No domingo de Carnaval no Rio de Janeiro, a Estação Primeira de Mangueira foi a última escola a desfilar na Marquês de Sapucaí, apresentando um espetáculo que mergulha nas tradições afro-indígenas do extremo Norte do Brasil. A Verde e Rosa levou à Avenida o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”, que homenageia o curandeiro amapaense Raimundo dos Santos Souza, conhecido como Mestre Sacaca — figura emblemática de saberes tradicionais e curativos da floresta amazônica, que se tornaria um símbolo de resistência cultural.
O desfile, assinado pelo carnavalesco Sidnei França, apresentou uma narrativa que vai além da festa: é um resgate histórico e afetivo das identidades negras e indígenas que formam parte intrínseca da Amazônia. A pesquisa para o desenvolvimento do enredo levou a equipe da Mangueira às comunidades do Amapá, onde descobriram a forte autodeclaração do povo tucuju e seu papel na construção de uma imagem da Amazônia que privilegia saberes ancestrais e o diálogo com a natureza.
A viúva do mestre, Madalena Sacaca, desfilou na avenida e declarou emocionada.
“Estou me sentindo muito bem aqui. É muito bom poder presenciar essa homenagem. Não é porque ele morreu, mas ele foi uma pessoa muito boa”, disse.

No sambódromo, a escola mostrou cinco setores que revelam os encantos tucujus — desde a floresta e os rios, até as práticas de cura com ervas, chás e garrafadas, e o papel dos tambores e das manifestações culturais como o marabaixo, tradicional do Amapá. A bateria “Tem Que Respeitar Meu Tamborim”, sob o comando dos mestres Taranta Neto e Rodrigo Explosão, impulsionou a legião de componentes e visitantes durante toda a apresentação.

O desfile também teve momentos marcantes nas alegorias e fantasias, com referências vibrantes à fauna e flora da floresta, além de destacar a presença da família de Mestre Sacaca — incluindo a viúva, Madalena Sacaca, que viajou de Macapá para assistir à homenagem. Apesar de um pequeno contratempo técnico com um dos carros alegóricos, a escola conseguiu manter o ritmo e fechar sua passagem com segurança após cerca de 79 minutos de desfile.
Com uma estética que dialoga profundamente com as tradições afro-indígenas e com a força dos povos da Amazônia Negra, a Mangueira transformou sua apresentação em um convite para repensar a história brasileira por meio de personagens e saberes que muitas vezes ficaram à margem das narrativas nacionais. Confira o desfile: