A literatura produzida no Norte do Brasil carrega a força dos rios, a vida das florestas e a profundidade de histórias que atravessam gerações. Em 2026, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), dá espaço para essa produção, que ganha novos holofotes no talento de autores que traduzem a diversidade e a potência da Amazônia contemporânea.
Representando o Amazonas, nomes como Suzy Freitas e Myriam Scotti, que é colunista do Amazônia Incrível, levam a Paraty obras marcadas pela sensibilidade e por olhares apurados sobre a identidade regional, sem ser só a paisagem e o exótico. A comitiva amazonense ainda conta com a presença marcante das escritoras Sandra Godinho e Elaine Andreatta, reafirmando o protagonismo feminino na escrita feita no Norte do Brasil.
Do Pará, o romancista Airton Souza soma à programação a densidade de sua trajetória premiada, construindo pontes entre as urgências sociais e a poesia do território paraense.
Um dos momentos mais tocantes da participação nortista será a presença do Acre: embora o aclamado escritor e jornalista Antonio Alves não esteja presente fisicamente em Paraty, sua obra e seu legado atravessarão o festival pelas mãos de sua filha, também jornalista e escritora Veriana Ribeiro. Ela leva a Flip os livros do pai, garantindo uma merecida e calorosa menção honrosa a um dos grandes mestres das letras e do jornalismo acriano.
A seguir, conheça mais sobre a trajetória e as obras dos autores que representam o Norte nesta edição da Flip:
Suzy Freitas (Amazonas)

Em entrevista, a autora de “No Baile do Juízo Final” reflete sobre sua presença na Festa Literária Internacional de Paraty, critica a visão exotificada do mercado editorial do eixo Rio-São Paulo e defende a multiplicidade da escrita produzida no Norte.
A presença de autores do Norte na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) costuma vir acompanhada de uma expectativa quase institucional: a de carregar a voz de todo um território nas costas. Para a escritora e pesquisadora amazonense Susy Freitas, no entanto, essa cobrança não faz sentido.
Prestindo a integrar a programação de um dos maiores eventos literários do país, Susy reflete de forma crítica sobre o papel do escritor frente ao mercado, a necessidade de desconstruir estereótipos em relação à Amazônia e os limites da representatividade.
Confira os principais pontos da conversa:
A ilusão da representatividade total
Questionada sobre o peso de representar a literatura do Amazonas em um palco nacional, a autora rechaça a ideia de carregar essa responsabilidade. Para ela, tentar sintetizar uma região inteira em uma única voz é uma tarefa impossível.
“Não sinto essa responsabilidade, até porque não tenho como dar conta de representar toda a multiplicidade de uma região biogeográfica que abrange nove países. Assim como um autor sudestino, vou para apresentar minha obra, e cabe ao público a reflexão de como o contato com minha escrita tem o potencial de expandir sua visão de mundo”, pontua.
Susy ressalta que, se seu livro instigar o leitor a pensar sobre o que a Amazônia é ou deixa de ser, o objetivo estará cumprido, mas reitera que essa interpretação é uma escolha que cabe ao público.
O mercado editorial e o “piloto automático”
A distância entre a produção nortista e o eixo Rio-São Paulo também foi centro do debate. Para a escritora, o rompimento de preconceitos e visões exóticas sobre o Norte não depende apenas da boa vontade dos autores ou da publicação de obras isoladas, mas de uma mudança estrutural no mercado literário.
“O eixo e os estereótipos não se rompem quando a gente publica uma obra específica; eles se rompem quando as grandes editoras param de olhar para o Norte como quem visita um parque temático, quando o mercado sente a necessidade de ampliar a gama de histórias e quando profissionais dos mais variados postos dentro dessa cadeia têm a chance de hackeá-lo”, afirma.
A autora reforça que os artistas amazônidas sempre estiveram ativos e produzindo narrativas diversas. Para ela, a cobrança por renovação e desconstrução deve partir das grandes editoras: “Vejo meu livro como um veículo que pode colaborar para tirar essa cadeia do ‘piloto automático’, mas essa responsabilidade é muito mais do mercado que dos escritores. Nós já estamos aqui, contando nossas histórias. É o eixo que precisa se renovar.”
Pontes em Paraty e novos projetos
Sobre as expectativas para o intercâmbio com leitores e editores nacionais e internacionais na Flip, Susy mantém o tom pragmático. A escritora encara sua participação como uma oportunidade de apresentar o próprio trabalho e trocar experiências com outros autores, sem a pretensão de atuar como porta-voz coletiva.
