Entre o mito e o concreto

Ser amazônida no século XXI é aprender, desde cedo, a existir em duas camadas: a que se vive e a que inventam sobre você.
Redação Amazônia Incrível
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*Colaboração de Luciano Amorim – Colunista do Amazônia Incrível

Ser amazônida no século XXI é aprender, desde cedo, a existir em duas camadas: a que se vive e a que inventam sobre você.

A primeira tem cheiro de chuva quente no asfalto, de rio barrento que insiste em ser estrada, de ventilador que nunca vence o calor. Tem ônibus lotado cruzando pontes improvisadas, tem criança que sabe o nome das árvores antes de saber conjugar verbos, tem gente que cresce ouvindo que mora longe mesmo sem nunca ter saído de casa.

A segunda camada é feita de equívocos. É a floresta reduzida a cenário, o povo reduzido a curiosidade, a vida transformada em documentário narrado por quem nunca sentiu o peso do ar antes da chuva. Para muitos, ser amazônida ainda é ser quase uma lenda, metade gente, metade paisagem.

Mas não somos silêncio verde.

Somos cidade também. Somos buzina, pressa, ansiedade, boleto vencido e sonho adiado. Somos o concreto que racha com raiz por baixo, lembrando que a terra nunca foi embora, só ficou esperando. Somos jovens que falam rápido, conectados ao mundo inteiro, enquanto o mundo ainda nos imagina isolados, como se o tempo aqui tivesse parado em alguma fotografia antiga.

Há uma violência sutil em ser constantemente traduzido por outros. Em ver sua identidade explicada em tom didático, simplificada, mastigada, como se fosse preciso torná-la compreensível. Como se não bastasse existir e sempre fosse preciso justificar.

Ser amazônida é carregar nas costas uma expectativa que não pedimos: a de representar uma floresta inteira, uma cultura inteira, um imaginário inteiro. É ser perguntado sobre o que queima, sobre o que desmata, sobre o que falta… raramente sobre o que pulsa. E pulsa muito.

Pulsa nas periferias que inventam beleza onde só ofereceram abandono. Pulsa nos artistas que misturam ancestralidade com fone de ouvido. Pulsa na língua que carrega palavras que não cabem em tradução, porque pertencem ao corpo, não ao dicionário.

Ser amazônida é saber que há um mundo olhando, mas não necessariamente enxergando.

Porque olhar de fora é, muitas vezes, enxergar só o exótico. É romantizar a resistência sem dividir o peso dela. É achar bonito o que, por dentro, cansa. E cansa muito.

Cansa ter que explicar que aqui não é só mata.
Cansa ter que provar que aqui também é pensamento, produção, criação.
Cansa ser lembrado só quando vira problema ou espetáculo.

Há dados que escancaram esse apagamento: a região Norte ainda concentra alguns dos menores índices de acesso à internet de qualidade no país, mesmo quando a narrativa insiste em nos chamar de “pulmão do mundo”, como se bastasse respirar por todos e esquecer que também precisamos nos conectar, estudar, trabalhar. Em muitas produções audiovisuais nacionais, personagens amazônidas ainda aparecem como figurantes da própria história. Somos cenário até quando somos assunto.

Nos livros didáticos, a Amazônia costuma caber em poucas páginas, quase sempre associada à biodiversidade, raramente às pessoas que vivem nela. Pouco se fala das universidades que resistem, da produção científica local, das periferias urbanas que crescem mais rápido que o planejamento. É como se fôssemos um território congelado no passado, enquanto o resto do país se move. Uma ficção confortável para quem não precisa nos encarar de verdade.

E há o exotismo cotidiano, quase invisível de tão repetido: a surpresa quando alguém descobre que aqui há prédios, shoppings, trânsito. A pergunta recorrente “mas você mora mesmo lá?”, como se fosse improvável que exista vida plena onde só imaginam mata. O espanto diante do sotaque, como se ele fosse menos legítimo. Pequenos gestos que, somados, vão nos empurrando para um lugar de permanente estranhamento dentro do próprio país. Mas, ainda assim, resistimos ao rótulo.

Porque há também reconhecimento, ainda que tardio, ainda que incompleto, quando nossas vozes atravessam fronteiras por meio da arte, da literatura, da música, do cinema. Quando deixamos de ser objeto e passamos a ser autoria. Quando o mundo, mesmo que por instantes, para de nos olhar como paisagem e começa a nos escutar como narrativa.

Mas há uma força silenciosa que permanece.

Ela mora na maneira como a gente ocupa os espaços que tentam nos negar. Na forma como a cidade cresce torta, mas cresce viva. Na insistência de quem escreve, canta, filma e ensina dizendo de mil jeitos: nós estamos aqui.

Ser amazônida no século XXI é, talvez, isso: não permitir que contem nossa história sem a nossa voz.

É existir apesar da narrativa pronta.
É ser mais do que o olhar do outro alcança.
É ser raiz em movimento.
E raiz, quando encontra brecha, rompe qualquer concreto.

Luciano Amorim

*Educador, administrador de empresas, leitor voraz e influencer cultural. Natural de Manaus-AM, atua na interseção entre educação, cultura e pensamento crítico, acompanhando de perto os movimentos artísticos, literários e sociais que atravessam o Brasil contemporâneo.

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