*Colaboração Sha Antunes – colunista do Amazônia Incrível
A banda Ira! reuniu em Manaus aqueles que provam que roqueiro não morre, resiste. É a galera que atravessou os anos 80 com música e posicionamento, que ouviu letras sem filtro em um tempo em que falar já era um ato político. Uma banda que nunca teve medo de dialogar com os jovens da sua época e talvez por isso continue encontrando os de agora.
Eu não vivi os anos 80. Mas sou atravessada por eles. Existe algo em uma voz revolucionária que não respeita o tempo, ela chega, fica e transforma. E o Ira! sempre foi isso: intensidade, idas e vindas, separações e reencontros… mas nunca silêncio. Porque tem banda que acaba. E tem banda que volta para casa, e a casa são os fãs.
E aí eu te pergunto: o rock morreu na terra do boi-bumbá?

Eu acho que não.
Eu mesma sou uma roqueira careca que ama profundamente a cultura da região, que vibra com o Festival de Parintins, que escolhe um lado — Boi Caprichoso — mas que também entende que a música é universal. Que dá pra ser raiz e ao mesmo tempo atravessada pelo mundo. Que dá pra ouvir toada e rock no mesmo dia, e se reconhecer nos dois.
O Ira! retornou a Manaus para celebrar um momento especial com o show “Acústico 20 Anos”. Um reencontro que não é só sobre nostalgia, mas sobre permanência. O formato acústico traz isso à tona: menos peso, mais proximidade. Voz e instrumentos quase à flor da pele, como quem senta pra conversar com o público.
A estética do projeto reforça esse clima de celebração. A banda reunida, o ar de marco histórico, a sensação de que não é só mais um show, é memória sendo revisitada ao vivo.
E talvez seja isso que responda à pergunta inicial.
O rock não morreu aqui.

*Sha Antunes é designer, idealizadora do Ecos do Norte, empreendedora e repórter, movida pela criatividade e paixão à cultura. Amante de uma boa música na vitrola, está sempre em busca de shows gratuitos e experiências culturais acessíveis. Mãe de uma bailarina que também compartilha esse amor pela arte, as duas dividem outra grande paixão: o Caprichoso. Defensora ativa de políticas públicas voltadas à cultura, Sha acredita no poder transformador da arte na vida das pessoas e na construção de uma sociedade mais sensível e diversa.