Airton Souza do Pará fala com exclusividade sobre o novo livro ‘O mar é longe’ lançado pela Record

Com uma escrita sensível e envolvente, que já se tornou sua marca registrada, Airton narra a jornada de dois irmãos que partem em busca do desconhecido mar.
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O escritor paraense Airton Souza  está de volta após conquistar o Brasil com sua prosa marcante, vencedor do prestigiado Prêmio Sesc de Literatura, ele apresenta o seu mais novo lançamento pela editora Record: ‘O mar é longe’. Ele conversou com exclusividade com a editora-chefe do Amazônia Incrível, Bruna Chagas e falou sobre esse novo romance.

Com este lançamento, o autor nos conduz por uma travessia profundamente humana e geográfica. Com uma escrita sensível e envolvente, que já se tornou sua marca registrada, Airton narra a jornada de dois irmãos que partem em busca do desconhecido mar. À medida que avançam pelo caminho, a distância física se confunde com as transformações internas de cada um, onde perdas inevitáveis e certezas absolutas se desfazem e se reconstroem ao longo da estrada.

Um verdadeiro convite à reflexão sobre as nossas próprias buscas e travessias, ‘O mar é longe’ consolida-se como um romance imperdível e potente na literatura contemporânea brasileira. Confira o nosso bate-papo:

1. Para quem cresceu ou vive no Norte, onde o rio dita o ritmo da vida e a própria imensidão geográfica, como foi construir essa transição poética do rio para o mar? O mar, aqui, é a fuga da violência ou a busca por uma imensidão que o rio já não conseguia conter?

Dependendo do ponto de vista essa transição é impossível. Por isso em O mar é longe (Record, 2026) em vez da imensidão do mar há a predominância do rio. De suas margens. Da mítica que salvaguardam as águas na Amazônia. A única possibilidade de se aproximar dessa transposição foi pensar no mar como milhares de rios, que é justamente o que faz o narrador de O mar é longe (Record, 2026) quando se depara pela primeira vez com o mar. A transposição é quase que apenas emocional.

Pensando mais afundo em uma resposta para essa importante pergunta, eu penso agora na minha transposição da poética para a prosa, que não foi bem uma travessia, mas sim uma espécie de justaposição de ambos. Então, dar para pensarmos em vez de transposição em justaposição. O mar e os rios são por natureza poéticos. Míticos. Assim, dar para pensarmos em mar como essa fuga dos modos de violências enfrentados pelos personagens, como também dar para imaginamos o mar como a busca pela imensidão das águas que os rios não deixam de ser ao atravessar muitas geografias como é o rio Itapecuru ou rio Tocantins e Itacaiunas que serviram de inspiração para a escrita das cenas que se passam no Itapecuru, em Rosário.

Eu penso no rio assim como no mar como um reencontro de nossa humanização. Ao contrário da violência que cada vez mais nos desumaniza, os rios e o mar são chances de nos reumanizarmos.  De certa forma, querendo ou não, em O mar é longe (Record, 2026) eles cumpre essa função meio mítica, meio real.

2.  Sendo este o seu segundo romance, como foi para você trabalhar o silêncio e ‘aquilo que ainda não tem nome’ na jornada desses dois irmãos? De que forma a dor da violência paterna se transforma na urgência da estrada?

Escrever essa história que levou exatamente 10 anos foi algo extremamente difícil para mim, sobretudo pelas escolhas que tive que fazer. Encarando a barbárie de frente, entre as quais o assassinato de meu irmão Júlio Cesar, em um crime bárbaro e que nunca foi devidamente investigado pelo estado. Além disso, a violência enfrentada pela minha mãe dentro de casa.

