A vida parece ser isso: curtos momentos de calmaria e extensos períodos de provação. Como se o universo estivesse nos dizendo: “quero ver como você se comporta diante disso“. Não é uma aposta, não é um castigo. É só a vida. Como diria a música, “uns nascem para sofrer, enquanto o outro ri”.
Talvez seja uma aceitação fatalista dos fatos, talvez a constatação de quem, ao olhar para os dias futuros, se viu perdida e engolida pelas frustrações e problemas.
Há momentos de angústia tão profunda que a tempestade nos parece eterna. Como se um tsunami nos atingisse sem nos desintegrar, engolindo nossos corpos e almas em ondas tempestuosas, relegando-nos a um dilúvio sem fim, prendendo-nos na repetição de um afogamento que não nos consome por inteiro, não nos mata, mas não nos deixa respirar.
Isso nos faz perguntar: é mesmo sofrimento ou o outro sofre mais? Faz-nos duvidar da nossa própria capacidade de superação, como se ela tivesse sido irremediavelmente quebrada.
Quem de nós já não gritou por ajuda para encontrar, do outro lado, apenas o silêncio — divino ou humano? Quantas vezes não estendemos as mãos buscando o mesmo amparo que outrora oferecemos, apenas para encontrar portas fechadas e olhares esquivos?
Enquanto servimos para algo, enquanto ofertamos alguma utilidade, o entorno é amigável e até estende tapetes vermelhos. Quando pesamos, quando passamos à condição de estorvo, no entanto, somos condenados à invisibilidade. E esse talvez seja o paradoxo mais cruel da nossa espécie: a escassez de humanidade.
Afinal, o que nos define? É apenas o intelecto que ergue muros e molda o mundo? Ou é a sensibilidade de reconhecer a dor de quem está ao nosso lado?
Olho pela janela e me recuso fortemente a perder a esperança. Vejo as pessoas nas paradas de ônibus, cada uma com a própria história de batalhas e de dias felizes. Vejo uma atriz famosa no outdoor e forço-me a entender que, embora ela tenha dinheiro para o plano de saúde e possa comer todas as refeições de forma equilibrada e com todos os nutrientes, também passa por problemas. Mais adiante, o rosto de um empresário de sucesso sorri, oferecendo seus produtos — ele também tem problemas…
Eles dizem: todos temos as mesmas 24 horas. Será mesmo?
Será mesmo que todos nós conseguimos dormir tranquilamente, comer de forma adequada, ter um teto sobre nossas cabeças, viver sem doenças ou com o suporte necessário para lidar com as enfermidades?
Isso seria o paraíso, então não. Não temos todos as mesmas 24 horas.
Adversidade, pobreza e tantos outros problemas que assombram a humanidade não podem ser considerados fruto da inércia dos indivíduos em mudar a própria situação. Nem todos nós temos o que é necessário para “evoluir”, embora Epstein e outros figurões o tenham.
E assim, os “conselhos” que li alguns dias atrás voltam à mente como um lembrete da minha própria origem, da minha situação enquanto humana: “ninguém tem pena de você, ninguém é obrigado a ajudar ninguém, ninguém tem culpa dos seus problemas.”
Para fugir dos meus próprios problemas, dos meus credores e das minhas dores, abro o livro que estou lendo: nele, o final, afinal, é feliz.