sobre preservação dos territórios.
Já no dia 5 de setembro, será a vez dos jovens, com a roda “Que futuro está sobrando pra gente?”, conduzida por Maurício Max. Depois do debate, será realizado um campeonato de futebol com premiações.
A programação retorna ao Parque das Tribos nas semanas seguintes e depois segue para a comunidade Cafundó.
Projeto também chega ao Cafundó
A partir de 12 de setembro, o Cafundó receberá a campanha.
A primeira atividade será a mesma roda de conversa “Quem cuida da nossa casa comum?”, com Iuri Lima e Maria Betânia, às 18h. O encontro será voltado aos adultos e também terá um bingo.
No dia 19 de setembro, os jovens participarão da roda “Que futuro está sobrando pra gente?”, com Maurício Max. A programação terá ainda um campeonato de tênis de mesa.
O encerramento do ciclo no Cafundó acontece em 26 de setembro, com a roda “Quem defende o território?”, desta vez conduzida por Thalita Silva, além da exibição de O Lorax.
Arte como ferramenta de mobilização
A campanha faz parte do projeto “Bem-Aventurados os que Promovem a Paz”, iniciativa que reúne duas frentes: “Paredes do Futuro”, voltada à justiça climática, e “Haja Paz nos Teus Muros”, que abordará questões relacionadas à segurança pública.
A proposta do projeto é levar debates sobre temas complexos para dentro das periferias de Manaus, utilizando rodas de conversa, atividades culturais e intervenções artísticas.
A expectativa da organização é alcançar diretamente mais de 250 pessoas ao longo das atividades das duas campanhas.
Além dos encontros, o projeto prevê a criação de murais a céu aberto em homenagem a moradores e lideranças das comunidades, como forma de preservar histórias, memórias e contribuições para a formação dos territórios.
Depois do encerramento da campanha “Paredes do Futuro”, será iniciada a segunda frente do projeto, “Haja Paz nos Teus Muros”, com atividades na comunidade Mossoró, no bairro Petrópolis, zona Sul de Manaus.
Cultura, território e informação
Fundado em Manaus em 2021, o Arte Ocupa reúne artistas, educadores e gestores e atua com ações de arte, educação, cultura e mobilização social.
O coletivo trabalha principalmente com territórios periféricos e utiliza atividades culturais e formativas para discutir temas como clima, raça, gênero e justiça social.
No caso da campanha “Paredes do Futuro”, a proposta é fazer com que o debate sobre mudanças climáticas deixe de ser apenas uma discussão sobre o futuro e passe a ser relacionado às transformações que já afetam a rotina das comunidades.
Mais do que falar sobre o clima para a periferia, a iniciativa pretende falar sobre o clima a partir da periferia, incorporando experiências, preocupações e conhecimentos de quem vive nesses territórios.
SERVIÇO
Sábado, 22 de agosto, às 15h
Casa de Conhecimento Ancestral
Rua Apurinã, nº 13, bairro Tarumã, zona Norte de Manaus
Roda de conversa “Quem cuida da nossa casa comum?”