Entre páginas e calçadas: a história de uma mulher apaixonada por livros

A história narra a trajetória de uma mulher em situação de rua que encontra na literatura um refúgio e, em um gesto de acolhimento, descobre que a empatia também pode transformar vidas.
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“A mulher que amava os livros”

E era assim. Carregava consigo a doçura de Rosa, a coragem e a altivez de Dôra e a serenidade e o discernimento de Capitu.

Alguns a chamavam pelo doce nome de Rosa. Isso porque, volta e meia, subia em um caixote de madeira na esquina mais movimentada da região central da cidade e declamava com paixão os versos da música “Rosa”, de Pixinguinha. Os transeuntes não resistiam. Reduziam os passos e, não raro, formavam um círculo em sua volta, para ouvi-la em respeitoso silêncio. E, como retribuição ao seu talento, sempre deixavam na cestinha à sua frente alguns trocados:

 

“Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa
Do amor!
Por Deus esculturada
E formada com ardor

 

Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida
Pelo beija-flor

(…)”

 

Outros a ela se dirigiam chamando-a respeitosamente de Dôra. Isso porque conhecia como ninguém o romance “Dôra, Doralina”, de Raquel de Queiroz. Do alto do mesmo caixote de madeira, erguia a cabeça cheia de orgulho e narrava, com gestos interpretativos e eloquentes, ao ponto de ser interrompida por aplausos, trechos da saga da personagem que se livra da condição de mulher submissa e, a duras penas, conquista a liberdade de uma mulher dona de seu sonhos, de ser o que quiser e de viver onde quiser:

 

“Tirei o luto para a viagem. Se pudesse tirava a pele, arrancava os cabelos, saía em carne viva. Senhora protestou ao me ver com o meu costume azul:

– Você faz questão de causar escândalo?

Cerrei a boca com força, não respondi, mas não mudei de roupa. Atravessei toda Aroeiras, comprei passagem, esperei, tomei o trem, vestida de azul”.

 

Outros a tratavam por Capitu. Isso porque conhecia de trás pra frente e de frente pra trás o famoso romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. Do alto do caixote de madeira que lhe servia de palco, fazia um resumo da história, sem deixar de ressaltar que a narrativa era contada na perspectiva de um homem, e citava o trecho de uma fala de Bento Santiago, o Bentinho, que considerava pista essencial para esclarecer o mistério que tanto intrigava os leitores:

 

“Fui levar Escobar à porta… Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou. Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas…”

 

Depois de ler o trecho do romance de forma pausada e mastigada, saía em férrea defesa da integridade moral de Capitu. Afirmava, com a segurança de quem tem conhecimento de causa, que, diferentemente do que muitos foram levados a acreditar, Capitu nunca traiu Bento Santiago. Ele, sim, que era um mau caráter e a tinha traído. Na verdade, dizia ela, como se estivesse numa sala de júri, esse senhor gostava mesmo era de Escobar, mas nunca teve coragem de sair do armário e assumir seu amor por outro homem. Daí ter levantado essa calúnia de sua mulher com o único propósito de esconder sua homossexualidade.

 

A plateia vibrava. Aplaudia. Algumas pessoas que já conheciam o romance faziam-lhe perguntas, que ela respondia com a habilidade de uma grande advogada a convencer os componentes do júri.

 

Ninguém sabia seu nome verdadeiro. Ninguém sabia sua idade. Aparentava não ser tão velha, mas carregava nas feições as marcas de uma mulher vivida e sofrida. Da mesma forma que ninguém conhecia a sua história de vida antes de habitar as ruas e conviver com os moradores de rua da região. E ela fazia questão de silenciar e tratava de mudar de assunto, sempre que algum de seus pares narrava a própria vida pregressa e queria, em reciprocidade, que Rosa narrasse a sua.

 

Mas esse apagamento não comprometia a deferência e o respeito que lhe devotavam as amigas e os amigos de rua, apenas davam asas silenciosas às mais criativas especulações. Aqui e ali algumas dessas histórias chegavam aos ouvidos de Dora, que as escutava sem qualquer contestação. Depois, deixava escapar um sorrisinho enigmático e mudava a conversa para outros assuntos com tamanha habilidade, que o interlocutor nem se dava conta.

