Leyla Leong e Leila Plácido: duas gerações da literatura infanto-juvenil no Amazonas

A literatura infanto-juvenil na região Norte do Brasil é atravessada pela fauna e flora local, temperada com o sobrenatural das nossas mizuras e encantados, algo caracterizado como o imaginário amazônico.
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A literatura é capaz de atuar sobre a mente humana, moldando diretamente a forma de pensar e ver o mundo, ampliando o repertório sobre a realidade, seja no âmbito político, cultural ou imaginário. Ela se manifesta por meio da escrita em obras de fantasia com cavaleiros e dragões, num romance de formação carregado de drama familiar, num terror com notas de mistério e principalmente na literatura infanto-juvenil.

A criança é uma figura ativa na construção da realidade sociocultural, e a literatura infanto-juvenil exerce um papel essencial no seu desenvolvimento e na sua formação como leitora —  um processo que inicia com o manuseio dos livros, no convívio com pessoas que leem e principalmente no ato de ouvir, pois a formação do leitor começa com ele sendo primeiro ouvinte.

A literatura infanto-juvenil na região Norte do Brasil é atravessada pela fauna e flora local, temperada com o sobrenatural das nossas mizuras e encantados, algo caracterizado como o imaginário amazônico.

Esse imaginário está vivo na obra “Sua majestade o Gavião-Real”, escrito pela autora Leyla Leong. A história narra o inesperado encontro de Raimundinho, um curumim de pele morena de sol que gostava de nadar no rio, mas que acima de tudo, adorava as histórias do Curupira, Matintapereira, uirapuru e tantas outras fascinantes contadas pelo avô seringueiro.

Em um belo dia, o curumim e o melhor amigo encontram um filhote de gavião-real que caiu do ninho. Sob os cuidados dos dois, o gavião-real melhora e voa para longe, com a promessa de retornar algum dia para levá-los para um passeio.

Passados muitos anos, o gavião retorna para o encontro de dois homens adultos e cumpre a promessa que fez um dia. A ave sobrevoa a floresta, apresenta os animais e mostra regiões poluídas e devastadas pela ação humana.

Leyla explora temas que conscientizam sobre a importância de preservar a floresta. O cenário é a própria Amazônia, com sua fauna e flora rica, com os barcos sobre os rios e a boa farinha-d’água. A sutileza da sua escrita invade, domina e marca profundamente quem lê.

Não distante, temos Leila Plácido com seu belo livro “Apenas uma canoa nas noites de verão”. No qual a história é narrada por uma canoa. Canoa, é uma protagonista que nasceu árvore, e nunca sonhou em ser nada além disso.

Se de um lado temos Raimundinho crescendo no interior rodeado pelas histórias do avô; com Canoa, temos a inusitada e tão criativa figura feita de madeira que vive a vida junto com o ribeirinho, na condição de uma observadora que guarda em seu íntimo as mais belas histórias.

Canoa passa a ser uma contadora das histórias que muitos amazonenses crescem escutando dos avós, dos pais e parentes, ela conta tudo que viu e ouviu para os animais da floresta.

Quando seu criador, o homem que cortou-a ainda em forma de árvore, alcança a idade mais avançada, ele decide retornar para a floresta e deixá-la na base do tronco de onde nasceu.

Leila Plácido entrega para o leitor a sensação de que nossa tão inusitada protagonista cumpriu seu dever, fechando o ciclo de um contador de histórias que nasceu para repassar adiante as tantas vozes que a moldaram.

O imaginário amazônico sempre foi atravessado pela visão do colonizador que via nossas crenças como uma forma cômica de explicar o mundo e não como cultura, muito menos como identidade.

Sempre houve uma tentativa indiscriminada de desagregar a cultura  local, muitos encontraram formas pejorativas de descrever a cultura amazônica, de nomear, apontar, definir, sem ouvir ou dar voz a quem realmente nasceu e cresceu no Norte.

Ler um autor nortista é se permitir conhecer um mundo novo, cheio de comidas diferentes, novos aromas, remédios caseiros, banhos com folhas e cascas de árvores, fauna e flora local, e até mesmo um neologismo de dar nó no pensamento. Tudo isso escrito por quem vive e não pelo prisma de quem coloniza a aponta de fora.

A infância tem sua particularidade, um jeito muito próprio de ver o mundo. A criança amazônida tem acesso a um mundo muito diverso, ela brinca no barro, salta do galho mais alto de uma macaquequara para dentro do rio, aposta disputa de remo de canoa, se alimenta do que pesca, conhece o sabor do vinho da bacaba com a farinha, do miri, da pupunha, da sapotilha e a enorme dificuldade que é atar uma rede numa viagem de barco lotada de gente.

Talvez uma das mais belas citações que descreve bem, uma fração do ser amazonense está na canção do cantor e compositor Chico da Silva:

“Cabocla cheirosa, caboclo guerreiro

Cunhatã viçosa, curumim sapeca

Eu amo essas coisas tão pura tão minhas

Gostosa farinha no caldo do peixe

Do banzeiro a canção, o mais farto verão

Tudo isso me faz com que eu não te deixe

Amazonas, Amazonas, Amazonas meu amor”

 

De Leyla Leong para Leila Plácido, duas grandes escritoras que traduzem para a juventude o orgulho e a beleza em ser amazonense por meio da literatura. Duas gerações que deixam muito claro que o escritor amazonense ainda tem muito para contar, que a literatura infanto-juvenil carrega a força de criar novos leitores.  Nelas habita a palavra que preencher o cerne de todo o grande escritor: palavra que incita, que transmite e que ensina a ver o mundo de muitas formas.

 

 

 

 

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