“Se o mercado nacional e internacional quiser descobrir o óbvio — que tem coisa interessante sendo escrita fora do CEP deles, meu livro pode servir como uma amostra introdutória. Mas vou ao evento para apresentar o meu trabalho, comentar minhas referências, prestigiar escritas que admiro e descobrir novas, não para representar um grupo de artistas que jamais me pediu isso.”
Em relação aos próximos passos na carreira, a autora revela que o foco total nos próximos meses será a circulação de sua obra mais recente. Lançado recentemente, o livro “No Baile do Juízo Final” deve concentrar sua agenda de divulgações e eventos durante todo o ano de 2026.
https://todavialivros.com.br/livros/no-baile-do-juizo-final
https://flip.org.br/evento/mesa-21-o-que-faco-desfaco-o-que-amo-desamo/
“Basta que o espaço nos seja dado que os leitores virão”, afirma a escritora amazonense Myriam Scotti (Amazonas) sobre sua participação na Flip

A autora celebra o avanço e a visibilidade da literatura produzida no Norte, além de destacar como a rotina, o clima e a vivência urbana de Manaus moldam a identidade e a sensibilidade de suas obras.
A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) representa um marco divisor para autores de todo o país, mas para quem produz literatura a partir da Amazônia, o evento assume uma dimensão ainda mais estratégica. Prestes a marcar presença em mais uma edição do evento, a escritora e poetisa amazonense Myriam Scotti analisa a consolidação da voz nortista no circuito nacional, o desafio de romper visões estereotipadas e a força de uma escrita intrinsecamente ligada ao cotidiano de Manaus.
De leitora a convidada do evento, a autora observa com otimismo a abertura progressiva do mercado e das programações culturais para a diversidade da produção amazônica.
O espaço conquistado pela literatura do Norte
Para Myriam, a experiência de ocupar as mesas principais e as casas parceiras em Paraty carrega um significado marcante. Ela pontua que, gradativamente, a literatura feita no Norte tem despertado o interesse do público e da própria organização do festival.
“Percebo, a cada ano que participo de uma edição da Flip, o quanto a literatura produzida no Norte tem despertado interesse em novos leitores e na própria organização, que vem se preocupando em ser mais diversa”, afirma a autora.
Scotti destaca que levar a perspectiva regional para os debates é um exercício diário de responsabilidade e oportunidade. “Nas mesas em que sou convidada a participar, falar sobre a minha região, o meu lugar, o meu centro é algo que faço sempre com responsabilidade e alegria. Basta que o espaço nos seja dado que certamente os leitores virão atrás do que escrevemos”, ressalta.
Além do exótico: a integração entre gente e território
Um dos principais entraves enfrentados por escritores amazônidas no eixo Rio-São Paulo é o olhar reducionista, que frequentemente restringe a região a um mero cenário exótico. Em seu trabalho literário, Myriam busca desconstruir essa percepção ao tratar o ambiente e a população como uma unidade indissociável.
“Tenho procurado me desafiar a estudar mais fundo a minha gente e o meu lugar justamente para que a minha escrita fuja do exótico da paisagem como sendo nossa única conexão com o restante do mundo. Somos COM essa natureza, não estamos à parte. Nas minhas obras, tento falar de paisagem e clima juntamente com as personagens, numa unidade que nos caracteriza e nos forma”, explica.
O ritmo de Manaus no processo criativo
Conhecida pela sensibilidade na construção de suas personagens e dinâmicas humanas, a escritora aponta que a atmosfera de Manaus com seu clima quente, úmido e ritmo próprio — molda diretamente o comportamento e as interações retratadas em seus livros.
Para capturar essa essência e alcançar a verosimilhança na prosa, Myriam defende a observação atenta e o contato direto com a cidade:
“A cidade de Manaus tem um ritmo mediado pelo clima quente e úmido, e isso faz com que o comportamento das pessoas seja completamente diferente de outros lugares do país. Só experimentando esses lugares, lendo obras de quem nos antecedeu, observando e conversando com os locais é que se consegue perceber os detalhes que vão afetar profundamente a escrita.”
Encontros espontâneos nas pedras de Paraty
Embora a Flip funcione como uma vitrine global para o mercado editorial nacional e internacional, a autora prefere encarar o evento sem fórmulas ou alinhamentos rígidos. Para ela, a maior riqueza da viagem reside na imprevisibilidade e na troca genuína com outros escritores e leitores.
