A ditadura militar foi uma verdadeira miríade de violências descaradas e
silenciosas. Sandra Godinho, uma brilhante escritora, colecionadora de prêmios e
vencedora do 1º Prêmio Escreviventes, nos contempla com seu romance ‘Inventário
de um Silêncio’.
Somos apresentados a Murilo, um engenheiro bem-sucedido que vive uma
vida aparentemente perfeita ao lado de sua esposa e com seus dois filhos, até ver
seu irmão desaparecido caminhando trivialmente pela rua, de novo.
O leitor é conduzido por essa relação familiar, na qual Murilo busca
descobrir o paradeiro de seu irmão Joel, que sempre demonstrou enorme
insatisfação por sua natureza de obstinado sindicalista que lutava contra as
opressões da ditadura militar.
A trama é costurada sobre a relação desses dois irmãos com visões
contrárias a respeito do governo militar e seu golpe. Para Joel, era inadmissível os
desaparecimentos de políticos e a represália contra os sindicalistas que lutavam por
uma vida de qualidade. Em contrapartida, Murilo é o tipo de personagem
responsável por carregar a imagem das pessoas que prosperaram nos anos da
ditadura por fecharem os olhos para os acontecimentos desse período sombrio na
história do Brasil.
O rompimento na relação dos dois é inevitável. Joel é levado pelos militares
para não tornar a ser visto, exceto por Murilo, que por meio de breves devaneios
pela rua, enxerga em rostos de estranhos o de seu irmão. Dessa forma, o leitor é
instigado a ansiar junto ao protagonista para descobrir o paradeiro de Joel até as
páginas finais, assim como o Brasil sonhou com a volta do irmão do Henfil, na
canção de Elis Regina, os leitores são tomados pelo desejo de rever Joel.
“Meu Brasil que sonha
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil”
Sandra presenteia os leitores com uma história que usa da ditadura e seus
terríveis acontecimentos como pano de fundo para o desenrolar de um drama
familiar. Os temas são atuais, pois ainda fazem parte do cenário político de um
passado tão presente nos dias atuais do Brasil e da Amazônia.
Embora as represálias da ditadura sejam destaques na história dos grandes
centros urbanos, engana-se quem acredita que os militares não voltaram seus olhos
para a região Norte. Em busca de dominar ou desmantelar empresas, o movimento
militar interveio no Estado do Amazonas, movidos pelo lema ‘Integrar para não
entregar’, sobre o qual solidificaram a terrível ideologia, na qual apontava que o
Amazonas não passava de um gigantesco vazio demográfico, rejeitando a
importante presença dos povos originários e ribeirinhos.
De maneira sutil, o leitor é arrastado para o Norte do Brasil. Por exemplo, no
seguinte trecho:
“Lembro do nosso pai, que resolveu morar na cidade depois que a mãe
morreu de uma picada de cobra. Não aguentou o veneno, ou a solidão de morar no
barranco do rio, ou de viver numa palafita enquanto ele saia para recolher ouriço de
castanha”.
A escrita é objetiva, não poupa palavras, pelo contrário, usa-as com enorme
precisão para entregar um bom romance e suplantar no coração dos leitores uma
das maiores perguntas que ecoou através do tempo: O que aconteceu com os
desaparecidos? Quais são as histórias que não foram contadas?
É sobre as vidas que foram enterradas neste inventário de silêncio.