Quando decidi escrever meu primeiro romance, cerquei-me de leituras que pudessem me ajudar na construção das personagens que povoavam minha mente feito entes queridos, com quem pretendia manter o máximo de intimidade ao longo dos próximos anos de escrita. Recebi recomendações preciosas nas oficinas literárias que frequentei. Segui à risca a lista de autores indispensáveis, antes de começar a trabalhar no meu próprio livro.
Entretanto, à medida em que lia, atinava que a literatura é uma construção que se faz muito mais com o que está escrito nas entrelinhas do que com o que está dito explicitamente, de modo que não apenas desenvolvia a minha escrita, mas, sobretudo, transformava-me a mim mesma, comprovando que a literatura é política, pois através dela nos abrimos para a possibilidade de sair de cada leitura mais empáticos e repensando nossas certezas.
Desse modo, ao refletir sobre quem seria a protagonista da minha história, temi ser mal interpretada, uma vez que não estava disposta a escrever sobre uma mulher-mãe realizada com a maternidade, mergulhada em estereótipos. Ao contrário, pretendia revelar seus desejos mais íntimos, mais pérfidos e mesmo assim (por causa disso) admirá-la, pois, ao mostrar suas sombras, ela se tornaria ainda mais verdadeira e mais humana.
Afinal, não raro, tendemos a nos interessar apenas sobre a harmonia familiar, como se fosse algo estático, um produto pronto, rejeitando enxergar ou admitir as agruras advindas com a chegada dos filhos na vida de uma mulher. Ou seja, quase sempre, pretendemos admirar apenas a obra de arte finalizada, sem falhas que a desabonem, pouco nos importando o avesso, a desarmonia e o caos necessário para que a obra surja, aos nossos olhos, perfeita.
No entanto, mais pertinente para o momento em que vivemos, qual seja, de maior liberdade de escolha para as mulheres, inclusive quanto a se expressar sobre os seus desejos ou martírios, reconhecermos que a maternidade está longe de ser apenas a beleza bem-acabada de uma tapeçaria concluída a contento. Na verdade, penso que o momento nos convoca a desconstruir o pensamento ordinário que geralmente nos obriga a rejeitar as falas sobre os incômodos (e porque não dizer tristezas) que acometem tantas mulheres depois que se tornam mães. Dessa maneira, como não enxergar quão política pode ser a literatura?
Ora, faz-se urgente subverter o sentido do belo para alcançar a compreensão de que é no avesso, na desarmonia dos tons, no emaranhado das linhas que mora a verdadeira beleza do maternar. A maternidade é um processo sempre em construção, uma obra permanentemente inacabada, daí afirmarmos ser lugar-comum (e até tedioso) admirar apenas o que está finalizado, estático feito obra em exposição, quando o ideal é buscar os meandros, investigando o movimento e o percurso, jamais o fim, para entender que as mulheres, seres humanos que são, serão sempre rascunhos, pessoas sempre em busca do porvir. Nada mais injusto, portanto, que virar as costas para o processo doloroso da transformação e nos interessar somente pelo que aparenta ser perfeito, desdenhando a incompletude que é exatamente o que nos move a seguir adiante.
Pois bem, se cada ser humano é único, os sentimentos também são diversos e não mercadorias em série como muitos ainda querem que acreditemos. Já faz bastante tempo que escutamos ser a maternidade algo sublime e quem ousa sentir qualquer coisa que não seja positiva está errado, doente ou, mais desarrazoado ainda, não ama os filhos. Tanto é assim que apenas a partir do século XX as mulheres começaram a se sentir mais livres para escrever sobre a maternidade desmistificada, provocando os leitores a experenciar um outro jeito de ser mãe, bem mais cru, bem mais real, como foi o caso de tantas escritoras espalhadas pelo mundo, entre elas, a nigeriana Buchi Emecheta, que, em 1979, lançou o título As alegrias da maternidade, no qual faz uma crítica severa em relação às tradições conservadoras e machistas de seu país.