“O mais legal da Flip é se deixar levar pelos encontros ao acaso enquanto a gente tenta não escorregar nas pedras de Paraty. Não costumo sair de Manaus com encontros muito planejados; os melhores sempre são aqueles que acontecem quando menos esperamos”, conclui.
Airton Souza (Pará)

Premiado, colunista do Amazônia Incrível e com participação garantida em quatro casas da Flip 2026, o autor de “Outono de carne estranha” critica os estereótipos históricos impostos à literatura do Norte e reafirma a urgência de encarar a região fora da ótica da barbárie e do exotismo.
1. A literatura produzida no Norte frequentemente enfrenta o desafio de romper o “eixo Rio-São Paulo” e as visões estereotipadas sobre a região. Como você enxerga o papel da sua escrita na desconstrução desse olhar exótico e na afirmação de uma Amazônia urbana, complexa e contemporânea?
É sempre importante falarmos sobre esses desafios que a literatura produzida no Norte do país sempre enfrentou, historicamente, e há de enfrentar. São estereótipos que foram elaborados a partir de visões da selvageria e da barbárie, e que os manuais de literatura ajudaram a disseminar como verdade. E, é bom lembrar que o ‘eixo’, que antes era Rio-São Paulo, hoje é muito maior, incluindo outras regiões. Na verdade, a minha literatura, assim como a literatura produzida pelos e pelas Nortistas tenta mostrar a face de uma parte do país que foi propositalmente esquecida. O que acaba por ser encarada como parte de uma desconstrução desse olhar exótico.
No entanto, o que nós estamos fazendo, assim como fez o Inglês de Sousa, o Dalcídio Jurandi, Márcio Sousa e tantos e tantas escritoras desse lado de cá do Brasil é tentar dizer que a Amazônia não pode mais se compreendida pelo exotismo, pela selvageria e pela barbárie. Contra essa noção falaciosa dessa Amazônia aí hoje nós temos uma literatura contemporânea que vem mostrando o que nunca se quis enxergar. E, para provar que eu não estou mentindo basta ler Milton Hatoum, Monique Malcher, Daniel da Rocha Leite, Ademir Braz, Sandra Godinho, Charles Trocate, Myriam Scotti, Edyr Augusto, e tantos e tantas escritores contemporâneas que nos apresenta as verdadeiras faces da Amazônia.
Quando me refiro a essas faces é levando-se em consideração que o escreveu um dos grandes nomes da literatura do Norte o poeta Vicente Franz Cecim, que nos convocou a mostrarmos a verdadeira face dos que criaram os estereótipos sobre o Norte. E hoje o que temos é uma literatura que não quer apenas reivindicar espaços, mas mostrar que não é possível pensar os grandes problemas desse país sem escritas que advém do Norte. O Brasil nunca será capaz de pensar e si mesmo sem nós que vivemos na Amazônia.
2. A FLIP é uma vitrine que conecta autores do mundo inteiro. Quais pontes você espera construir em Paraty entre a nova literatura produzida no Pará e o mercado editorial nacional e internacional?
A primeira vez que eu ouvir falar a respeito da Festa Literária de Paraty, a Flip foi em uma notícia na tv aberta, em uma matéria que me deixou fascinado, e nesse dia eu prometi a mim que um dia estaria lá como escritor. Essa será minha terceira Flip.
A primeira foi em 2023 quando venci o Prêmio Sesc, no que foi a edição histórica de 20 anos, com o romance Outono de carne estranha (Record, 2023), livro que depois chegaria a ser finalista do Prêmio Oceanos, um dos mais importantes de Língua Portuguesa.
No ano seguinte, a convite da Editora Record, e em defesa do livro e da leitura, isso por conta do que aconteceu com o Outono de carne estranha (Record, 2023) eu voltei a Flip, e agora em 2026 eu estou indo para participar das programações de quatro importantes casas, na programação paralela.
Entre as quais na Casa Record em uma mesa intitulada Travessias de pais e filhos, com mediação de Gabriel Pinheiro e participação de Marcelino Freire, na Casa da Livraria Janela, numa mesa sobre Amores Impossíveis, com Rodrigo Batista, Diogo Bercito e Vitor Martins, na sexta-feira, estarei na Casa Publishnews, em uma mesa sobre Raça, classe e o colapso da masculinidade na ficção brasileira, com Mauricio Mendes e Boris Calanzans, e também na Casa Tyiwaras Tikunas, em uma importante mesa com o tema A literatura como vingança, que terá a mediação de Pedro Gontijo, e participação de Sofia Finguermann, Henrique Pitt e Marcia Barbieri.
