A literatura da alteridade – a dor do outro atravessando espaços íntimos

E assim, movida pelo sentimento de Alteridade e empatia genuína, cheguei ao final de mais uma Oficina Poética, sabendo que poesia não se ensina, não se cobra em “tarefas de casa” e muito menos se dá notas de 0 a 10.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Ao receber o convite  para facilitar uma Oficina de Poesia para jovens e adolescentes “refugiados e migrantes”, numa parceria com a escritora Myriam Scotti na Oficina de Prosa, fiquei a  pensar sobre essa difícil  situação: pessoas atravessadas pela migração involuntária, pessoas “refugiadas” impulsionadas a sobreviver num outro país disposto a  acolhê-las. Essa reflexão, necessária para elaborar uma pequena oficina, das tantas que já facilitei, fez-me sentir o peso da responsabilidade agravada, mais ainda, pela tragédia sísmica ocorrida na Venezuela na noite anterior, uma vez que os alunos são, em sua maioria, venezuelanos.

 

Morando em Manaus, cidade que já recebeu em torno de 20 a 30 mil refugiados venezuelanos,  em dados da  Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) nos últimos anos, sinto (no dia a dia) a presença dessas pessoas ao meu redor, pois elas transitam em cargos de prestação de serviços e na cadeia produtiva/criativa da economia de nosso Estado. Nesse contexto, houve o convite (uma das atividades em torno do “Mês Internacional dos Refugiados”) feito pelo Coordenador Xiosmel Ramon Herrera do Instituto Hermanitos, órgão que acolhe pessoas refugiadas e migrantes de todas as nacionalidades em Manaus (AM) e Boa Vista (RR), promovendo iniciativas de integração econômica, cultural e social no Brasil e  que tem como um dos seus maiores parceiros a ACNUR. Não pude recusar, muito menos desistir da missão. Aceitei com o coração apertado, porém ansiosa em dividir um pouco de alento, a essas pessoas, em forma de poesia.

Antes, fiz várias reflexões a respeito da condição de “refugiado”. Assim como o migrante voluntário, aqueles que fazem a caminhada difícil de sair de seu país de origem em direção ao “incognoscível”, ao país de destino, são pessoas que não sabem o que terão a enfrentar pela frente. Só têm em mente a sobrevivência sua e de sua família, de seus entes queridos, amigos e compatriotas. Sobreviver mais um dia, mais um dia, e mais um dia. Como falar de poesia e tocar o coração desses potenciais alunos? Como (re)sensibilizá-los e (re)conectá-los com a arte? Caminho delicado que requer coragem, sensibilidade e principalmente, alteridade.

 

Alteridade é o conceito sociológico e antropológico que define o reconhecimento, a empatia e o respeito pelo “outro”. Ele parte do princípio de que o “eu” só se constrói e se compreende na sua totalidade a partir do contato, da convivência e das diferenças com indivíduos de outras origens ou culturas. Partindo desse conceito, pensei em conduzir a tal Oficina em torno do poder terapêutico de (re)sensibilização e empatia  que possui a literatura, de uma forma ampla e democrática. Pronto, achei o caminho.

 

A princípio, eu iria começar com Adélia Prado porém, depois dos trágicos e inimagináveis acontecimentos ocorridos na noite anterior, resolvi trazer um poema de Maria Clara Salas, poeta Venezuelana, como forma de aproximação e reconhecimento, como uma espécie de “minuto de silêncio” e respeito:

Quem diria que eu te encontraria num dia como hoje?

Sente-se, você tem muito a dizer.

Foi fácil para os anjos te erguerem do chão?

Qual é a aparência das realidades invisíveis?

Você ouve e fala com uma voz que não é daqui.

Você pode me proteger?

Você será a brisa suave que eu estava esperando?

Movam os remos, levem-me depressa para a margem,

Feche as janelas dos meus olhos, cante canções de ninar para mim.

María Clara Salas -Vencedora do Prêmio de Poesia da Cidade de Caracas de 1991 e do Prêmio de Poesia CONAC Francisco Lazo Martí de 1992

A poesia tem esse poder, único, de contagiar seja na dor, seja na alegria, porque tudo é sentimento. E foi por aí que eu cheguei até Adélia Prado. Para abrir o conceito de Arte, busquei uma fala da poeta num discurso proferido há alguns anos.

Uma vez ela foi convidada para ministrar uma Aula Magna, no curso de Letras de uma grande Universidade e disse:

 

“Quando eu falo de poesia, não é apenas da poesia que, eventualmente, nem sempre nós encontramos nos poemas. Falo do fenômeno poético de natureza epifânica, reveladora, do que confere uma obra de arte o estatuto de obra de arte, pode ser música, pode ser escultura, pintura, teatro, dança, cinema e literatura que é onde eu me coloco. Tudo isso que foi nomeado, tudo aquilo que eu chamo de arte se justifica pela poesia que ela contém. Se não tiver poesia não é cinema, não é teatro, não é pintura, não é literatura. Não tendo, ela é tudo  menos obra de arte.” (…) “A arte fala de absolutamente tudo porque qualquer coisa é a casa da poesia. Ela não escolhe tema, nem enredo, nem assunto. Ela pousa onde lhe apraz e é esse o momento que é apreendido pelo poeta ou pela cineasta, enfim.”

