Eram distribuídos em longas e intermináveis filas. Mas, em dado momento, as diferentes filas aos poucos iam convergindo para uma só. A partir dali, a fila única desembocava numa esteira que os conduzia à porta assustadora do crematório. Alguns livros se mostravam apáticos, como se encarassem a morte como inevitável. Outros, pareciam ter sido acometidos por um misto de indiferente ingenuidade, como se não fizessem a mínima ideia do que estava por acontecer. Outros, ainda, agiam com desespero, como se pressentissem por antecipação o bafo ameaçador da fornalha devorando sua existência. Alguns outros reagiam com indignação e protesto, como se estivessem prontos para resistir até ao derradeiro momento. Ou à derradeira página.
A cena era mesmo de cruel martírio. As chamas, sedentas e vorazes, lambiam a porta de entrada do crematório, como a apressar a recepção de suas vítimas. Alguns personagens tentavam a todo custo se desvencilhar das páginas dos livros e saltar para a vida, na esperança de serem poupados. Mas qualquer esforço se mostrava inútil. Afinal, personagens são a própria existência dos livros. E os livros existem em função deles. Para eles são escritos. São o avesso da mesma moeda.
Nada podendo fazer diante da supremacia da barbárie, restava a alguns personagens exortar, em seus derradeiros suspiros, princípios, apelos e sonhos que marcaram sua existência nas páginas do livro que lhe tinha dado vida.
Marcel, por exemplo, personagem de “Em busca do tempo perdido”, de Proust, deu um salto momentâneo das páginas do livro. Olhou para um lado e outro com expressão de pavor. As chamas já lambiam a lombada do livro. Evocou, então, uma de suas mais gratas lembranças. O momento em que o bolinho francês em forma de concha, a madeleine, desencadeou em sua memória as mais doces recordações. E berrou a plenos pulmões, enquanto sumia nas labaredas:
“E assim que reconheci o gosto do pedaço de madeleine mergulhado no chá que minha tia me dava, a velha casa cinzenta, a rua, a cidade e os jardins, tudo aquilo que estava tomando forma e se destacando, surgiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá.”
Enquanto isso, a poucos metros da entrada do crematório, Riobaldo se pendurou na contracapa de “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, percorreu com o olhar atravessado de coragem a longa fila atrás de si e falou, de forma bem cadenciada, sua frase mais oportuna para aquele momento:
“Viver é muito perigoso”.
Não satisfeito, Riobaldo se manteve de costas para a porta do crematório, indiferente à sua tragédia, enquanto a esteira o arrastava para o inferno. Ergueu o olhar e os braços em direção aos céus e ainda teve tempo de acrescentar, como forma de despedida, talvez sua mais cara evocação sobre a existência humana:
“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.”
Um pouco mais atrás na esteira, quase coberto pelo desespero dos outros livros, era possível visualizar um exemplar meio surrado de “O processo”, de Franz Kafka. Apoiado com a mão direita sobre a capa do livro e com os pés levemente cruzados, Josef K. mantinha o semblante congelado no infinito. Mas era perceptível depreender daquele estado catatônico sua profunda indignação contra o estado de quase loucura a que estava sendo conduzido, o que se confirmou com o movimento quase imperceptível de seus lábios balbuciando:
“Como pode um homem ser culpado se não sabe sequer do que é acusado?”
Em situação de tamanha indiferença, contrastando com a aflição dos vizinhos, parecia estar Brás Cubas. Sentado com braços e pernas cruzados, apoiando as costas na lombada do livro de capa dura na cor verde, era o retrato da tranquilidade. Pudera! Como se sabe, em “Memórias póstumas de Brás Cubas” Machado de Assis criou um personagem-defunto. Justamente Brás Cubas, que, prudentemente, esperou morrer para contar todos os lances de sua passagem pela vida. Com a garantia de que, seja lá o que fosse contar, não precisava ter preocupação com as convenções sociais nem com a moralidade dos vivos.
Pois foi então que Brás Cubas, alheio a qualquer autocensura e indiferente ao desespero dos personagens de outros livros que o rodeavam, bradou a plenos pulmões, como quem fala para uma multidão e quer ser escutado sobre seu pessimismo com a Humanidade:
“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
E logo depois de uma breve pausa, aproveitou o curto silêncio de surpresa de sua plateia para mais uma investida. Formatou no rosto uma expressão de ironia, beirando o deboche, e lembrou a tragédia de seu namoro marcado pelo interesse financeiro de sua amada:
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”.
