Jander Manauara: artista amazonense transforma arte em política de acesso a recursos

Artista amazonense transforma arte em política de acesso a recursos culturais na região.
Redação Amazônia Incrível
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Com uma trajetória de cerca de 25 anos ligada ao hip-hop, à música e ao audiovisual, um artista e gestor cultural amazonense vem atuando para enfrentar um dos principais gargalos da cena artística local: a dificuldade de acesso a recursos financeiros. Rapper, DJ, beatmaker e produtor musical, Jander Manauara construiu sua carreira dentro de estúdios, videoclipes e coletivos culturais, até migrar para a gestão de projetos voltados à profissionalização e à sustentabilidade da cultura na Amazônia.

Durante aproximadamente 15 anos, sua atuação esteve diretamente ligada ao movimento hip-hop, passando pela produção musical, gravação em estúdio e trabalhos com artistas e grupos da cena local, como Carapanã, Descriz e outros nomes do rap manauara. Paralelamente, também trabalhou com produção audiovisual, especialmente na gravação de videoclipes, o que o aproximou ainda mais da comunicação e das linguagens visuais.

A mudança de foco para a gestão cultural surgiu a partir da percepção de um cenário recorrente no Amazonas: muitos artistas com talento e produção ativa, mas poucos recursos chegando efetivamente às suas mãos. “Não é falta de dom ou de criatividade. O problema é o acesso ao dinheiro e à forma de lidar com ele”, resume.

Captação de recursos e fortalecimento de coletivos

Há cerca de 10 anos, ele atua diretamente com captação de recursos, conexão de redes e articulação entre artistas, coletivos, poder público e iniciativa privada. Atualmente, integra o coletivo Iwan, uma associação cultural que trabalha com projetos incentivados por meio de leis de incentivo à cultura, ao esporte e de mecanismos de filantropia.

O objetivo é descentralizar os recursos e fazer com que o dinheiro chegue a coletivos periféricos e grupos não formalizados, que historicamente ficam fora dos grandes editais. “A ideia é fazer com que sonhos virem notas fiscais. Quando o projeto vira nota fiscal, ele vira renda, coloca comida na mesa e mantém a cultura viva”, explica.

Entre as iniciativas desenvolvidas está a criação de editais próprios, formações e bolsas para empreendedores culturais. Em um dos projetos recentes, foram ofertadas 150 bolsas para participantes de diferentes áreas — música, teatro, dança, circo, audiovisual e cultura popular — com acompanhamento formativo ao longo de sete meses, ajudando artistas a se estruturarem como empreendedores culturais.

Desigualdade regional no acesso à cultura

O gestor chama atenção para a concentração histórica dos recursos culturais no eixo Rio–São Paulo. Segundo ele, cerca de 70% dos recursos captados via leis de incentivo acabam concentrados na região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, enquanto a Amazônia, em três décadas, acessou aproximadamente 3% desse montante.

“Nosso trabalho hoje é aproximar empresas, gestores e investidores desses artistas e projetos amazônicos, criando pontes para que o recurso circule onde a cultura é produzida”, afirma.

Referências e inspiração

Na formação artística, ele cita como referência central Gabriel o Pensador, apontado como um dos responsáveis por levar o rap brasileiro a espaços antes inacessíveis, como grandes emissoras de televisão. Também destaca influências como Racionais MC’s e Michael Jackson, além do rock brasileiro dos anos 1980, com nomes como Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso.

Segundo ele, essas referências ajudaram a consolidar a ideia de que música e cultura devem estar diretamente ligadas a transformações sociais e comunitárias.

Reconhecimento internacional

Entre os projetos de maior destaque está um documentário com foco na relação da cidade de Manaus com as águas e os igarapés, desenvolvido a partir de uma perspectiva sustentável e alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. A produção reúne pesquisadores, professores, historiadores e artistas, além de integrar música e audiovisual.

Em 2022, o projeto rendeu ao artista um reconhecimento internacional: ele foi premiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma das vozes representantes da luta pela justiça climática no Brasil.

Arte, território e futuro

Para ele, ser artista na Amazônia ainda envolve desafios estruturais e simbólicos. Manaus, segundo sua análise, viveu diferentes ciclos econômicos — da borracha ao polo industrial — que moldaram sonhos e expectativas da população. Hoje, no entanto, uma nova geração começa a sonhar a partir da cultura, impulsionada também pelas redes sociais.

“A Amazônia não é única, ela é múltipla, negra, indígena, jovem e criativa. O mundo consome isso. O que falta é a gente acreditar, investir e direcionar nossos sonhos para o próprio território”, conclui.

A atuação do artista e gestor reflete um movimento crescente na região: transformar cultura em política pública, arte em trabalho e criatividade em renda, sem perder o vínculo com as comunidades e com a identidade amazônica.

Saiba um pouco mais sobre sua trajetória acessando este link.

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