Manara e Sarana – Memória das Águas do Rio Negro

O universo mítico e as crenças desse povo foram, em sua maior parte, reduzidos a cinzas, fragmentos ou a registros distorcidos pela ótica do colonizador.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Como roteirista, frequentemente me deparo com um incômodo profundo diante dos arquivos históricos: o silêncio. Quando nos propomos a estudar o passado do povo Manaus — a etnia originária que habitava a região do baixo Rio Negro e que legou seu próprio nome à nossa capital —, percebemos que o processo de colonização não destruiu apenas estas pessoas e suas moradias; ele operou um severo e sistemático apagamento cultural. O universo mítico e as crenças desse povo foram, em sua maior parte, reduzidos a cinzas, fragmentos ou a registros distorcidos pela ótica do colonizador.

É nesse cenário de terra arrasada que emergem os nomes de Manara e Sarana (e suas respectivas variações e desdobramentos documentais, como Mauari e Sarauá). Compreender o que sobrou dessas entidades na internet e nos arquivos acadêmicos exige, antes de tudo, uma postura crítica que saiba separar o preconteito eurocêntrico da essência mítica original, abrindo caminho para que a arte contemporânea atue como uma ferramenta de reconstrução e resgate identitário.

A Lente do Colonizador: O “Maniqueísmo” de Mauari e Sarauá

Ao escavarmos as referências historiográficas disponíveis sobre a espiritualidade da nação Manaus, os primeiros registros formais que encontramos datam da segunda metade do século XVIII. Relatos de cronistas coloniais, como o ouvidor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, e as anotações do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira em seus Diários de Viagens Filosóficas e dicionários topográficos da comarca do Alto Amazonas, trazem à tona duas entidades centrais: Mauari (também grafado como Mauary, Marauhi ou Manara) e Sarauá (ou Saráua, Sarana).

Contudo, essas fontes nos chegam apenas pelo ponto de vista dos europeus. Incapazes de compreender a complexidade das religiões nativas, os naturalistas e missionários enquadraram a cosmologia do Rio Negro dentro de uma estrutura rigidamente cristã, rotulando-a como um “maniqueísmo indígena”:

●      Mauari (Manara): Foi catalogado pelos cronistas como o “espírito do bem”, o autor de todas as coisas boas, uma divindade benevolente e, por vezes, um Deus supremo. Representava as forças positivas, a criação, a cura e a proteção das malocas.

●      Sarauá (Sarana): Foi classificado como o “espírito do mal”, o responsável por todos os infortúnios, doenças, demônios da selva, das montanhas e pela morte. Os cronistas relatam que os indígenas representavam os deuses autores dos males sob formas “horrendas” e que todo o culto dedicado a Sarauá tinha o objetivo de apaziguar sua cólera e evitar punições.

Na visão original indígena, a relação entre essas forças reguladoras do mundo não era de exclusão moral, mas de uma profunda dinâmica existencial que regia a vida cotidiana, a agricultura, a saúde e as guerras da tribo. Os pajés Manaus invocavam ambas as entidades em seus ritos, reconhecendo que a destruição (Sarana) e a criação (Manara) são partes indissociáveis da própria natureza. Com o tempo e o contato forçado, essas crenças originais acabaram se misturando inevitavelmente com as noções cristãs impostas.

O Caso dos Paraviana: Dilúvio e a Expansão do Mito

Essa teogonia, inclusive, não era exclusiva dos Manaus. Em 1773, o ouvidor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio documentou originalmente o mito de Mauari entre os Paraviana, etnia que habitava a bacia do alto Rio Branco. Assim como os Manaus, os Paraviana cultuavam e adoravam essa entidade como um Deus ou uma força de bondade suprema, mas sob uma ótica narrativa muito particular que ilustra a riqueza da tradição oral da região.

A narrativa mitológica dos Paraviana conta que Mauari teria escapado de um dilúvio universal. Ao encontrar-se completamente sozinho no mundo após o cataclismo, ele criou uma mulher para ser sua companheira, moldando-a a partir da resina de uma árvore.

Mais tarde, em registros de 1775, o próprio Sampaio identificou que os Paraviana possuíam uma contraparte espiritual chamada Umauari. Esta entidade era descrita como um espírito mau, diretamente oposto ao benigno Mauari.

A Reinvenção na Nona Arte: O Processo Criativo de Maramunhã

É justamente na lacuna deixada pelo apagamento histórico que o meu trabalho como roteirista de histórias em quadrinhos se posiciona. Diante da ausência de mitos e lendas originais preservados sobre Manara e Sarana, entendi que a ficção e a narrativa gráfica tinham o dever de, pelo menos, despertar o interesse da sociedade pelo tema.

Ao criar a HQ Maramunhã, percebi que as lembranças dessas entidades estavam soltas e sem um enredo sobrevivente. Como um resgate histórico exato e puro já não é mais possível devido ao tempo e à violência colonial, decidi fazer uma reinvenção artística: usei esses fragmentos nominais para criar uma nova versão do mito, inteiramente ambientada na floresta amazônica.

Conclusão: A Arte como Resistência e Documento

Analisar essas diferentes visões nos mostra dois caminhos. De um lado, as figuras de Mauari, Umauari e Sarauá mostram como os europeus simplificaram as ricas histórias amazônicas através da lógica do pecado cristão — transformando deuses criadores e sobreviventes de dilúvios em meras forças do “bem contra o mal”. De outro lado, Manara e Sarana são a prova do trágico silenciamento sofrido por essa cultura.

Hoje, os artistas amazonenses entendem que os quadrinhos e as artes visuais não são apenas suportes de entretenimento, mas sim espaços de disputa política e memória. A escolha por reconstruir essas divindades em narrativas gráficas contemporâneas é uma resposta histórica direta ao trauma do apagamento colonizador. Onde a história oficial silenciou, a nona arte faz barulho, provando que forma estética e contexto social caminham juntos na preservação da nossa ancestralidade.

 

PARA SABER MAIS:

Crônicas e Relatos Históricos (Século XVIII)

●      Roteiro da viagem da cidade do Pará até as últimas colônias do sertão da Província (1768). NORONHA, José Monteiro de. Nova edição anotada por Antonio Porro. Manaus: Valer, 2003.
Contexto: Um dos primeiros registros do dualismo espiritual dos Manaus, identificando Mauari como a entidade benigna autora de todo o bem e Sarána (posteriormente Sarauá) como o autor de todo o mal.

●      Diário da Viagem que em visita, e correição, das povoações da Capitania de São José do Rio Negro fez o ouvidor, e intendente da mesma… no ano de 1774 e 1775. SAMPAIO, Francisco Xavier Ribeiro de. Associação Comercial do Amazonas, 1985).
Contexto: Documenta a presença do mito de Mauari e sua contraparte espiritual maligna Umauari entre os índigenas Paraviana na bacia do Rio Branco.

●      Viagem Filosófica ao Rio Negro pelas capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Educação (CFE), 1974.

Dicionários e Compilações Históricas

●      Dicionário Etno-Histórico da Amazônia Colonial. PORRO, Antonio. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP), 2007.

Artigo e Material de Apoio Contemporâneo

●      “A Review of the Comic Book Maramunhã – na terra do Wanará”. SILVA, Pedro Panhoca da; PANHOCA, Camila Lourenço. Essence & Critique: Journal of Literature and Drama Studies, v. 5, n. 2, p. 97-108, 20 jun. 2026.

Contexto: Resenha em inglês do segundo volume da Série Maramunhã publicada no Essence & Critique: Journal of Literature and Drama Studies.

 

 

Carregar Comentários