Em meio ao conflito de vozes, gritos, falas desencontradas e muito desespero com o ritmo da esteira, que parecia ter acelerado rumo à entrada da fornalha, era possível distinguir um Steinbeck. Isso mesmo! Dava a impressão de ser uma edição bem antiga. Daquelas que um alfarrabista, ciente de seu valor histórico, preserva com maior zelo e carinho. Lá estava “As vinhas da ira”. Suas páginas mostravam-se amareladas, frágeis e escancaradas. Algumas páginas desfraldavam ao vento e pareciam torcer para se libertar do livro. De certo teriam outro fim, mas pelo menos poderiam se livrar do iminente encontro trágico com as chamas da morte, ganhando alguma sobrevida.
De repente, pressionada pelas correntes de vento que sopravam sobre a esteira, uma das páginas se solta. Só que, ao invés de ser arrastada para longe, como era de se esperar, curiosamente fica orbitando um pouco acima do livro. Justo nesse momento, deitado de bruços sobre a página solta e com as mãos presas a uma de suas extremidades, surge a figura de Tom Joad, protagonista de “As vinhas da ira”.
Destemido e alheio aos seus próprios interesses, Joad evoca a figura de sua mãe. Em tom claro de despedida, seu olhar firme dá uma panorâmica sobre o cenário dantesco que se descortina abaixo. Sua testa fica levemente franzida. Seus lábios se contraem em indignação. Sua voz ecoa sobre os milhares de livros e personagens aflitos. E assume, então, seu protagonismo revolucionário de luta coletiva:
“Onde quer que haja uma luta para que os famintos possam comer, estarei lá!”
Era possível visualizar, também, a capa e a sobrecapa de “1984”, de George Orwell, esparramadas no chão, pouco antes da esteira. Tudo levava a crer tratar-se de uma dessas edições de colecionador. Mas de tão antiga, a lombada estava fora do lugar, o que permitia ver as pontas de linha da costura penduradas e os fascículos soltos e desordenados. Esse estado deplorável, entretanto, não impede que se ouça, vindo de uma das páginas de um dos fascículos soltos, uma voz cavernosa e ameaçadora:
“O Grande Irmão está de olho em você!”
E, logo em seguida, equilibrando-se entre os fascículos desgrenhados, ouve-se a voz perturbadora de O’Brien dirigindo-se a Winston Smith com toda a brutalidade autoritária que a frase representa:
“Se queres uma imagem do futuro, imagina uma bota esmagando um rosto humano — para sempre”.
Num dado momento, a imensa fila da morte parecia encurtar. Pura ilusão. Outra remessa de livros que já tinham passado pelo processo de digitalização, para alimentar a fome insaciável da Inteligência Artificial, logo engrossava novamente a fila e se somava ao desespero dos outros que lá já estavam.
Enquanto isso, flagrou-se uma conversa entre dois livros anônimos que já tinham perdido suas capas na confusão. Um deles, com os olhos esbugalhados perdidos no infinito do tempo, disse que não conseguia entender o extremo daquela crueldade com a vida de tantos livros que tanto já tinham contribuído com o processo civilizatório da Humanidade.
O outro livro anônimo, com voz embargada e pingos de lágrimas afundando em suas páginas, respondeu depois de um longo silêncio. A ordem é apagar nossa presença no mundo. Mais que isso: é, de forma desonesta, cruel e descarada transferir a sabedoria humana para a Inteligência Artificial sem deixar rastros da História da presença humana. E o mais trágico: é o próprio ser humano trair a si próprio e entregar de bandeja para a máquina a sabedoria que levou milênios para construir e acumular com o sacrifício de tantas vidas.
Mais à frente, viam-se livros dando seu último suspiro antes de serem jogados para o interior do crematório. As línguas de fogo pareciam festejar. À medida que mais e mais vítimas eram tragadas para alimentar sua fome insaciável, esticavam seus tentáculos incandescentes para além da porta do crematório, numa recepção macabra moldurada pelo terror. A cena era dantesca.
(*) Este conto é baseado em fatos reais. Cenas e personagens foram adaptados para atender aos propósitos dramáticos da narrativa.