Fotógrafo do Acre vencedor do prêmio ‘Dom e Bruno’ fala do paradoxo de registrar a Amazônia

A iniciativa documental registrou de forma visceral os impactos das mudanças climáticas na região.
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Com um feeling único, de forma ética, sensível e urgente, o fotógrafo acreano Paulo Henrique da Silva Costa, de 31 anos, conquistou o 1º lugar na categoria Fotojornalismo do prestigiado Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação.

Morador de Cruzeiro do Sul, ele levou o grande prêmio,  mas a parte disso,  legitima a força do olhar do Norte com o projeto “Memória Visual do Vale do Juruá: A Amazônia Acreana em Tempos Extremos Climáticos”. A iniciativa documental registrou de forma visceral os impactos das mudanças climáticas na região.

A jornalista Bruna Chagas, atual editora-chefe do Amazônia Incrível conversou com o forojornalista premiado, que abriu o coração e falou sobre o paradoxo de registrar as belezas e tragédias da Amazônia. Confira como foi o bate-papo.

1. Paulo, muitas vezes a luz da fumaça de um incêndio ou o reflexo de um rio severamente seco geram imagens visualmente deslumbrantes e plasticamente perfeitas. Como é para você, psicologicamente e artisticamente, lidar com o paradoxo de criar uma foto esteticamente linda a partir de uma tragédia ambiental destruidora?

É um paradoxo muito difícil de lidar e eu acredito que esse é um dos maiores dilemas da fotografia documental e do fotojornalismo. Muitas vezes, a natureza continua produzindo imagens visualmente impactantes mesmo quando está atravessando um processo de destruição. A fumaça pode criar uma luz dramática ou um rio seco pode revelar formas e texturas impressionantes. Mas, para mim, a beleza nunca é um fim em si mesma. Ela funciona como uma porta de entrada. Se uma fotografia chama a atenção pela sua força estética, espero que ela também convide o observador a permanecer diante da imagem e refletir sobre aquilo que ela está revelando.

O desafio ético é justamente não romantizar a tragédia. Eu procuro construir imagens que sejam visualmente fortes e que chamem a atenção para a urgência dos eventos climáticos extremos, mas que não escondam a dor, a perda e as transformações que estão acontecendo no território.

Eu lido nesse projeto com o território onde eu nasci e cresci. Com os rios que banharam a minha infância e que ajudaram a formar o olhar que eu tenho hoje. Ver esses rios em constante colapso ou sendo afetados por eventos climáticos extremos que ocorrem em uma frequência cada vez mais acelerada é como levar um grande soco no estômago. Eu espero que esse projeto siga sendo uma importante ferramenta de alerta, mas também um registro da memória, da luta e da resistência do povo juruaense.

2. O fotojornalismo nos dá o registro visual da crise, mas há coisas que a câmera não registra: o calor sufocante, o cheiro da queimada, o silêncio de uma floresta que perdeu sua fauna. Qual foi o elemento sensorial mais marcante que você vivenciou nessas coberturas no Acre e que você gostaria que as pessoas conseguissem ‘sentir’ ao olhar para as suas fotos?

Sem dúvida, a fumaça. Não apenas como imagem, mas como experiência física. Durante os períodos mais intensos das queimadas, ela invade as casas, cobre os rios, dificulta a respiração e transforma completamente a relação das pessoas com o ambiente. Lembro de dias em que o sol parecia uma esfera avermelhada suspensa num céu cinza, e a fumaça pairava sob o ar por dias a fio. Era muito difícil respirar. Isso aconteceu em 2024 e eu acho que todo mundo lembra. Gostaria que as pessoas pudessem sentir esse desconforto ao olhar as fotografias, porque a crise climática não é apenas algo que se vê, ela é algo que se respira, que se sente no corpo e que altera profundamente a vida cotidiana das populações amazônicas. Ela modifica toda uma dinâmica de território e infelizmente as pessoas que menos colaboram para essa crise, são as mais afetadas por esses impactos: pessoas negras, pobres e periféricas, além de comunidades indígenas, ribeirinhas e extrativistas.

3. Ao cobrir crises climáticas na Amazônia, você frequentemente se depara com populações tradicionais e ribeirinhos em extrema vulnerabilidade. Teve algum momento específico nessa cobertura em que o ‘Paulo ser humano’ atropelou o ‘Paulo fotógrafo’, fazendo você baixar a câmera antes de registrar a cena?

Sim, várias vezes. Acho que isso acontece porque eu não sou um observador externo do meu território. Eu cresci aqui, conheço muitas pessoas, compartilho referências culturais e afetivas com elas.

Em alguns momentos, a prioridade deixa de ser a fotografia e passa a ser a escuta, a conversa ou simplesmente a presença. Já houve situações em que percebi que a pessoa precisava primeiro ser acolhida ou ouvida antes de ser fotografada.