 

E continuei a convocá-los a pensar através da poesia, tentando sensibilizar por um ato que todos são capazes de praticar , o ato da escrita:

 

 

Vamos ver isso na prática com um poema de Adélia Prado, no seu livro de estreia “Bagagem”, 1976:

 

 

Agora que vocês já sabem como extrair a poesia de dentro de si, vamos conhecer outros poetas que viveram suas vidas em busca da palavra que se esconde , escapa, foge, mas que se não fossem eles nossa Literatura não seria tão grande e potente.

 

Uma Oficina de Poesia serve pra isso, despertar o prazer de ler e entender a poesia, mesmo que seja a sua , particular, pois entender a poesia é  obter uma espécie de senha para termos acesso a outra dimensão, a da Arte. Outro poeta que gosto muito é Ferreira Gullar, criador de um poema  imenso chamado “Poema sujo”. Ele criava manifestos também, era um pensador da Arte. “A arte existe porque a vida não basta”- Ferreira Gullar, uma célebre reflexão.

 

Sabemos que não podemos, ou não conseguimos, viver sem Arte. A alma humana precisa do escape e da redenção que só um livro, um poema , um romance, um filme ou uma tela pintada por seu artista preferido, podem oferecer. O mundo sem arte se tornaria muito mais pesado e sem propósitos.

 

Nossas habilidades e talentos serão testados sempre que uma música tocar, uma peça de teatro fechar as cortinas com você ainda no sonho…isto é, uma expansão de sensibilidade acontecendo de forma irremediável pelo seu corpo e mente, por isso muitos de nós temos memória afetivas com o primeiro filme visto no cinema, ou sentiu o cheiro da casa da vó enquanto  lia um livro, cujo personagem estava sentado no banco da cozinha esperando pelo pedaço de bolo. Aquele, fumegante, saído do forno da casa da sua avó Maria…

 

Perceberam o poder das palavras que formam o sentido abstrato da Poesia? E como ela se manifesta quando usada, intensionalmente, para trazer sensações ao texto, ao poema? O fazer poético se utiliza de algumas ferramentas  linguísticas e estilísticas para que o poeta possa construir um poema. Vai se utilizar de técnicas para trazer “sensações” ao seu texto, ele estará fingindo ser alguém que , de fato, estará sentindo aquela sensação criada. Que não é a sensação real do poeta, essa está guardada, mas outra.  Feita para sensibilizar as pessoas, uma “verdade inventada”, que poderá atingir em cheio o peito do leitor.

 

Esse é o papel do poeta, criar sensações e impactos que levem a reflexão de seu mundo interno.

 

 

O poeta Português, que muito admiro, Fernando Pessoa escreveu melhor sobre isso no poema intitulado “Autopsicografia

 

Vamos analisar o poema de Fernando Pessoa:

O poema é composto por três estrofes, com 4 versos (quartetos) que apresentam rima cruzada, sendo que o primeiro verso rima com o terceiro e o segundo rima com o quarto.

Relativamente à escansão do poema Autopsicografia (a sua métrica), o poema se qualifica como um redondilha maior, o que significa que os versos são heptassílabos, ou seja, têm 7 sílabas.

Na primeira estrofe é possível verificar a existência de uma metáfora que classifica o poeta como um fingidor. Isso não significa que o poeta seja um mentiroso ou alguém dissimulado, mas que é capaz de se transformar nos próprios sentimentos que estão dentro dele. Por essa razão, consegue se expressar de maneira única.

Vemos na segunda estrofe que a capacidade do poeta de expressar certas emoções desperta sentimentos no leitor. Apesar disso, o que o leitor sente não é a dor (ou a emoção) que o poeta sentiu nem a que “fingiu”, mas a dor derivada da interpretação da leitura do poema.

Na terceira e última estrofe, o coração é descrito como um comboio (trem) de corda, que gira e que tem a função de distrair ou divertir a razão. Vemos neste caso a dicotomia emoção/razão que faz parte do cotidiano do poeta. Podemos então concluir que o poeta usa o seu intelecto (razão) para transformar o sentimento (emoção) que ele viveu.

Outra poeta maravilhosa da nossa Literatura Brasileira é Cecília Meireles, que escreveu esse poema que fala do seu fazer poético; da sua Poética :

 

Motivo

 

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste:

sou poeta.

 

Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.

 

Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

— não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.

 

Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

— mais nada.

 

 

Podemos perceber neste poema , que Cecília Meireles nos põe para pensar. Ela, ao se denominar Poeta, vai nos puxando de alguma forma para dentro do poema, para as dúvidas existenciais dela: nem tristeza, nem alegria, pois o ofício de ser poeta inclui se entregar às sensações da alma. Ao canto.