E é como você diz, essas são construções de pontes que se fazem necessárias. E, o mais importante, que é atravessar essas pontes com nomes que nós tanto admiramos.
Antonio Alves e Veriana Ribeiro (Acre)

Em sua terceira participação na Festa Literária Internacional de Paraty, a autora atua no mercado editorial e assume a missão de apresentar “Encantes”, obra do jornalista e escritor acriano Antonio Alves, ao público nacional.
Superar as barreiras geográficas impostas pelo mercado editorial do país é um desafio constante para quem produz cultura na Região Norte. Atenta a essa realidade, a jornalista, escritora e comunicadora acriana Veriana Ribeiro embarca para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) em 2026 com um papel duplo: atuar nos bastidores do evento e promover a literatura do Acre, levando na bagagem a obra de seu pai, o renomado jornalista e autor Antonio Alves.
Com mais de 15 anos de experiência na comunicação, Veriana estará em Paraty acompanhando as ações da assessoria de imprensa com.tato, que ocupará um espaço na Casa Escreva Garota, além de representar a Editora Orlando, da qual faz parte como autora, na Casa Opera.
O legado do Acre na literatura de encantaria
Apesar de estar finalizando um novo projeto autoral com lançamento previsto entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, Veriana não fará lançamentos próprios nesta edição. A prioridade na mala será o livro Encantes, publicado por Antonio Alves em 2021.
A obra de prosa poética coloca os seres encantados da Amazônia, como o Mapinguari, a Mão D’Água e o Boto como protagonistas de uma trama na qual debatem uma longa jornada pela floresta, enquanto relatam suas vivências a um pajé.
Para Veriana, apresentar o livro do pai no maior evento literário do país é uma forma de reparar o apagamento que autores do Norte ainda enfrentam fora de suas divisas:
“Levar o Norte, e principalmente o meu estado do Acre, para o máximo de lugares possíveis é uma missão de vida. Meu pai é um escritor primordial, mas que nunca teve o reconhecimento merecido fora da região por viver no Norte. No Acre, seu trabalho é muito conhecido, mas fora dali sua voz ainda é pouco ouvida. As pessoas não sabem a qualidade literária que estão perdendo”, destaca a jornalista.
Sobre a importância de ver a produção acriana no circuito nacional, Antonio Alves ressalta o valor da auto-representação: “É sempre uma oportunidade da Amazônia falar para o mundo com a sua própria voz. Não apenas ver as pessoas falando sobre o Norte ou sobre a floresta, mas nós mesmos falando sobre a nossa vida, com a arte e a poesia que conseguimos extrair dela.”
Logística e invisibilidade: os gargalos do Norte

Com a experiência de quem já lançou a obra “Coletânea dos Amores Partidos” na edição de 2024 do evento, Veriana aponta que a ausência física de autores como Antonio Alves na feira reflete os altos custos e as barreiras logísticas enfrentadas por quem reside na Amazônia.
“As passagens saindo do Norte são caríssimas e o investimento para estar em um evento como esse é alto. Eu mesma só consigo participar porque vou a trabalho. Essa dificuldade logística é uma grande barreira para que mais escritores da nossa região possam ocupar esses espaços”, pontua.
Ela pondera que, embora o mercado editorial comece a ensaiar uma abertura para novas narrativas, a visibilidade para os profissionais do Norte ainda é limitada: “As pessoas do Norte continuam sendo excluídas e tendo suas vivências invisibilizadas, não só na literatura, mas em todas as manifestações culturais.”
Perfil dos autores
Veriana Ribeiro: Natural de Rio Branco (AC), é jornalista formada pela UFAC e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela USP. É autora de Coletânea dos Amores Partidos (2021), do e-book Abortos Literários e assina contos nas coletâneas Antes que eu me esqueça (2021) e Contos em Miniatura (2025).
Antonio Alves: Nascido em Brasiléia e radicado em Rio Branco, atua desde 1980 como repórter, cronista, letrista e dramaturgo. Com forte trajetória ligada a projetos sustentáveis para povos indígenas e seringueiros, publicou obras como Conversa Educada (1995), Dias na Terra (2020), Encantes (2021) e Naquele Tempo (2022).
Até o fechamento desta reportagem, não conseguimos confirmar com a organização e nem com autores de Tocantins, Roraima e Amapá. Fica dsponível o espaço.