O que a Amazônia pode aprender com o Museu da Gente Sergipana

O museu mostra que cultura não precisa ficar presa numa vitrine. Ela pode ser divertida, interativa e fazer a gente sentir orgulho de quem é.
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Viajar sempre muda alguma coisa na gente. Mas algumas viagens fazem mais do que isso: elas nos mostram novas formas de contar quem somos.

Em junho, durante minhas férias em Aracaju, visitei o Museu da Gente Sergipana Gov. Marcelo Déda. Eu já sabia que encontraria um museu sobre a cultura do estado, mas não imaginava sair de lá pensando tanto na Amazônia.

Inaugurado em 2011, o espaço foi o primeiro museu multimídia interativo das regiões Norte e Nordeste. Logo na chegada, um documentário apresenta as festas populares sergipanas e nos convida a entender que a identidade de um povo não está apenas nos livros, mas também nas ruas, na música, nas celebrações e na memória coletiva.

Enquanto assistia às imagens do carnaval e das festas juninas, pensei em como cada estado brasileiro encontra um jeito próprio de preservar suas tradições. Sergipe faz isso com orgulho. Nós, amazônidas, também temos muito do que nos orgulhar.

O museu é daqueles lugares onde quase tudo convida o visitante a participar. Entramos em um barco que simula um passeio pelo Rio Sergipe e pelo manguezal. A experiência é tão envolvente que saímos um pouco tontas — e rindo da dificuldade para “desembarcar”. É exatamente esse tipo de interação que faz o visitante deixar de ser espectador para viver a história.

Mas quem realmente aproveitou cada detalhe foi a Bianca.

Eu já conhecia exposições de teatro de bonecos, mas a mostra Mamulengo de Cheiroso ganhou outro significado ao vê-la pelos olhos de uma criança. Existe uma magia muito particular quando um boneco começa a contar histórias. Para quem ainda tem a imaginação sem limites, como ela, aquilo deixa de ser exposição e vira realidade.

Vídeo no instagram: @shacomunica

Outro momento que me emocionou foi observar Bianca completamente concentrada nas histórias narradas por personagens sergipanos com o auxílio da inteligência artificial. Tecnologia e tradição caminharam juntas sem que uma anulasse a outra. Pelo contrário: a inovação aproximava ainda mais as crianças do patrimônio cultural.

A biblioteca do museu também merece uma visita demorada. Entre clássicos da literatura, encontrei livros sobre o cangaço, Lampião, o folclore, a música e momentos importantes da história política sergipana. Foi ali que descobri a origem do título de “País do Forró”, expressão popularizada pela canção “Sergipe é o País do Forró”, lançada em 1989 pelo compositor Rogério e que ajudou a projetar a cultura sergipana para todo o Brasil.

Infelizmente, durante nossa visita, o Largo da Gente Sergipana estava em manutenção. O espaço reúne esculturas inspiradas nos personagens do folclore local e certamente ficará para a próxima viagem.

O museu ainda oferece estacionamento rotativo, loja de souvenirs, entrada gratuita, banheiros impecavelmente limpos e água disponível para os visitantes. Parece detalhe, mas também é cultura receber bem quem deseja conhecer a história de um povo.

Saí de Aracaju pensando que museus não deveriam ser apenas lugares onde guardamos o passado. Eles precisam despertar pertencimento, provocar curiosidade e fazer crianças e adultos saírem com vontade de conhecer mais sobre sua própria identidade.

Talvez tenha sido essa a maior lição que trouxe de Sergipe.

Quando um estado investe em contar sua própria história de forma acessível, interativa e emocionante, ele não preserva apenas a memória. Ele fortalece a autoestima do seu povo.

E eu confesso: enquanto caminhava pelos corredores daquele museu, não consegui parar de imaginar quantas histórias da Amazônia ainda esperam ser contadas com a mesma sensibilidade. Talvez seja esse o maior encanto da cultura. Ela nos faz viajar para conhecer o outro e voltar para casa enxergando melhor quem nós somos.

Vídeo no instagram: @shacomunica

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