Fotógrafa amazonense é única brasileira selecionada para exposição ‘Love’ em Paris

Anne Lucy levou à capital francesa uma obra que nasce de sua trajetória de quase uma década fotografando nascimentos e histórias reais de transformação humana.
Redação Amazônia Incrível
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A fotógrafa amazonense Anne Lucy, participa da exposição internacional “LOVE”, realizada no tradicional Bastille Design Center, em Paris, reunindo artistas contemporâneos de diferentes partes do mundo em uma reflexão sobre afeto, intimidade e relações humanas na sociedade contemporânea.

Única brasileira selecionada para a mostra, Anne Lucy levou à capital francesa uma obra que nasce de sua trajetória de quase uma década fotografando nascimentos e histórias reais de transformação humana. Seu trabalho integra uma exposição ao lado de nomes históricos da arte contemporânea, como Marina Abramović e Ai Weiwei.

Reconhecida internacionalmente pela fotografia de parto, ela foi a única brasileira premiada no maior prêmio mundial da categoria promovido pela IAPBP (Associação Internacional de Fotógrafos Profissionais de Parto), em 2021 e novamente em 2025. Também participou de campanhas internacionais, incluindo um projeto publicitário da UNICEF do Reino Unido.

A obra apresentada em Paris retrata um momento real de nascimento e propõe uma reflexão sobre amor, vulnerabilidade, força e transformação.

“Acredito que o meu trabalho dialoga com essa proposta porque fotografo o amor em seu estado mais cru, visceral e verdadeiro. O nascimento talvez seja um dos últimos lugares onde ainda não conseguimos performar completamente. Ali não existe personagem, filtro ou controle. Existe entrega total”, afirma a fotógrafa.

Nascida em Maraã-AM e atuando em Manaus, Anne Lucy destaca que sua origem amazônica atravessa profundamente sua forma de enxergar e construir imagens.

“Existe algo muito presente no olhar amazônico: uma relação intensa com o humano, com o sensível e com aquilo que pulsa. Crescer no Amazonas me ensinou a observar textura, silêncio, calor, profundidade e presença”, diz.

Segundo a artista, a fotografia exposta em Paris carrega uma narrativa emocional universal, capaz de conectar diferentes culturas através da experiência humana do nascimento.

“O que mais me emociona nessa fotografia é que ela não mostra apenas um parto. Ela mostra transformação. Existe uma mulher deixando de ser quem era para nascer junto com o próprio filho.”

A participação na mostra também marca um novo momento em sua trajetória artística. Embora siga profundamente conectada aos registros de nascimento, Anne Lucy afirma que deseja expandir sua produção para projetos ainda mais autorais e ligados à arte contemporânea.

“Tenho um desejo muito forte de expandir meu trabalho para além da fotografia documental de parto e explorar projetos cada vez mais humanos, artísticos e autorais.”

A fotógrafa também revelou o desejo de realizar futuramente uma exposição no Brasil com essa temática.

1. A exposição “LOVE” propõe analisar o afeto e a intimidade não apenas como emoções privadas, mas como construções da cultura contemporânea. Como a sua obra dialoga com essa proposta tão densa da curadoria?

Acredito que o meu trabalho dialoga com essa proposta porque fotografo o amor em seu estado mais cru, visceral e verdadeiro. O nascimento talvez seja um dos últimos lugares onde ainda não conseguimos performar completamente. Ali não existe personagem, filtro ou controle. Existe entrega total.

Ao longo dos anos fotografando partos, percebi que intimidade tem menos relação com a exposição do corpo e mais com vulnerabilidade emocional. É presença, pertencimento e transformação.

A obra que está em Paris nasce exatamente desse lugar. Ela fala sobre um amor que não é idealizado ou romantizado, mas vivido com intensidade física e emocional. Um amor que atravessa dor, força, medo, coragem e renascimento.

Em um tempo em que tudo parece tão acelerado e superficial, olhar para uma cena de nascimento talvez seja também um convite para lembrar o que ainda nos humaniza.

2. Você é, ao que tudo indica, a única brasileira selecionada, levando a força do Amazonas para o Bastille Design Center. O que significa para você, tanto pessoal quanto profissionalmente, ter o seu trabalho em uma mesma mostra que ícones históricos como Marina Abramović e Ai Weiwei?

