O município de Coari, no interior do Amazonas, recebeu a abertura da quarta edição do projeto Amazônia das Palavras. A programação começou com oficinas literárias, atividades culturais gratuitas e debates sobre identidade amazônica na Escola Estadual Prefeito Alexandre Montoril.
As ações seguem até o dia 18 de maio e passarão por outros seis municípios amazonenses, envolvendo estudantes e educadores da rede pública.

Com aproximadamente 70 mil habitantes, Coari ocupa posição estratégica na economia do estado, principalmente pela exploração de petróleo e gás em Urucu, além das atividades comerciais e agrícolas. Foi nesse cenário que o projeto iniciou sua trajetória pelo Médio Solimões.
Durante o primeiro dia de atividades, os estudantes participaram de oficinas de produção textual, slam, música, cinema, moda e animação. Entre os destaques esteve a oficina de Nheengatu, língua indígena da família Tupi-Guarani, que incentivou debates sobre ancestralidade, memória e pertencimento cultural.
Oficina de Nheengatu reforça identidade amazônica
Conhecido como “língua boa”, a partir dos termos nhee (fala) e gatu (boa ou bela), o Nheengatu foi, durante séculos, uma das principais formas de comunicação na Amazônia e ainda influencia expressões presentes no português falado na região.
Durante a oficina, os alunos aprenderam expressões como awá taá īdé? (quem é você), mãã taá ne rera? (qual é teu nome), ikatú reté (tudo bem), té kurí (tchau), çerá? (tem certeza?) e açaiçú īdé (eu te amo).
A atividade foi ministrada por Yaguarê Yamã, escritor, professor, geógrafo, artista plástico e líder indígena do povo Maraguá. Integrante da Academia Parintinense de Letras e da Academia da Língua Nheengatu, ele possui mais de 40 livros publicados e reconhecimento em seleções nacionais e internacionais.
Segundo o autor, levar o tema para dentro das escolas aproxima os jovens das próprias origens.
“Não é só a capital que está distante dessa identidade. Em tempos modernos, com a influência da internet, os próprios lugares da Amazônia estão se afastando da sua própria cultura. A língua geral da Amazônia, que já foi a mais importante da região, está sendo esquecida”, afirmou.
De acordo com ele, a proposta da oficina vai além do aprendizado da língua e busca despertar reflexões sobre território, história e ancestralidade.
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Estudantes relatam identificação com cultura regional
Entre os estudantes, a experiência despertou curiosidade e identificação com a cultura amazônica.
A estudante Ludmila Melo, de 15 anos, destacou a importância da atividade. “Ter a oportunidade de estudar uma língua da nossa própria região é muito importante. Foi como descobrir de onde a gente veio”, relatou.
Glenda da Silva, também de 15 anos, afirmou que o contato com o Nheengatu despertou interesse em aprofundar o conhecimento sobre a cultura amazônica.
“É muito legal rever o nosso passado. Dá vontade de aprender mais, porque existe muita coisa que a gente ainda não conhece”, disse.
Para a diretora da escola, Teresa Cristina Gama dos Santos, iniciativas como o Amazônia das Palavras ampliam o repertório cultural dos estudantes e incentivam o interesse pela leitura e pela valorização da cultura regional.
Projeto seguirá por municípios do Amazonas
Além das oficinas realizadas ao longo do dia, o projeto também promove atividades culturais gratuitas abertas ao público em cada cidade visitada.
Em Coari, a programação incluiu a exibição do documentário da terceira edição do projeto, homenagem à escritora Maria Firmina dos Reis, doação de livros para a biblioteca escolar acompanhada da entrega do certificado “Escola Amiga da Leitura” e o espetáculo circense Silêncio Total Vem Chegando um Palhaço, estrelado por Luiz Carlos Vasconcelos.
Depois de Coari, o Amazônia das Palavras seguirá para os municípios de Codajás, Anori, Anamã, Manacapuru, Iranduba e Manaus, mantendo a proposta de unir formação educacional e atividades artísticas em diferentes regiões do Amazonas.
Serviço
Projeto: Amazônia das Palavras – 4ª edição
Período: até 18 de maio
Cidade de estreia: Coari
Próximos municípios: Codajás, Anori, Anamã, Manacapuru, Iranduba e Manaus
Público-alvo: estudantes, educadores e comunidade local
Atividades: oficinas literárias, debates culturais, apresentações artísticas e doação de livros
Promoção: Fundação Rede Amazônica
Patrocínio: TAG
Apoio: Cigás
Realização: Associação Mapinguari, Ministério da Cultura e Governo Federal