Entendo que a minha palavra escrita tem mais coragem que eu. Ela é cada mais destemida, e às vezes, chega a me fazer sentir medo pelo que possa acontecer comigo. Foi assim com a escrita e a publicação de Outono de carne estranha (Record, 2023), ao denunciar parte das violências cometidas, incentivadas e financiadas pelo Estado brasileiro no garimpo de Serra Pelada e suas mediações. E, agora está sendo assim ao trazer à tona os modos de violências cometidos por homens contra mulheres, contra homessexuais, com dados estatísticos a cada ano que passa mais alarmantes. A jornada desses dois irmãos e a estratégia do silêncio como uma espécie de sistema de defesa é o retrato do que acontece em muitos lares nesse país, principalmente pela ausência de políticas públicas mais sérias.

Então dar para dizer, de certa forma que a violência paterna é a representação simbólica dos crimes de feminicídios, dos assassinatos de gays, dos estupros que acontecem dentro de casa. Balta e seu irmão tentam, a qualquer custo, a fuga de tudo isso. Esboçam gestos, em nome do medo. Ficam em silêncio para se proteger e proteger sua mãe, embora de vez em quando interroguem essa inércia. E é preciso levar em consideração que são praticamente dois meninos. Nesse ponto de fuga pensam encontrar longe de casa a saída para toda essa violência. O que o romance vai acabar por apontar que embora essa fosse uma possibilidade aparente, os únicos pontos de fuga possíveis são o afeto, a compreensão do outro, a ternura e a cumplicidade.

3. Como você enxerga o papel da geografia humana do Pará e do Norte na construção psicológica desses personagens que, essencialmente, estão em busca de um não-lugar?

Para nós que nascemos e vivemos no Norte do país, a região historicamente mais abandonada pelo poder público brasileiro é complexo falar desse não-lugar. Isso porque nós – escritores e escritoras nortistas – ancoramos os nossos projetos de escritas sempre pensando nessa geografia como o lugar. O único possível. Nossa oralidade é parte essencial de nossa literatura. As paisagens do campo, ribeirinhas ou mesmo citadina inspiram nossos poemas, contos, crônicas, romances.

Os nossos personagens se assemelham a nós, sem deixar de faz parte da história do mundo. Vale destacar que nesse momento em que alguns e algumas escritoras nortistas começam a entrar no circuito literário nacional afloram alguns debates que vão culminar nesse conceito do não-lugar para tentar desqualificar o que vem sendo escrito. Por exemplo, voltaram a caracterizar a nossa literatura como regionalista, pensando que isso vai afetar a nossa compreensão de escrita. O lado bom disso é que essa caracterização vem sendo feita por poucos, e pouco a pouco vai passando despercebida.

4. Passando para o cenário de mercado: o Norte vive uma ebulição literária fantástica, com vozes potentes e premiadas, incluindo você. No entanto, a sensação de isolamento editorial ainda persiste. Você ainda acredita que a literatura produzida na região Norte é invisibilizada pela grande mídia e pelo eixo sul-sudeste? Na sua visão, por que essa barreira cultural e comercial ainda é tão difícil de romper, mesmo com a qualidade óbvia da nossa produção?

Acredito que sim, que essa invisibilidade persiste, pois apesar dessa ebulição literária de alguns nomes da literatura que vem sendo produzida no Norte, dar de praticamente contar nos dedos os e as autores que fazem parte dessa ebulição. Por isso, não há dúvida que esse isolamento persiste, inclusive entre nós, que poucos nos conhecemos. Eu mesmo me considero um bom leitor, mas conheço pouco a literatura que vem sendo produzida Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. Até certo ponto a nossa grande mídia do Norte também tem culpa nisso tudo. É como disse uma vez um jornalista, o que vende é o BBB – Bunda, Bola e Bala. É difícil fazer uma afirmação mais categórica o porquê dessa barreira cultural e comercial ainda ser tão difícil de ser rompida.

São muitos fatores, entre os quais o próprio interesse econômico criado sobre a região Norte, especificamente as riquezas minerais, está a garimpagem ilegal em terras indígenas que não me deixa mentir; a especulação das terras e toda a engrenagem em torno da grilagem; a exploração dos rios, e principalmente a divisão nacional de trabalho, que nos quer apenas como mão-de-obra primitiva. Parece devaneio pensar essa barreira cultural e comercial está intimamente atrelada a essa engrenagem, que nasceu de maneira discursiva, enaltecendo a região como mítica e a ser dominada, mas que primou pela nossa desumanização constante.