É difícil colocar em palavras. Cresci em Manaus, muito distante dos grandes centros da arte mundial, então existir artisticamente em um espaço como esse já é, por si só, algo muito simbólico.

Estar ao lado de nomes como Marina Abramović e Ai Weiwei não representa apenas reconhecimento profissional. Representa validação. Representa entender que histórias nascidas na Amazônia também possuem potência universal.

Durante muito tempo, artistas da nossa região precisaram lutar para serem vistos além dos estereótipos. Então levar meu olhar para Paris é também levar comigo a sensibilidade, a força e a humanidade do Amazonas.

Pessoalmente, existe uma emoção muito grande porque essa conquista não nasceu de privilégios ou caminhos fáceis. Ela nasceu de muitos anos de trabalho, persistência, estudo e entrega emocional ao que faço.

E acho bonito perceber que justamente uma fotografia sobre amor, nascimento e humanidade tenha atravessado oceanos para chegar até ali.

3. Como se deu o processo para que a sua obra chegasse até Paris? Foi através de um convite, um edital ou uma curadoria específica que descobriu o seu trabalho?

Meu trabalho já teve visibilidade internacional através de algumas premiações importantes, como o maior prêmio mundial da fotografia de parto, considerado o Oscar da categoria, promovido pela IAPBP (Associação Internacional de Fotógrafos Profissionais de Parto), em que fui a única brasileira premiada em 2021 e também a única brasileira reconhecida na competição em 2025.

Além disso, recebi um convite da UNICEF do Reino Unido para participar de uma campanha publicitária internacional. Desde então, participei de outros projetos e campanhas fora do Brasil, e acredito que esse caminho tenha sido importante para que o curador da exposição, Danila Tkachenko, conhecesse meu trabalho e entendesse que a fotografia dialogava com a temática da mostra.

Foi um processo muito especial porque, de certa forma, valida uma linguagem artística que durante muitos anos foi vista apenas como registro documental. Para mim, sempre foi arte. Sempre foi memória, símbolo e narrativa humana.

4. A sua vivência e o seu olhar como uma fotógrafa do Amazonas influenciaram a estética ou a mensagem da obra que está lá em Paris? De que forma a sua origem transparece na sua arte?

Completamente. Eu acredito que ninguém fotografa separado da própria história.

Existe algo muito presente no olhar amazônico: uma relação intensa com o humano, com o sensível e com aquilo que pulsa. Crescer no Amazonas me ensinou a observar textura, silêncio, calor, profundidade e presença. Também me ensinou o respeito profundo pelas histórias das pessoas.

Minha fotografia nunca buscou apenas perfeição estética. Ela sempre buscou verdade emocional.

E acho que isso atravessa a obra exposta em Paris. Mesmo estando em outro continente, ela ainda carrega a temperatura emocional de onde eu vim.

5. Com essa conquista internacional validando o seu trabalho em um nível tão alto, quais são os seus próximos projetos? Há planos de trazer essa obra ou uma nova exposição para o público brasileiro em breve?

Continuarei profundamente conectada aos registros de nascimento, mas também quero mostrar cada vez mais outras narrativas que venho captando nesses quase 10 anos de carreira.

Tenho um desejo muito forte de expandir meu trabalho para além da fotografia documental de parto e explorar projetos cada vez mais autorais, humanos e artísticos.

Além disso, quero investir mais em projetos educativos, compartilhando meu olhar e minha experiência com outros fotógrafos e artistas.

E existe, sim, o desejo de realizar uma exposição com essa temática tão importante também no Brasil. Quem sabe em breve a gente consiga?

6. Qual é, especificamente, a imagem que você está expondo em Paris (o que ela retrata) e qual é a história por trás dela?

A imagem retrata um momento real de nascimento, onde amor, força e vulnerabilidade coexistem no mesmo instante. Existe por trás dela uma história de superação e mudança de planos, mas, felizmente, com um desfecho bonito e cheio de significado.

O que mais me emociona nessa fotografia é que ela não mostra apenas um parto. Ela mostra transformação. Existe uma mulher deixando de ser quem era para nascer junto com o próprio filho.

Essa fotografia carrega silêncio, intensidade e presença. E talvez seja justamente isso que faz com que pessoas de diferentes culturas se conectem com ela.

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