Começo a escrever este artigo movida por uma inquietação: como compreender o Brasil contemporâneo, suas desigualdades, suas disputas de território, suas violências estruturais e também suas resistências, a partir da literatura? Sempre acreditei que livros são uma espécie de mapa capaz de revelar aquilo que os discursos oficiais preferem manter afastado da população.
Ao longo dos últimos anos, busquei obras que me permitissem ler o país para além das estatísticas e da enxurrada de informações disformes e incompletas. Decidi explorar narrativas que encaram de frente as marcas do colonialismo, do racismo, da exploração do trabalho e das fraturas sociais que atravessam nossa história, até porque também procuro escrever minhas obras por outra direção crítica até compreender as raízes que nos enredam, como um gesto de revisão e também recusa: recusa a narrativas que nos silenciam. Escrever do Norte do Brasil, muitas vezes visto como margem do chamado centro cultural e literário, é praticar essa revisão: reescrever a história de mulheres e homens amazônicos quase sempre invisibilizados.
A seleção que apresento aqui, portanto, nasce dessa travessia pessoal e de um desejo de deslocamento: sair do eixo dominante e escutar vozes vindas de outras geografias e experiências. Reuni aqui livros que me provocaram reflexões das mais plurais:
Memórias de Menino, de Odenildo Sena; Um Rio Sem Fim, de Verenilde Pereira; Apolinária, de Bianca Santana; O Céu para os Bastardos, de Lília Guerra; Coração Sem Medo, de Itamar Vieira Jr.; Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli; A Construção, de Andressa Marques; Tocaia do Norte, de Sandra Godinho; e Tempo de retomada, de Trudruá Dorrico. São obras distintas em forma e linguagem, mas unidas pela capacidade de iluminar aspectos essenciais do Brasil que muitas vezes permanecem à margem: a Amazônia para além do exotismo, as periferias urbanas, as memórias negras e indígenas, as violências de Estado, os saberes ancestrais e as persistências do afeto mesmo em cenários de devastação.
Não se trata de uma lista definitiva, claro, mas de um conjunto de leituras que me feriram, me comoveram e ampliaram minha capacidade de imaginar o país. Em cada uma delas, a literatura não aparece como fuga, e sim como forma de enfrentamento, ou melhor, um modo de nomear o indizível, de restituir histórias apagadas e de inscrever novas possibilidades de existência.
Começo por Memórias de Menino, do escritor amazonense Odenildo Sena, uma obra que resiste às classificações fáceis: é crônica, memória, ficção afetiva; talvez tudo isso ao mesmo tempo. Ao lê-la, tive a sensação de caminhar por uma Manaus que já não existe, onde os igarapés eram vias de circulação e os barcos prolongamentos naturais da vida cotidiana. No centro de tudo está a figura de Mãe, grafada com maiúscula, não apenas como personagem, mas como força estruturante da narrativa.
Em meio à pobreza, à perda precoce do pai e às adversidades, ela é abrigo e horizonte. A escrita de Sena é profundamente sensorial: quase se sente a umidade do ar, o cheiro do rio, o vai-e-vem das embarcações. Para mim, o livro é sobretudo um gesto de amor e uma tentativa de costurar o tempo para que a infância, e com ela uma cidade inteira, não se dissolva no esquecimento.
Se esse livro me conduziu à memória, Um Rio Sem Fim, da também amazonense Verenilde Pereira, me lançou diretamente à ferida. A história de Maria Assunção e Rosa Maria, meninas indígenas arrancadas de seus territórios para servir famílias ricas em Manaus, revela uma violência colonial que nunca cessou, apenas mudou de forma. O que mais me impressiona é a capacidade da autora de narrar o horror sem abdicar da beleza. Sua prosa é sofisticada, poética, quase musical, e justamente por isso torna a violência ainda mais insuportável: porque restitui humanidade às personagens e devolve ao presente aquilo que a História tentou apagar. É um livro que não permite indiferença.
Foi a partir dessa fratura que encontrei Apolinária, de Bianca Santana, talvez uma das leituras mais reparadoras deste percurso. Mais do que um romance, vejo nele um gesto político de restituição da voz. Apolinária narra sua própria história: uma mulher negra que enfrentou pobreza, racismo, maternidade solo e abandono. Esse ato de narrar é, por si só, insurgente. A alternância entre a voz da avó e a da neta evidencia que a mobilidade social não é milagre individual, mas conquista coletiva e ancestral.
