Antes dos grandes murais, dos eventos e das viagens por diferentes estados e países, havia apenas um menino que gostava de desenhar. Edeuto Matias de Souza Regino, conhecido artisticamente como Matias Artes, começou a demonstrar interesse pelo desenho ainda na infância, reproduzindo figurinhas de chiclete e imagens que chamavam sua atenção.
Foi uma professora, ainda no período em que vivia em Brasília, quem percebeu que aquele gosto poderia ser mais do que uma brincadeira. Ela chamou a atenção da família para a habilidade do menino e, principalmente, de sua mãe, que passou a incentivá-lo e investir no desenvolvimento daquele talento.
Anos depois, já no Acre, Matias encontrou no desenho e no grafite uma possibilidade de profissão e passou a estudar por conta própria. É assim que define grande parte de sua formação: autodidata, construída entre a prática, a observação e a busca constante por aperfeiçoamento.

Arte na lataria
Uma das primeiras experiências que misturou desenho e ousadia aconteceu ainda na infância, em uma superfície pouco convencional: a lateral do carro do pai. A reação inicial não foi positiva. Depois, porém, veio um novo pedido: que ele pintasse também o outro lado do veículo.
Anos mais tarde, no Acre, outra pintura em um carro ajudaria a abrir espaço para seu trabalho.
Matias chegou ao estado em 2000, quando, segundo conta, havia poucas oportunidades para quem trabalhava profissionalmente com desenho e grafite. Foi nesse período que conheceu Eri, então proprietário de uma loja de videogames.
Eri pediu que Matias pintasse seu Gol. O artista ainda não tinha equipamentos nem tintas para realizar o trabalho. O próprio cliente comprou os materiais necessários. O carro foi pintado dos dois lados e passou a circular pela cidade.
“Era uma novidade no estado do Acre. Foi quando abriu literalmente grandes portas e grandes oportunidades para mim”, conta.
A partir dali, o que começou na infância passou a ocupar cada vez mais espaço na vida profissional do artista. Em 26 anos de atuação, Matias realizou trabalhos em diferentes estados brasileiros e também passou por países como Bolívia, Peru, Equador, Chile, Portugal, Espanha e França.
Algumas viagens aconteceram a convite para encontros de grafite. Em outras situações, os trabalhos surgiram durante viagens pessoais, quando novas oportunidades apareceram.
O grafite como linguagem
Hoje, o grafite é sua principal vertente de estudo e produção. As letras comerciais, tradicionais nos trabalhos de pintores letristas, também fazem parte de sua atuação, mas em menor escala.
Quando solicitado, Matias realiza esse tipo de serviço, mas prefere concentrar sua produção em desenhos, personagens, ilustrações e grandes composições. Muros, fachadas de lojas, eventos e inaugurações de estabelecimentos estão entre os trabalhos mais frequentes.
A produção também alcançou empresas e instituições. Entre os trabalhos citados pelo artista no Acre estão projetos para Libi, Fricarnes, SESI, SENAI, Governo do Estado e Prefeitura de Rio Branco, além de marcas como Monster e Hamburgueria Jerônimo e projetos em locais como a Garagem 68, em Balneário Camboriú.
Mas, entre tantos trabalhos, alguns ultrapassaram a dimensão comercial e se transformaram em experiências pessoais marcantes.
Um deles foi realizado no Pronto-Socorro de Rio Branco durante a pandemia de Covid-19. O mural foi criado como homenagem aos profissionais da saúde que trabalhavam na linha de frente. A parede tinha aproximadamente 30 metros de altura e entre 10 e 15 metros de largura.

Para realizar a pintura, Matias contou com dois assistentes e precisou lidar com a falta de equipamentos adequados para uma estrutura daquela dimensão.
Mas o que permaneceu forte na memória não foi apenas o tamanho do mural. Durante os dias de trabalho, a equipe costumava tomar café da manhã próxima à pintura e conversar com um homem que acompanhava a produção. Algum tempo depois, ele morreu em decorrência da Covid-19.
A convivência fez com que o trabalho ganhasse outro significado. A experiência reforçou uma ideia que já fazia parte da forma como Matias enxerga sua produção: uma pintura não deve apenas preencher uma parede.
“Eu não faço, não apresento qualquer coisa somente para ficar bonito aos olhos, mas que tenha propósito, que tenha sentimento, que tenha reflexão.”
Essa preocupação também aparece em outro trabalho, feito como homenagem a um soldado do Corpo de Bombeiros que morreu em combate.
Durante a produção, Matias teve contato com familiares e colegas do militar. A reação das pessoas diante da pintura se tornou um dos momentos mais marcantes de sua carreira.
“Os familiares olhando e contemplando a arte e, ao mesmo tempo, valorizando e eternizando o soldado que veio a óbito em combate”, relata.

A arte que provoca reflexão
Fora das encomendas, o artista também mantém uma produção autoral. Entre os elementos que aparecem em suas obras estão os pássaros, presentes em sua produção desde a infância.
Em uma dessas pinturas, as aves aparecem com correntes presas aos pés e uma gaiola ao fundo. Algumas das correntes estão rompidas.
A imagem representa o que Matias chama de “falsa liberdade”: situações em que as pessoas acreditam estar livres, mas continuam presas a relações, trabalhos, questões sociais ou sistemas de dependência.
Uma das fachadas em que desenvolveu essa proposta já foi apagada. A ideia, no entanto, permanece. O artista pretende reproduzir a obra novamente, dessa vez a partir de outra perspectiva.
A variedade de trabalhos desenvolvida por Matias também se aproxima de elementos presentes na tipografia vernacular urbana, tema que envolve fachadas, anúncios, placas, cartazes e outras formas de comunicação produzidas fora dos padrões formais do design.
A liberdade de composição, a variação das formas das letras, o uso de sombras, contornos e contrastes fazem parte de uma linguagem construída muitas vezes pela própria experiência de quem pinta nas ruas.
No caso de Matias, essa experiência continua em construção. Mesmo depois de concluir uma pintura, ele costuma procurar aquilo que poderia ser melhorado.
Aos 39 anos, o artista segue transformando paredes, fachadas e diferentes superfícies em espaços de expressão. O desenho que começou como brincadeira na infância ganhou dimensões maiores, atravessou fronteiras e, principalmente, passou a carregar histórias, sentimentos e reflexões.