Nessas ultimas enchentes entre abril e maio, eu também procurei auxiliar as pessoas da maneira que eu pude e com recursos próprios. Comprei e carreguei fardos de água junto com a minha família, pedi ajuda de amigos para ajudar pessoa X e Y e tento retribuir de alguma maneira para o meu território, para além dos registros visuais. A fotografia é importante, mas ela nunca pode estar acima da dignidade humana. Para mim, documentar também é construir relações de respeito com quem está sendo fotografado. Geralmente eu pergunto se a pessoa quer que o registro seja feito e no caso do prêmio, nenhuma foto mostrava o rosto das pessoas. As que eu submeti ao prêmio sempre mostravam as pessoas de costas. Tenho outras que mostram o rosto, mas todas essas fotos foram autorizadas e eu conversei e mostrei o meu trabalho para essas pessoas antes de fotografá-las.

4. Esse prêmio carrega os nomes de Dom Phillips e Bruno Pereira, dois homens que deram a vida pela Amazônia. Como o legado e a coragem deles ecoam no seu peito quando você está sozinho em campo, no interior do Acre, correndo riscos para registrar a realidade da floresta?

Receber um prêmio com os nomes de Dom Phillips e Bruno Pereira tem um significado muito profundo. Eles representam o compromisso de uma profunda luta socioambiental pela Amazônia e pelos povos da floresta. Evidentemente, o trabalho que realizo não se compara ao que eles fizeram ao longo de suas trajetórias, mas suas histórias nos lembram da importância de continuar documentando, denunciando e potencializando a visibilidade sobre questões que muitas vezes permanecem à margem dos grandes centros de decisão.

O legado deles reforça a ideia de que a Amazônia não pode ser tratada apenas como uma paisagem distante, ela é um território vivo, habitado por pessoas cujas vozes precisam ser ouvidas, respeitadas e principalmente POTENCIALIZADAS.

Me sinto profundamente honrado por ter recebido esse prêmio que foi pensado como uma homenagem para ambos, seja como o Paulo Henrique Costa fotógrafo, seja como o Paulo Henrique Costa mestre em ciências ambientais, pesquisador ou ativista socioambiental. Me solidarizo com as famílias de Dom e Bruno e espero que a justiça seja feita. O legado e a memória de ambos ecoarão para sempre. Vejo esse prêmio como um reconhecimento da importância das histórias, das pessoas e dos territórios retratados nas fotografias.

5. Paulo, depois de vencer um prêmio dessa magnitude documentando o ápice de crises climáticas no Acre, para onde aponta a sua lente agora? O seu planejamento é continuar aprofundando o registro dessas feridas ambientais na Amazônia ou você sente a necessidade de buscar narrativas de resistência e regeneração para não deixar o seu trabalho ser consumido apenas pela tragédia?

Pretendo continuar acompanhando os impactos da crise climática porque ela ainda está em curso e continuará moldando a vida na Amazônia nos próximos anos. Esse é o projeto fotográfico da minha vida. Um projeto de longo prazo que eu ainda pretendo registrar por mais 7 anos. No entanto, meu interesse não é documentar apenas a tragédia. O que me move são as pessoas e suas relações com o território. Por isso, cada vez mais quero aprofundar narrativas de resistência, adaptação, memória, espiritualidade e regeneração.

A Amazônia como um todo, não é apenas um lugar de perdas, ela também é um espaço de invenção, de cuidado e de permanência. Mostrar essas dimensões é tão importante quanto denunciar os impactos dos eventos climáticos extremos. O Vale do Juruá, onde eu vivo, é um grande epicentro de diversidade, línguas, povos, religiões e culturas. Também me interesso por registrar isso.

Você sabia que eu tenho um nome para essa região? Eu chamo de A REGIÃO CORAÇÃO DO MUNDO (acho que eu vou patentear o nome desse projeto). É a região coração do mundo porque daqui nascem narrativas potentes que vão na contramão de toda a destruição que está tomando conta do mundo. É a região coração do mundo porque aqui a gente pensa e vive o tempo da floresta.

6. Grandes prêmios costumam abrir portas internacionais e mudar o patamar de um fotógrafo. Pensando nos seus próximos passos, você planeja usar essa visibilidade para levar a realidade do Acre e da Amazônia para exposições e debates fora do Brasil, ou o seu foco principal continua sendo fortalecer o jornalismo local e a formação de novos olhares aqui na região?

Acredito que essas duas coisas podem caminhar juntas. Tenho interesse em ampliar a circulação internacional do meu trabalho porque considero importante que as histórias do Acre e do Vale do Juruá cheguem a outros públicos e participem de debates globais sobre clima, biodiversidade e justiça socioambiental. Ao mesmo tempo, não quero perder minha conexão com o território onde tudo começou.

Meu compromisso principal continua sendo produzir narrativas a partir da Amazônia acreana e juruaense e contribuir para que mais pessoas da região possam contar suas próprias histórias. Quanto mais vozes amazônidas ocuparem espaços de visibilidade, mais diversa e verdadeira será a compreensão do mundo sobre o que é esse grande epicentro de diversidade e vida que é a nossa casa.

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