Também me marcou profundamente O Céu para os Bastardos, de Lília Guerra, um romance que confronta diretamente os limites do que costuma ser reconhecido como literatura legítima no Brasil. Ao construir uma consciência de minoria, a autora desvia do padrão hegemônico e abre caminho para outra forma de narrar: uma literatura que não pede autorização para existir.
Já em Coração Sem Medo, de Itamar Vieira Jr., último volume da Trilogia da Terra, encontrei uma das representações mais contundentes da violência de Estado no Brasil contemporâneo. A busca desesperada de Rita Preta por seu filho Cid, levado pela polícia sem explicação, expõe um sistema que naturaliza o desaparecimento de jovens negros. O romance dialoga de forma impressionante com o pensamento de Lélia Gonzalez e Frantz Fanon: a mulher negra como base vulnerabilizada da pirâmide social, a gestão colonial da morte, a indiferença institucional diante da dor. Vieira não descreve apenas uma realidade; ele a ilumina a fim de que se torne impossível ignorá-la.
Socorro Acioli, por sua vez, nos conduz a outro tipo de território em Oração para Desaparecer. Seu romance atravessa as fronteiras entre fantasia e realidade, mito e história, convidando o leitor a mergulhar na cultura ancestral do Ceará. A personagem enigmática que sustenta a narrativa parece habitar simultaneamente o mundo dos vivos e o das histórias contadas nas rodas de conversa, onde os mais velhos transmitem saberes, medos e crenças aos mais jovens. Ao ler Acioli, tive a impressão de acessar uma memória coletiva que sobrevive justamente por meio da oralidade; um Brasil que resiste à homogeneização cultural.
A Construção, da brasiliense Andressa Marques, desloca o olhar para Brasília a partir de uma perspectiva raramente contemplada pela narrativa oficial: a dos corpos que ergueram a capital e depois foram empurrados para suas margens. O romance revela a fissura entre o mito modernizador de Brasília e as histórias de sofrimento e resistência que sustentam suas fundações, propondo uma reflexão sobre identidade, pertencimento e a persistência do passado no presente.
Tocaia do Norte, de Sandra Godinho, nos confronta com uma das páginas mais violentas e frequentemente negligenciadas da história brasileira: o massacre do povo Waimiri-Atroari durante a ditadura militar. Ao narrar esse processo de invasão territorial, doenças introduzidas deliberadamente e extermínio sistemático, a obra evidencia como o projeto desenvolvimentista do Estado brasileiro esteve diretamente ligado à destruição de povos originários. Mais do que um relato histórico, o livro expõe a continuidade dessa violência no presente, revelando que a colonialidade não é um passado encerrado, mas uma estrutura ainda operante.
Por fim, trago a obra Tempo de retomada, da poeta e pesquisadora Makuxi Trudruá Dorrico, a qual amplia esse panorama ao oferecer uma perspectiva indígena contemporânea que é ao mesmo tempo estética, política e espiritual. A obra combina poesia, prosa, documentos históricos e manifesto, configurando-se como um gesto de retomada de territórios físicos, culturais e afetivos negados ao longo de séculos de colonização. Não por acaso, a obra foi escolhida como tema do Boi Caprichoso no Festival Folclórico de Parintins de 2025, sinalizando a potência cultural e política dessa narrativa no Brasil contemporâneo.
Reunidas, essas obras formam uma cartografia crítica e necessária do Brasil contemporâneo. Cada uma ilumina uma dimensão distinta, seja pela memória, colonialidade, raça ou gênero, seja pelas questões que remetem à violência de Estado, ancestralidade, exploração ambiental, controle dos corpos e desigualdade regional. Entretanto, juntas, revelam um país múltiplo, ferido e, sobretudo, resistente.
Mais do que oferecer respostas, esses livros nos devolvem perguntas urgentes: Quem tem direito à palavra? Quais histórias são legitimadas? Que vidas são consideradas narráveis? Ao percorrê-los, percebo que compreender o Brasil passa necessariamente por escutar vozes que por muito tempo foram ignoradas ou consideradas de menor importância, bem como por reconhecer que a literatura precisa ser também uma forma de disputar memória, linguagem e futuro.