Exclusiva: estreia em Paris a exposição ‘Passeurs’, que reúne artistas indígenas com curadoria Trudruá Dorrico Makuxi

O portal Amazônia Incrível conversou com a curadora da exposição, a arista e escritora indígena Trudruá Dorrico Makuxi.
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Paris, historicamente o epicentro das artes visuais, torna-se agora o palco de uma necessária e profunda revisão histórica.

A ascensão da arte indígena contemporânea em solo francês reflete um movimento global de decolonização dos espaços museológicos, como prova disso,  estreia nesta quinta-feira, dia 16 de abril,  no  Chemin du Montparnasse, 21 Avenue du Maine, Paris 15, a exposição “Passeurs” , que reúne artistas indígenas contemporâneos cujas obras revelam narrativas de tempos antigos — as cosmovisões — bem como o presente histórico de seus povos, afirmando seus territórios no campo das artes.

O portal Amazônia Incrível conversou com a curadora da exposição, a arista e escritora indígena Trudruá Dorrico Makuxi.

De acordo com a artista,  assim como se cultivam árvores e plantas, os artistas cultivam suas pinturas. Esta arte não tem nada de ingênua: ela é viva. Pertencimento, território espiritualidades humanas e não humanas se encontram e coexistem para contar acontecimentos e maneiras de habitar o mundo em comunhão com a natureza.

Trudruá Dorrico Makuxi

Nas obras se desdobram saberes antigos, verdadeiras tecnologias ancestrais, por meio
das quais os povos indígenas mantêm a floresta “em pé”. As obras aparecem, assim,
no cruzamento de vários campos: são ao mesmo tempo Arte e Conhecimento, Arte e
História, Arte e Ciência, Arte e Ecologia.

Passeurs é, portanto, um convite a “adiar o
fim do mundo”. Trudruá Dorrico Makuxi

 

Confira a entrevista exclusiva com a curadora da exposição

Qual é o principal objetivo ao realizar curadorias de arte e literatura indígena em espaços europeus como Paris?

Trudruá Dorrico Makuxi: Muitos espaços são ocupados quando artistas indígenas se fazem presentes. O da arte que reforça a qualidade poética e artística de indígenas que historicamente foram marginalizados deste mundo (das artes e dos Estados-nação); das diversas mensagens que compartilham com o público que entram em contato: sejam as histórias ritualísticas que retratam com a destacada importância da espiritualidade florestal, seja o cotidiano atrelado ao paradigma da terra.

Estar na Europa significa que em mais um espaço endossam estas presenças e lutas. Talvez aqui a ressonância seja mais ecológica, e por que não?! Se a própria vida indígena é por si só ecológica talvez seja o momento dos europeus olharem como se faz na prática uma ecologia ancestral.

Além de curadora, você é uma importante estudiosa da literatura indígena. Como essa formação influencia a seleção de artistas para uma exposição? E qual critério da seleção desta exposição?

Trudruá Dorrico Makuxi: Como indígena e pesquisadora de literatura e artes indígenas, me sinto preparada para conversar com parentes e fazer uma composição de artistas, porque leio e conheço obras que contam as histórias do que pintam. Para esta exposição me angustia que ocidentalmente suas obras sejam classificadas como naïf, quando pra mim elas são vivas, carecendo de uma crítica originada do mundo indígena (que ainda se constrói). Esses artistas contemporâneos pintam as vidas indígenas com propriedade espiritual e de liderança. Todos os artistas convidados têm conexão com o território, moram neles ou são líderes. Salvo Jaider Esbell, já encantado, a arte é uma extensão criativa de seus mundos indígenas: Macuxi, Yanomami, Huni Kuin, Pataxoop, Uitoto-Nonuya, Tukano.

Ao levar a arte Macuxi e de outros povos brasileiros para o exterior, qual é o impacto político da presença de uma curadora indígena no comando do projeto?

Trudruá Dorrico Makuxi: Vejo como um movimento coletivo, eu posso reuni-los porque eles já abriram caminhos. Estar na casa Espace Franz Krajcberg – Centro de Arte Contemporânea Arte e Natureza é pra mim uma mensagem de que forças podem ser somadas, pois o artista Frans Krajcberg foi um entusiasta e defensor da floresta. É por estas frestas que devemos nos enveredar. Como curadora estou honrada pela confiança dos artistas e das galerias que as representam. Quero continuar este trabalho com respeito a todos eles.

Trudruá Dorrico Makuxi

Artistas convidados

Trudruá Dorrico Makuxi

Aycoboo ; Jaider Esbell; Duhigó Tukano; Ehuana Yanomami et Joseca Yanomami ;
Liça Pataxoop ; Ibã Sales Huni Kuin, et l’association
Huni Kuin APOTI

Para Capucine Boutte, directrice déléguée de l’Espace Frans Krajcberg: A exposição convida a abrir os olhos, o espírito e o coração para aprender a olhar e a ver a
Natureza… a fim de protegê-la melhor.

Trudruá Dorrico Makuxi

Frans Krajcberg, assim como os artistas aqui apresentados, defendia o fim da oposição entre
Natureza e Cultura, para sustentar uma vida em harmonia com o nosso ambiente.

Assim, a exposição, retomando as palavras de Ailton Krenak, é um chamado para “reflorestarse”: tomar consciência de que somos Natureza e inspirar-se na floresta para rever nossa relação com o mundo, com o objetivo de equilíbrio, troca e respeito pelo outro.

Trudruá Dorrico Makuxi

 

PROGRAMAÇÃO (EM ANDAMENTO)

Abertura: quinta-feira, 16 /04/2026

Lançamento e encontro em torno do livro
“O Tempo da Reconquista” , de Trudruá Dorrico Makuxi: quarta-feira, 22/04/ 2026

Noite em torno do projeto “Da mãe à Terra”: quarta-feira, 06/05/ 2026

Apresentação do livro de Claude Mollard: quarta-feira, 03/06/2026

Nuit Blanche: sábado, 06/06/ 2026

Encontro com Stephen Rostain e Trudruá Dorrico Makuxi: quarta-feira, 17/06/2026

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