 

Antigamente, quando se anunciava um poeta, por exemplo, na Grécia antiga, a Poesia Épica era cantada, só depois ela passou a ser recitada, falada. Quando a autora escreve o verso: “Sei que canto. E a canção é tudo.” ela quer nos dizer que a poesia está nela, e isso é tudo.

 

 

Os poetas são seres engraçados…vivem buscando detalhes por onde passam, enquanto todos olham para um mesmo ponto, ou para ponto algum, mexem no celular ou afins, o olhar do poeta vai eternizar um momento “invisível”, como no poema abaixo, de um poeta que respeito e amo muito, Alencar e Silva:

 

A morte do pombo

 

Em meio à praça,

só e de pé,

não sente o pombo

que vai morrer

 

Sobre suas pálpebras

ainda equilibra-se

o azul do dia.

 

Só breve brisa

de leve alisa-lhe

a asa fria.

 

Aspira o ar

(talvez sonhando

que vai voar).

– Alencar e Silva- Solo do Outono. Ed. Valer, 2000

 

 

 

Das inúmeras sensações, emoções, pensamentos, alumbramentos que os poetas podem se utilizar para criar, estão as coisa simples e telúricas da vida, uma ida ao quintal para dar comida aos animais, colher uma flor ou tomar um banho de chuva, podem virar “inspiração” e aquele momento ser registrado para sempre. Como nesse poema de Manoel de Barros, poeta Mato Grossense:

 

 

O menino que carregava água na peneira
O menino aprendeu a usar as palavras.

Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.

E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.

Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!

Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios

com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

 

 

Mas nem só de emoções singelas vivem os poetas, pelo contrário, eles nos mostram as fúrias humanas melhor que ninguém! Neste poema de Astrid Cabral, autora Amazonense, radicada no Rio de Janeiro, parece nos oferecer um cardápio de iguarias e quitutes como em todas mesas familiares costumam servir, porém não é bem assim que o leitor vai perceber no decorrer da leitura, há algo de incômodo, de estranhamento, de códigos e símbolos linguísticos deslocados… percebam:

 

 

CARDÁPIO

 

 

Nosso cardápio diário

inclui carnes assadas

e angústias bem passadas.

Inclui sangrentos nacos

cobertos de molhos pardos

que sabem a desgosto.

Inclui mil hipocrisias

devidamente empanadas

e servidas à francesa

bem antes da sobremesa

de frutas esquartejadas.

Inclui entre as iguarias

amizades congeladas

sonhos em banho-maria

deleites de amor requentado

em rançosos azeites.

Ódios com pó de pimenta

e as trêmulas gelatinas

de dúvidas coloridas.

Inclui o tédio guarnecido

de exóticos temperos.

Inclui o medo camuflado

em camadas de batatas.

Inclui a morte servida

sem o menor escrúpulo.

 

(ASTRID CABRAL, in-”Lição de Alice” -Ed.7 Letras, 1979)

 

Agora, para inspirá-los a compor o seu próprio texto poético, deixarei um último poema que fala de liberdade, de caminhar por terras distantes e diversas (mesmo que imaginárias), de como podemos ser corajosos e destemidos diante das escolhas e destinos de nossas vidas. Esse poema chama-se “Cantar de Andarilho”.

 

CANTAR DE ANDARILHO

 

Não tenho pátria

determinada

nem tenho pressa

nesta jornada:

 

só esta sede

que têm meus olhos

de ver e ver

 

e este incontido

impulso de asas

sobre meus pés.

 

Minhas sandálias

cobrindo o mundo

que descobriram

pé ante pé,

minhas sandálias

vão-se ficando

pelos caminhos

de minha fé.

 

Arde em meu rosto

o sol de todos

os continentes.

 

Todos os ventos

já visitaram

minhas narinas.

 

Todas as águas

já circularam

dentro de mim

 

Em minha fala

todas as falas

se misturaram.

 

E nos meus olhos

os céus mais vários

se despejaram.

 

Não tenho pátria

determinada

nem tenho pressa

nesta jornada:

 

só esta sede

que têm meus olhos

de ver e ver

 

e este incontido

impulso de asas

sobre meus pés.

 

ALENCAR E SILVA, Joaquim de., Lunamarga, 1965

 

 

E assim, movida pelo sentimento de Alteridade e empatia genuína, cheguei ao final de mais uma Oficina Poética, sabendo que poesia não se ensina, não se cobra em “tarefas de casa” e muito menos se dá notas de 0 a 10. Ao contrário disso, nesse espaço aberto no tempo, fora do tempo e numa outra dimensão, tudo que é criado e manifestado através da escrita, vindo de um grito do coração ou do estômago vazio, tudo é digno de estar no mundo, de ser ressignificado, reconstruído, reconectado. Como os versos que, algumas vezes, nascem dos escombros de uma cruel e inevitável tragédia.

 

 

Rita Alencar Clark

Escritora, Poeta e Professora de Língua Portuguesa e Literatura

 

 

 

 

Carregar Comentários