Então, a nossa literatura levará muito anos para desconstruir a imagem que foi forjada sobre nós. Principalmente a visão determinista tão impregnada nos manuais de literatura, na seção que aborda a literatura nortista, assim como escreveu o crítico Peregrino Júnior “O homem daquele mundo é assim um “ser destinado ao terror e à humilhação diante da Natureza”.

Portanto, estamos ciente que nunca será tão somente a qualidade, o trabalho com a linguagem, a transfiguração da realidade que nos colocará de vez dentro do circuito literário brasileiro. A prova cabal disso é ter na Amazônia um escritor tão genial como Machado de Assis, que é Dalcídio Jurandir, e se juntarmos todas as reedições de seus 11 romances publicados, e capaz de não dar em somatório a reedição de qualquer um dos livros do próprio Machado. O jogo é complexo, e nós do Norte vamos encontrando pequenas rachaduras dentro dele.

5. A sua trajetória é marcada por grandes reconhecimentos nacionais. Até que ponto receber prêmios de relevância nacional ajuda a quebrar esse teto de vidro da invisibilidade regional? E o que você acha que falta, estruturalmente falando, para que o mercado nacional pare de enxergar a literatura do Norte como algo ‘exótico’ ou ‘de nicho’ e passe a tratá-la apenas como a grande literatura brasileira que ela é?

Na verdade, os prêmios literários foram aquelas pequenas rachaduras que encontrei e que fiz referência na resposta anterior, e que sem dúvida foram responsável por ajudar a quebrar esse teto de vidro da invisibilidade regional. De certa maneira, eles foram a possibilidade de ver os meus textos sendo lidos em quase todo o país. Neles eu vi a chance de poder espalhar meus poemas, contos, livros infantis e, por fim, o romance Outono de carne estranha (Record, 2023), que venceu a edição histórica de 20 anos do Prêmio Sesc, foi finalista do Prêmio São Paulo e finalista do prestigioso Prêmio Oceanos, um dos mais importantes prêmios de língua portuguesa. Sinceramente eu penso que falta muito, assim como falta muito para que um dia possamos transformar esse país em uma país de leitores e leitoras. Esse é um longo e complexo debate que deveria começar a ser efetivado por políticas públicas mais comprometidas, incluindo o fortalecimento das salas de leituras escolares, circuitos amazônicos de escritores e escritoras, a abertura de biblioteca públicas, um programa exclusivo de aquisição de obras literárias, assim como teve a Rounet Norte, programas e bolsas de escritas e leituras, projetos e ações voltadas a publicações. O pior é que a sensação que tenho é que estamos é regredindo em tudo isso. vejamos, por exemplo, um dos mais importantes prêmios literários da Amazônia, que é o Prêmio Cidade de Manaus, que era nacional, e que acabou por se tornar praticamente um prêmio local. Sendo que boa parte dos e das escritoras que participavam do prêmio eram da região Norte, e servia de inspiração para iniciativas semelhantes. Enfim, há um longo caminho a ser percorrido por todos nós. O importante, de certa maneira, é estarmos cada vez mais atentos a esse falacioso discurso de progresso que contribui para nos silenciar, e de quebra reforçar a falsa noção de que as nossas literaturas são apenas ‘exóticas’ ou ‘de nicho’.

Sobre o autor

Airton Souza nasceu em Marabá, no Pará. É escritor e doutor em ciências da comunicação, publicou Outono de carne estranha, pela Editora Record, romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e finalista dos Prêmios Oceanos e São Paulo de Literatura. Publicou mais de 50 livros e venceu mais de 200 prêmios literários. Está lançando O mar é longe, publicado pela Editora Record, seu segundo romance. Com o livro O cheiro dos bárbaros nunca será igual ao das auroras, venceu o Prêmio José Nicolau Gregorin, promovido pela União Brasileira de Escritores.

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