 

Afora a missão de compartilhar seus conhecimentos literários e defender suas teses feministas nas ruas do centro da cidade, Capitu tinha paixão por livrarias. Não era incomum ser encontrada namorando capas de livros nas vitrines. Era capaz de isolar de seus ouvidos os barulhos e ruídos da rua por muito tempo, alimentando a imaginação e criando mundos que lhe rendiam viagens e breves roteiros a partir dos títulos dos livros expostos. Para isso, era sagrado o tour que realizava todos os dias, fazendo escala em cada uma das vitrines das quatro livrarias localizadas na região central da cidade.

 

Mas em uma dessas livrarias Rosa estendia sua excursão muito além da vitrine. Tudo por conta de uma história de profunda empatia que mudou sua vida de moradora de rua.

 

Foi assim. No meio da manhã de uma sexta-feira, Dôra cumpria seu sagrado ritual de namoro com capas de livros diante da vitrine de uma das livrarias. Era uma livraria pequena, que tinha um único atendente. Parecia ser o proprietário. Era um senhor de cabelo e barba tingidos pela brancura do tempo. Tinha as sobrancelhas negras bem acentuadas, mas marejadas de pontos brancos. Devia ter mais de setenta anos.

 

Pois bem, o livreiro já estava familiarizado com a visita quase diária daquela senhora de roupa simples e surrada à vitrine da sua pequena livraria. Na verdade, já a conhecia de alguns de seus comícios literários nas proximidades.

 

Nesse dia, a pretexto de olhar o movimento da rua, chegou até à porta e perguntou a Capitu, num amistoso gesto de convite, por que ela não entrava, afinal, brincou, a livraria não cobrava ingresso dos clientes. A princípio, Rosa se viu envolvida pela surpresa e sua expressão de espanto parou no ar. Não sabia o que dizer. Diante da insistência do livreiro, esticando o braço e lhe indicando o caminho da porta, Dôra, ainda hesitante, deu alguns passos e, tomada pelo encantamento, adentrou ao mundo da livraria.

 

Nos dias seguintes, sem abrir mão do seu tour às outras vitrines, Rosa fez daquela livraria sempre a sua última escala. Ficava algum tempo olhando a vitrine. Depois, chegava até à porta e, diante do sorriso receptivo do livreiro por trás do balcão, entrava tímida e se perdia por entre as cinco fileiras de estantes recheadas de livros. Em seguida, pegava com todo carinho o mesmo livro do dia anterior e ficava um longo tempo ali mesmo em pé com os olhos perdidos em suas páginas. E o livreiro observava com respeito e admiração a disciplina e o carinho daquela moradora de rua que amava os livros.

 

Pois certo dia, quando chegou à livraria e se dirigiu ao local da estante para retomar a leitura do dia anterior, Capitu teve uma pequena surpresa. Observador atento, sensível e meticuloso, o livreiro, sabedor de qual livro estava sendo lido por ela, tomou a iniciativa de colocar um banquinho bem em frente mesmo ao lugar do livro na estante, além de pôr entre suas páginas um marcador.

 

A princípio, Rosa não entendeu muito bem. Achou que fosse mera coincidência aquele banco exatamente naquele lugar. Olhou tímida para um lado e para o outro e, diante da indiferença dos outros clientes que procuravam livros de seus interesses, acomodou-se no banquinho e retomou a leitura do dia anterior.

 

Acontece que, nos dias seguintes, Dôra deparou-se com a mesma situação. Lá estava o banquinho bem na direção do seu livro da vez. Tímida, moveu a cabeça para um lado e para o outro e, dessa vez, seu olhar encontrou o olhar do livreiro, que se fez acompanhar de um sorriso emoldurado por uma alegria tão espontânea, que foi como se dissesse a Capitu que aquele cantinho ali era reservado para ela, como justa recompensa por sua paixão pelos livros.

 

Não satisfeito com seu espírito de generosidade, nos outros dias que se seguiram o livreiro deu mais um passo adiante, para oferecer à leitora um ingrediente que dá um sabor adicional à leitura. Aproximou-se dela com o máximo de cuidado, para não interromper sua leitura, e pousou ao seu lado uma xícara com café.

 

Rosa despertou da leitura da vez tomada por uma mistura de espanto, incredulidade e surpresa. Com movimentos lentos e medidos, colocou o marcador entre as páginas. Fechou o livro. Repousou-o sobre a beira da estante. Levantou-se do banquinho armada com um sorriso já salpicado de lágrimas. E abraçou o livreiro num gesto comovido que traduzia a mais profunda gratidão por ele possibilitar a ela o alimento diário que a reinventava e tornava sua vida possível.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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