O cinema de Roraima se destacou na Índia. O curta-metragem ‘Fuga’, dirigido por Aldenor Pimentel, conquistou dois prêmios em festivais no país asiático. No 10th Cinema Father International Film Festival, a obra levou o prêmio de Melhor Curta-Metragem de Estudante. Já no 15th Bangalore Shorts Film Festival, recebeu uma Menção Honrosa.
Essa é uma conquista histórica: é a primeira vez que uma produção roraimense é premiada no Cinema Father. Além disso, marca a segunda vitória do estado no festival de Bangalore, onde o diretor já havia recebido outra Menção Honrosa em 2022, na categoria Animação, pelo filme ‘A inacreditável história do milho gigante’ (Platô Filmes).
O Amazônia Incrível conversou com o cineasta e escritor roraimense que cada vez mais se destaca no mercado audiovisual, participando de festivais e levando prêmios por onde passa. Confira na íntegra a entrevista:
Sendo tanto cineasta quanto escritor, como a sua experiência na literatura influencia a maneira como você constrói a narrativa e desenvolve os personagens nos seus roteiros, especialmente em um projeto premiado como “Fuga”?
É difícil dizer se é a minha experiência literária que influencia a maneira como eu construo a minha narrativa cinematográfica ou o contrário. Só sei dizer que, tanto na literatura quanto no cinema, eu conto histórias por meio de imagens, seja pela ilusão de movimento (cinema), seja pelas imagens criadas por palavras na mente do leitor (literatura). “Fuga” é um filme sem diálogos, em que a história é contada pela sequência de imagens, sons e silêncios, e em que o espectador é convidado a construir junto essa história, a partir do seu repertório cultural. Por isso, tão importante quanto o que se ouve e se vê na tela é o que se deixa de dizer e mostrar, é a entrelinha, o subentendido, o sugerido.
Quais foram os maiores desafios na realização de “Fuga” e como a superação desses obstáculos contribuiu para o sucesso que o filme vem alcançando agora nos festivais?
“Fuga” teve limitações técnicas e burocráticas: por exemplo, não pudemos usar todas as lentes que planejamos e recebemos recomendação governamental para não realizar a cena mais importante do filme como previmos inicialmente. Como resolvemos? Com criatividade e sensibilidade. Nem todas as cenas do filme são tecnicamente impecáveis. Mas trabalhamos para que cada uma delas tocasse o público de um jeito especial. Pelo visto, conseguimos. Ao menos, é o que os prêmios nos festivais de cinema têm indicado.
Aldenor, a nossa região transborda talento e histórias únicas, mas a barreira geográfica e comercial ainda é uma realidade. Como você enxerga o cenário atual da literatura produzida por escritores amazônicos e, na sua visão, você ainda acredita que, autores da Amazônia, continuam invisíveis aos olhos das grandes editoras do eixo Rio-São Paulo? O que precisa mudar para que esse ecossistema seja mais justo?
Essa invisibilização da literatura amazônica no Brasil é um processo histórico que temos superado um pouco a cada dia. Alguns escritores contemporâneos se destacam Brasil e mundo afora. Daniel Munduruku, Cristino Wapichana e Milton Hatoum são alguns exemplos, entre tantos outros, em maior ou menor grau. Precisamos de políticas públicas para a formação de público leitor, que veja a literatura da região como um elemento relevante na formação da cultura brasileira, de que modo essa economia criativa seja autosustentável e continue a garantir o pão de cada dia de tantas famílias nos lugares mais distantes desse país.
Sobre ‘Fuga’
Sobre Aldenor Pimentel
Natural de Boa Vista (RR), Aldenor Pimentel é jornalista, escritor, cineasta, dramaturgo, pesquisador, militante, gestor e produtor cultural. É autor de cerca de dez livros literários para crianças, adolescentes e adultos. Recebeu mais de 70 prêmios em concursos literários nacionais e internacionais. O livro infantojuvenil “O jogo da democracia” compôs o conteúdo programático do Vestibular da Universidade Federal de Roraima (UFRR) 2024 e 2025. Sua produção literária tem sido objeto de pesquisas acadêmicas em Roraima e outros Estados. Em 2024, foi eleito para a Academia Roraimense de Letras. É gestor do Espaço de Leitura Aldenor Pimentel, em Boa Vista, que recebeu o Prêmio Pontos de Leitura 2023, do Ministério da Cultura. Sua publicação mais recente é o livro infantil “Sorriso de Cristal”.
No audiovisual, de 2006 até hoje, atuou como diretor, roteirista e produtor de cerca de 20 filmes ficcionais, documentais e de animação. Tem produções selecionadas para exibição e premiadas em festivais de cinema nacionais e internacionais e veiculadas em rede nacional de TV e plataformas de streaming. Seu filme de maior sucesso é a animação “A inacreditável história do milho gigante”, selecionada para exibição em mais de 30 festivais de cinema e vencedora de sete prêmios nacionais e internacionais, além de ter entrado de 2023 em diante para o catálogo de plataformas de streaming brasileiras. Sua produção cinematográfica mais recente é o filme de ficção “Fuga”, selecionado até agora para exibição em oito festivais de cinema dos Estados Unidos, Brasil, Inglaterra e Índia, onde recebeu dois prêmios.