Na última semana, um vídeo que circulou nas redes sociais gerou forte indignação entre os amazonenses. Nas imagens, jovens fazem comentários considerados preconceituosos sobre a culinária local. A repercussão aumentou pelo fato de o episódio ter ocorrido na presença de uma pré-candidata ao Governo do Amazonas que, no momento das declarações, não se manifestou em defesa da cultura e do povo do estado.
Por isso, o Amazônia Incrível conversou com o Sérgio Freire, professor doutor em Linguística pela Unicamp e autor de nove livros, inclusive um dos mais vendidos em livrarias: ‘Amazonês: Termos e Expressões usados no Amazonas’, para explicar de onde surgiram os nomes de famosos pratos da Amazônia.

Em entrevista ao portal, o professor ressaltou que a culinária do Amazonas carrega história, ancestralidade e forte influência indígena. Termos e pratos tradicionais fazem parte da identidade cultural da região Norte e merecem respeito, não deboche.
Os nomes do que se come na Amazônia não foram inventados: foram observados. O tupi e seu herdeiro amazônico, o nheengatu, nomearam os alimentos e os pratos a partir do que era visível, palpável, imediato.
O que isso significa?
Tacacá, do tupi-guarani, significa “goma” ou “mucilagem”, referência direta à textura da goma de tapioca que é base do prato. Tucupi também do tupi tiku’pir, significando o caldo extraído da mandioca-brava. É a junção de ty (água) e kupy (que escorre). Pirarucu vem da composição pira (peixe) + urucum (vermelho), referência direta à coloração avermelhada intensa da cauda e das escamas do animal, uma das maiores espécies de peixe de água doce do mundo. O mesmo morfema pira aparece em piranha (peixe + dente), piraíba, pirarara, entre muitos outros nomes de peixes amazônicos.

Ainda de acordo com Sérgio Freire, essa lógica descritiva, que os linguistas chamam de motivação icônica, sobreviveu à colonização, à proibição pombalina do uso do nheengatu em 1758 e à chegada do português como língua oficial. Sobreviveu porque estava encarnada nas cuias, nos caldos, nas feiras. Quando se diz que a culinária amazônica guarda memória indígena, o argumento mais concreto não está nos ingredientes: está nas palavras. Cada nome é um recorte de percepção, uma forma de ver o mundo que passou pelo fogo e pelo tucupi e chegou até nós intacta.
“Há quem ouça tacacá ou pirarucu e ria. O riso, nesses casos, não tem muito o que revelar sobre a língua tupi, mas revela bastante sobre quem ri. Debater a estranheza de uma palavra indígena como se isso fosse um defeito é confundir o familiar com o correto, o conhecido com o legítimo. Quem cresceu ouvindo croissant raramente questiona a seriedade dessa denominação. O critério, portanto, não é linguístico: é social. O deboche revela uma hierarquia silenciosa, em que certas línguas merecem prestígio e outras merecem piada, sem que ninguém precise explicar por quê.”, ressalta o doutor em Linguística.
Sérgio ainda informa que o tupi nomeou rios, cidades, animais e pratos com uma precisão que o português colonial não tinha condições de oferecer, porque eram realidades que o português simplesmente não conhecia.
“Rir do tucupi é rir de uma solução para um problema que o debochador nem sabia que existia.”, finalizou o professor.