Mulher Kokama transforma arte, música e cinema em ferramentas de resistência na Amazônia

História de resistência: mulher Kokama leva cultura indígena da música para o cinema
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A força da mulher indígena na Amazônia ganha voz por meio da arte, da cultura e da comunicação. A trajetória da artista e produtora audiovisual Thais KoKama mostra como ancestralidade, identidade e luta caminham juntas na defesa dos povos originários e no fortalecimento das mulheres indígenas.

Criada em área urbana, Thais conta que sempre sentiu a necessidade de retornar às próprias raízes para compreender sua identidade. “Eu queria me conectar mais com o meu povo, com a minha cultura”, afirma.

A relação com a cultura indígena vem da família. Segundo ela, a mãe tem descendência do povo Sateré-Mawé, enquanto o pai pertence ao povo Kokama, cuja comunidade fica no Alto Solimões. “A questão da cultura foi o meu pai mesmo que não permitiu a gente perder essa cultura”, relembra.

Para a artista, o processo de reencontro com a ancestralidade foi, na verdade, uma retomada de algo que sempre fez parte de sua história. “Eu tive esse processo de retomada da minha ancestralidade, porque eu não entrei, eu pertenço a isso. Então eu só retomei aquilo que os meus ancestrais queriam para a minha vida”, explica.

Música inspirada na AmazôniaA vivência como mulher indígena também inspira suas composições. Thais busca transformar em música os desafios enfrentados pelos povos da floresta e a relação profunda com a natureza.

“Em todas as minhas composições eu tento incluir o que a gente passa diariamente. Como a música Amazônia de Pé, que fala sobre estiagem: quem disse que o rio ia secar?”, conta.

Ela explica que a dinâmica da natureza também carrega esperança. “O rio seca, mas tem um momento que ele revive de novo e a gente vibra com essa energia”, afirma.

Durante a pandemia, suas músicas também passaram a abordar mobilização social. Uma delas, “Vidas Indígenas Importam”, surgiu a partir da união de mulheres que se organizaram para ajudar suas comunidades. “Relata mulheres indígenas potentes, que na época da pandemia se reuniram e lutaram bravamente pelo seu povo”, diz.

Segundo a artista, a inspiração vem do cotidiano das populações amazônicas. “Eu tento introduzir toda a minha vivência, toda a minha realidade dentro dessas composições”, afirma.

Cinema indígena para contar a própria históriaAlém da música, Thais encontrou no audiovisual uma nova forma de fortalecer a cultura indígena. Foi dessa visão que nasceu o Cine Aldeia, considerado o primeiro cinema indígena do Brasil, inaugurado em fevereiro de 2025 na aldeia Iambé.

Ela conta que a ideia surgiu após um período de isolamento provocado pela grande seca na região. “As crianças sempre gostaram de filme, mas nessa época não tinha como sair para ir ao cinema. A gente ficou isolado e foi quando eu consegui escrever e idealizar o projeto”, relembra.

O espaço foi criado para que jovens indígenas possam produzir e contar suas próprias histórias. “Aqui os jovens não são mais personagens vistos de fora. Eles são autores dos próprios roteiros”, destaca.

Hoje, Thais se divide entre diferentes papéis no audiovisual. “Eu sou a Thaís do audiovisual, a Thaís roteirista, a Thaís influencer, a Thaís que está sempre dirigindo um documentário”, conta.

Mensagem para as mulheres

A história da artista representa também a luta de inúmeras mulheres indígenas que enfrentam preconceito, desafios sociais e a responsabilidade de sustentar suas famílias.

Para elas, Thais deixa uma mensagem de perseverança:

“Que essas mulheres possam acreditar nos seus potenciais, não desistir dos seus sonhos e permanecer na luta.”

Segundo ela, o caminho não é simples, mas é possível. “Não é fácil, mas também não é difícil. Se ela for a vitória, ela é certa”, afirma.

Ao receber uma pintura tradicional do povo Kokama, chamada de flor guerreira, a artista resume o significado da força feminina indígena:

“A flor guerreira é uma pintura que fala o quão guerreiras nós somos como pessoas e como mulheres. Então, a flor guerreira para uma mulher guerreira.”

A trajetória de Thais mostra que, na Amazônia, cultura, arte e ancestralidade continuam sendo caminhos de resistência, identidade e transformação.

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