Não à toa, o século XXI, apoiando-se nos avanços do século anterior, possibilitou às escritoras (eu me incluo nesse rol) progredir ainda mais quanto aos incômodos trazidos pela cultura patriarcal e, por isso mesmo, a maternidade despontou como um dos assuntos prediletos na literatura feminina dos últimos anos. Depois de tanto nos silenciarem, enfim, pudemos ponderar sobre como a maternidade pode ter um sentido ambíguo pois, ao ser contemplada de longe, parece-nos causar somente alegria e completude, algo tão sublime e perfeito quanto pode sugerir uma tela de pintura. No entanto, basta se aproximar e então nos deparamos com o lado, às vezes, putrefato que os cuidados com os filhos demandam da figura materna.
Contudo, estou ciente da dificuldade e dos incômodos que uma leitura tão reveladora pode gerar. Porém, de que outra forma conseguiríamos experimentar o lugar dessas mulheres-mães que clamam por nossa escuta? De que outro modo poderíamos, por exemplo, repensar a simbologia da boneca, aquela que toda menininha ganha de presente, um objeto (à primeira vista) ingênuo, mas que representa tão bem a cultura do patriarcado na qual estamos inseridas ferozmente? Afinal, uma menina que se preze, desde cedo, carrega para lá e para cá uma boneca, uma responsabilidade materna que é entregue como um presente, sem que se dê conta do fardo que é a maternidade. Desde muito pequenas, as mulheres aprendem a embalar, a acolher, a cuidar de sua boneca e, por isso, “naturalmente” despertam para a maternidade. Um desejo que “aflorará” na vida adulta.
Ou seja, a menina, ao adentrar na adolescência, momento em que, provavelmente, descobrirá a paixão, abandonará a boneca, mas esta já terá cumprido seu papel de preparar a recém-mulher para o futuro que a aguarda ansioso, isto é, o casamento e a maternidade. Possivelmente, essa jovem nunca saberá se este caminho foi escolhido por si mesma ou se foi levada até ele pelos anos em que, sutilmente, foi convencida de que esse é o futuro certo para uma boa menina.
Além do que se refere à escolha pela maternidade, não menos importante são as ficções que apontam o quanto o ritmo das conquistas profissionais da mulher decresce, depois da chegada dos filhos. Esse fato também interfere demasiadamente na relação conjugal, pois, enquanto a mulher estaciona no tempo e no espaço para cuidar das crianças, o companheiro continua sua jornada profissional, alterando em quase nada a sua rotina. Sem dúvida, tal desequilíbrio causa a desarmonia do casal. Não raro, a mulher se sente menor e excluída das conversas adultas, durante a primeira infância dos filhos, por passar a maior parte de seu tempo dedicada aos cuidados da casa e das crianças, sem intervalo que permita se dedicar a outros assuntos. Então, ao retornar ao mercado de trabalho, está desatualizada, precisando se multiplicar em várias para dar conta dos afazeres domésticos e ainda retomar o ritmo profissional do qual se afastou, às vezes, por anos.
Eu mesma, ao me deparar com leituras que traziam personagens devastadas pela maternidade ou pela simples condição de ser mulher numa sociedade patriarcalizada, passei a repensar os meus desejos, as minhas escolhas, o meu casamento e, claro, a minha maternagem. Por causa da literatura, outras aspirações passaram a me habitar. Era impossível continuar a mesma depois de tudo o que tantas boas leituras haviam me provocado. Então, como admitir que a literatura não é política, se através dela revi minha construção enquanto mulher, fruto de um discurso machista, o qual já não fazia sentido para mim e do qual ansiava não apenas livrar a mim mesma, mas livrar a todas as mulheres ao meu redor e, se possível, além.
Diante dessa epifania, tal qual a personagem clássica de Clarice Lispector, abracei a causa da necessidade de escrever o que por tempo demais calamos e escondemos, resvalando numa eterna busca de representar o real, de modo que quem me leia não seja apenas atravessado pela leitura e, sim, sacudido, a tal ponto de se tornar também um(a) agente transformador(a), e, portanto, político.