O que antes era um lixão a céu aberto, hoje virou uma rua arborizada graças à mobilização da comunidade. A transformação de um território marcado por contaminação ambiental é o ponto de partida da história de João Vítor, conhecido como João do Clima, jovem morador de Belém que decidiu transformar vivência em ativismo.
“A região aqui, arborizada, era um lixão. E esse lixão trazia rato, mosca. Quando a chuva caía, levava toda essa contaminação para as nascentes que a gente tem aqui”, relembra João. Segundo ele, o cheiro era insuportável e os impactos ambientais eram visíveis. A mudança veio após mobilizações populares na ilha de Caratateua, no Pará. “A gente se junta com a comunidade, faz uma grande manifestação e consegue que o lixo fosse retirado”, conta
Mesmo após a retirada dos resíduos, a vigilância continua. “A gente continua fazendo uma vigilância noturna para as pessoas não jogarem lixo aqui. Hoje a rua é arborizada, sem nenhum lixão para contaminar o ambiente e o ecossistema”, afirma.
Ainda estudante, João já carrega uma missão que vai além da idade. Ele chama atenção para os efeitos das mudanças climáticas a partir da periferia e das ilhas da capital paraense. “As pessoas precisam entender que a crise climática não é um tema distante. Ela já está afetando a gente no nosso dia a dia”, destaca.
Para João, o debate não é abstrato — é pessoal. “Ela está matando pessoas todos os dias, como a minha mãe”, diz. Lene, mãe do jovem, morreu vítima de câncer de pele quando ele ainda era bebê. Para ele, o caso está diretamente ligado à desigualdade climática. “Minha mãe saía ao meio-dia para trabalhar e precisava caminhar até a parada de ônibus. Esses raios solares foram gerando um sinal, mas ela não tinha tempo para cuidar da saúde”, relata
João explica que só anos depois conseguiu compreender o contexto maior. “Hoje eu tenho conhecimento e entendo que o câncer de pele dela está relacionado a algo maior”, afirma.
Belém, segundo ele, é um retrato claro dessa realidade. “É uma cidade que já é quente e está esquentando ainda mais. A juventude sente isso na pele.” No ano passado, a capital paraense liderou o ranking nacional de dias com extremos de calor, com temperaturas acima da média histórica.
“A educação ambiental, a conscientização e a falta disso tudo estão interligadas. Isso gera uma grande crise, que é a crise climática”, analisa. Para explicar as desigualdades, João usa uma metáfora direta: “A gente está na mesma tempestade, mas em barcos diferentes. Tem gente em iate, tem gente em rabeta e tem gente até sem barco”.
Reconhecido por sua atuação, João do Clima vai participar da próxima COP como conselheiro da Unicef. Ele espera que a voz da juventude seja finalmente levada a sério. “Eu queria ser menos ativista e mais adolescente. Mas, nesse momento que a gente está vivendo, isso não é possível”, desabafa.
Para ele, a razão é clara: “Os tomadores de decisão e os líderes mundiais estão negligenciando a juventude”, conclui