De onde vem a inspiração? – por Nelson Falcão

Quando cursava Artes Visuais na Faculdade Belas Artes de São Paulo, aprendi rapidamente que o termo era persona non grata nos corredores da academia. Meus professores torciam o nariz. Havia algo de impreciso nele, algo que escapava ao método.
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Existe uma palavra que os acadêmicos preferem evitar. Ela carrega consigo um peso que incomoda — não o peso do desconhecido, mas o de algo que a ciência ainda não conseguiu nomear com precisão suficiente para se sentir confortável. A palavra é inspiração. E o curioso é que justamente aqueles que mais a experimentaram, filósofos, físicos, artistas, pensadores foram os que menos resistiram a usá-la.

Quando cursava Artes Visuais na Faculdade Belas Artes de São Paulo, aprendi rapidamente que o termo era persona non grata nos corredores da academia. Meus professores torciam o nariz. Havia algo de impreciso nele, algo que escapava ao método. E talvez seja exatamente por isso que a palavra nunca saiu do meu vocabulário. O que nos incomoda, em geral, é o que nos diz mais.

A caverna antes da parábola

Para entender de onde vem a inspiração, é preciso voltar ao tempo da caverna. Não à caverna de Platão (aquela da alegoria filosófica onde sombras são confundidas com a realidade), mas a uma outra, muito mais antiga: Lascaux, no sul da França.

Ali, por volta de 18 mil anos antes de Cristo, seres humanos que não tinham escrita, não tinham Estado, não tinham universidade e certamente não tinham departamentos de artes visuais, fixaram nas paredes de pedra imagens de animais com uma precisão e uma força que ainda hoje provocam silêncio em quem as vê pela primeira vez. Entre eles, o bisão, um animal enorme, sagrado, representado com tal domínio técnico e criativo que o artista anônimo aproveitou uma protuberância natural na rocha para dar volume às ancas do animal.

Aquilo não era decoração. Naquela época, nossos ancestrais entravam na escuridão da caverna – o útero da Mãe Primordial – levando nas mãos tochas que iluminavam as paredes das grandes galerias de Lascaux. O serpentear das chamas proporcionava sobre pintura de animais algo de sobrenatural e a caverna se transformava em um palco cosmológico. O bisão era o animal-chefe, uma entidade primordial que, segundo a crença desses grupos, permitia que alguns de seus filhos fossem sacrificados para alimentar os filhos dos homens. Uma narrativa de troca sagrada entre espécies. Um mito fundador.

Dezenove mil e quinhentos anos depois, um homem chamado Michelangelo sobe andaimes improvisados na Capela Sistina, em Roma, e pinta o teto com a mesma urgência. O tema é outro, mas a estrutura é a mesma: um pai que oferece um filho ao mundo. O divino que se dobra ao humano. A cena da criação de Adão — aquela em que dois dedos quase se tocam — é quase um eco visual das pinturas rupestres. A mão que se estende, o espaço que separa, a potência que atravessa o vazio.

Michelangelo afirmou ter recebido inspiração divina. O artista sem nome de Lascaux possivelmente sentiu o mesmo. A academia pode achar o termo pouco rigoroso, mas o que foi dito e sentido por aqueles dois homens tratava-se da mesma coisa: a sensação de que a ideia não veio de dentro, mas através de si.

 

O filósofo que sonhava acordado

No século XX, quando a ciência já assumia o papel que antes cabia à teologia, o filósofo francês

Gaston Bachelard tentou nomear esse estado com mais precisão. Em A Poética do Devaneio (1960), ele descreve o que chama de devaneio — não o sonho do sono, mas aquele estado intermediário em que a consciência ainda está presente, porém solta das amarras do imediato.

“O sonhador de devaneio está presente em seu próprio devaneio”, escreveu Bachelard. “Mesmo quando o devaneio dá a impressão de fuga para fora do real, para fora do tempo e do lugar, o sonhador sabe que é ele que se ausenta — é ele, em carne e osso, que se torna um espírito, um fantasma do passado ou da viagem.”

Bachelard não era um místico. Era um epistemólogo rigoroso, formado na tradição científica que explodiu no início do século XX. Sua obra é, paradoxalmente, uma tentativa racional de compreender o que acontece quando a razão dá uma pausa.

E quem deu pausas mais produtivas do que Albert Einstein?

 

O físico que fechava os olhos para ver mais longe

Einstein tinha um hábito que seus colegas achavam estranho: ele pensava em imagens antes de pensar em equações. Chamava isso de Gedankenexperiment — experimentos de pensamento. Antes de qualquer cálculo, ele se colocava dentro de uma cena imaginária e deixava a cena se mover.

Foi assim que chegou à Teoria da Relatividade. Ainda adolescente, Einstein imaginou o que seria perseguir um raio de luz — literalmente, correr ao lado de um feixe luminoso e observálo de perto. Aquela imagem, aquele devaneio de um garoto em Ulm, levaria décadas depois à equação mais famosa da história.

Isso não é retórica. É método. E é o mesmo método, em essência, que Isaac Newton aplicava quando ficava parado por horas, olhando para nada, até que uma ideia emergisse. Ou que Platão usava quando descrevia o acesso ao chamado Mundo das Ideias — um plano invisível onde habitariam, segundo ele, “todas as ideias autênticas e verdadeiras”. Da parábola da caverna ao Principia Mathematica, o movimento é o mesmo: sair do imediato para enxergar o estrutural.

Coincidência? O psiquiatra suíço Carl Jung diria que não. Ele chamaria isso de sincronicidade — a ocorrência de eventos significativamente relacionados que não têm relação de causa e efeito, mas que apontam para uma mesma estrutura profunda.

O inconsciente que todos compartilhamos

Jung foi mais longe do que Freud na exploração do que está abaixo da superfície da consciência. Enquanto Freud via o inconsciente como um depósito de recalques individuais — e chegou a afirmar que “o homem não é senhor na sua própria casa” —, Jung propôs que há uma camada mais profunda ainda: o inconsciente coletivo.

Nele habitam os arquétipos — padrões simbólicos herdados, estruturas que emergem repetidamente em culturas que jamais tiveram contato entre si. O herói que morre e renasce. A grande mãe primordial. O velho sábio. O animal sagrado que se sacrifica. Esses padrões aparecem por todo o mundo e em diferentes culturas, como relatei em meu artigo – O Labirinto do Curupira – postado recentemente neste portal.  As recorrências míticas estão lá: dos mitos dos povos originários da Amazônia aos mitos gregos, nas tragédias de Shakespeare e nos contos de fadas siberianos.

Aparecem também nas pinturas de Lascaux. E no teto da Sistina.

O mitólogo Joseph Campbell, que passou a vida rastreando essas recorrências, resumiu tudo em uma frase: “O plano invisível sustenta o visível.” O que vemos — a obra, a teoria, o poema, a equação — é apenas a superfície. Embaixo, há uma estrutura que todos nós compartilhamos, que fala em símbolos, que se comunica por metáforas, e que só emerge quando paramos de forçar.

 

O problema da tradução

Mas há uma questão que os entusiastas da inspiração costumam negligenciar: o que fazer com ela depois?

Platão acessava o Mundo das Ideias. Einstein via a luz em movimento. O artista de Lascaux sentia o espírito do bisão. E então? A ideia está lá, vívida, total, e até tridimensional — e precisa ser traduzida para uma linguagem que outros possam compreender. Palavras. Equações. Tinta na rocha.

Freud tinha razão ao alertar sobre a dificuldade desse processo. A linguagem simbólica do inconsciente não se deixa traduzir facilmente para o vocabulário racional. Muito se perde na travessia. Os artistas surrealistas entenderam isso quando tentaram reproduzir o inconsciente diretamente na tela — e descobriram que o ato de pintar já é, em si, um filtro.

Mas se a tradução fosse impossível, não haveria filosofia, nem física, nem arte. Não conheceríamos a República de Platão nem os Principia de Newton. Não veríamos o bisão de Lascaux. A tradução é possível — apenas exige um tipo de honestidade que a maioria das pessoas evita: a disposição de se sentar diante de algo que ainda não tem forma e não desistir até que a forma apareça.

 

Sair da ilha para ver a ilha

O escritor português José Saramago disse certa vez: “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não sairmos de nós.”

É essa, talvez, a definição mais precisa de inspiração que já encontrei. Não é um acidente neurológico. É um movimento deliberado — ou às vezes involuntário — de distanciamento. O artista que se afasta de sua obra para vê-la com olhos novos. O cientista que abandona o problema por uma semana e acorda com a solução. O filósofo que para de discutir e começa a imaginar.

A inspiração não vem de fora. Vem de dentro — de uma camada tão profunda que parece externa. E se é divina a inspiração, essa centelha está em cada um de nós. Vem do lugar onde o individual e o coletivo se encontram, onde a história pessoal conversa com a história da espécie, onde os símbolos que desenhamos nas pedras há dezoito mil anos ainda circulam, silenciosos, esperando ser reconhecidos.

Os acadêmicos podem continuar evitando a palavra. Mas enquanto isso, ela continua fazendo seu trabalho.

 

E você — de onde vem a sua inspiração?

 

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