Dias atrás, num daqueles momentos inimagináveis, porém inevitáveis, da vida, meu pai disse algumas palavras que encontraram o seu lugar de plantio dentro de mim do mesmo modo que as sementes carregadas pelo vento encontram o seu lugar para criar raízes e florescer.
Papai disse que nossa árvore genealógica está ficando sem folhas.
Dentro da igreja, algumas pessoas choravam baixinho, outras oravam e pediam sabedoria e consolo; pouquíssimas questionavam. Lá fora, a chuva caía em cântaros, e a água formava pequenos córregos pela rua, aumentando as poças no asfalto esburacado.
Abracei meu pai e lembrei das palavras ditas por minhas avós, Maria e Nozinha: em dia de enterro, quando chove, é porque a alma está sendo bem recebida no céu.
Alguns podem alegar que não exista comprovação científica para uma afirmação dessas, mas quem se importa com isso quando a tristeza pela partida de alguém que amamos nos encara de dentro de um caixão?
Da minha parte, sempre preferi optar pela fé e acreditar que as pessoas que amei, e que ainda amo, que já fizeram a sua passagem — assim como o meu querido primo — foram muito bem recebidas e agora estão muito melhor do que muitos de nós aqui na Terra.
Embora seja algo esperado, a morte não é algo que aguardamos como a visita de um amigo querido ou uma feliz e grata surpresa. Sabemos que ela acontecerá em algum momento; afinal, não viraremos pedra. Lemos conselhos motivacionais sobre isso nos livros, em placas de caminhões, almofadas, camisetas e quadros de consultórios médicos; assistimos a isso nos filmes, cantamos nas músicas e ouvimos nos cultos e reuniões das religiões que professamos. Também escutamos sobre ela nas conversas e a vivenciamos no dia a dia.
A morte é comum. Inevitável desde o cerne. Mas, para nós, meros e passageiros mortais, a ideia da finitude nunca parece agradável.
Pensar que seremos esquecidos, que deixaremos de fazer as coisas de que tanto gostamos, que não conheceremos todos os lugares que desejaríamos conhecer, que não realizaremos alguns sonhos e que, talvez, não consigamos encontrar a nossa outra metade — fora ou dentro de nós mesmos… a mim isso parece mais uma anomalia do que o curso natural da vida.
Mas é o que é.
O fim é inadiável; no entanto, jamais será pleno para todos.
Olhando para o corpo inerte e frio do meu primo, não pensei no que ser perecível representa para o ser humano, nem no porquê de a nossa partida ser algo que não podemos prever ou adiar. Eu apenas chorei.
Chorei porque a morte não é tão democrática quanto dizem.
Sim, ela chegará para todos. Contudo, nem todos estarão plenos, nem todos estarão livres de preocupações e em paz com o momento.
De novo: é o que é. E, como quase todos os presentes naquela solenidade, não contive o choro — não somente porque chorar libera endorfina, ocitocina e diminui o cortisol, trazendo-nos equilíbrio emocional, mas porque chorar equilibra a alma, coloca para fora a frustração, a dor e, em certa medida, dá a sensação de: “ok, eu entendi”.
Às vezes, gosto de olhar para o nada e tentar ouvir o meu silêncio, mesmo que isso seja quase impossível na cidade em que vivemos. Parece que, quando consigo, o entendimento de que, para quem tem fé, a vida nunca tem fim — como diria O Rappa — me acalanta.
Meu primo tinha quarenta anos quando foi encontrar o Criador.
Escrever essa idade ainda me causa estranheza, não apenas porque quarenta anos também é a minha idade, mas porque quarenta anos não parecem suficientes para alguém atravessar a fronteira entre estar aqui e deixar de estar.
Se para muitos existe algo de injusto nas mortes, aquelas que nos parecem precoces são como uma desordem que não conseguimos organizar.
Talvez porque abalem as estruturas da fantasia silenciosa que gostamos de alimentar: a de que ainda temos muito tempo.
Como diria Salomão, “nada é novo debaixo do sol”… nem mesmo a morte.
Enquanto alguns gastam milhões em busca da fonte da juventude eterna, tento apenas lidar com o fato de que nem todo fim será pleno e pacífico, mas que não há o que se possa fazer contra isso.
Fé é a palavra e o sentimento-chave desta reflexão.
Com minha família aprendi que ter esperança e seguir com fé, mesmo quando o chão cede sob os nossos pés e as coisas estão desgovernadas e fora de controle, é o que nos sustenta; com o meu primo, reafirmei essa convicção, mesmo diante dos questionamentos que surgiram em meu coração.
É andar com fé, porque, como diria Gilberto Gil, “a fé não costuma falhar”.
É combater o bom combate e encerrar a carreira guardando a fé, como ensinou o apóstolo Paulo de Tarso.
E, nesse meio-tempo, entre nascimento e finitude, no que começa e termina com cada um de nós como protagonistas da própria história, que possamos viver ao máximo para não alimentarmos arrependimentos e para que, ao voltarmos para o Criador, tudo o mais seja desprendimento.
Obrigada, vovós Nozinha e Maria, vovô Del, tia Fran, tio Eliezer, tio Elizeu, Erick e tantos outros que passaram por esta Terra e que já voltaram ao centro do universo.
A você, que leu até aqui, espero que chova muito no dia do seu epílogo e que, passada a chuva, o arco-íris brilhe intensamente para aqueles que permanecerem após a sua partida.
Leila Plácido