O martírio dos livros: quando a inteligência artificial ameaça apagar a memória humana

Em uma narrativa alegórica, personagens de grandes obras da literatura enfrentam a destruição de seus livros em uma reflexão sobre o uso da inteligência artificial, a preservação do conhecimento e o apagamento da história humana.
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Eram distribuídos em longas e intermináveis filas. Aos poucos, as diferentes filas convergiam para uma só, que desembocava em uma esteira conduzindo os livros à porta assustadora do crematório.

Alguns pareciam apáticos, como se encarassem a morte como inevitável. Outros demonstravam uma ingenuidade indiferente, como se não soubessem o que estava prestes a acontecer. Havia ainda aqueles tomados pelo desespero, como se pressentissem o bafo ameaçador da fornalha que devoraria sua existência. Alguns reagiam com indignação e protesto, dispostos a resistir até o último momento. Ou à derradeira página.

A cena era de cruel martírio. As chamas lambiam a entrada do crematório, como se tivessem pressa em receber suas vítimas. Alguns personagens tentavam se desvencilhar das páginas e saltar para a vida, na esperança de serem poupados. Mas qualquer esforço parecia inútil. Afinal, os personagens são parte essencial da existência dos livros, assim como os livros existem para lhes dar vida. São o avesso da mesma moeda.

Diante da supremacia da barbárie, restava a alguns personagens exaltar, nos últimos suspiros, os princípios, apelos e sonhos que marcaram suas existências literárias.

Marcel, personagem de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, deu um salto momentâneo das páginas. Olhou para os lados, assustado. As chamas já alcançavam a lombada do livro. Evocou uma de suas lembranças mais queridas: o momento em que o sabor de uma madeleine mergulhada no chá despertou recordações profundas de sua infância.

Enquanto desaparecia nas labaredas, tentou resgatar a força da memória, como quem se agarra à última lembrança antes do esquecimento.

A poucos metros da entrada do crematório, Riobaldo, de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, pendurou-se na contracapa do livro. Olhou para a longa fila atrás de si e pronunciou, com coragem:

“Viver é muito perigoso”.

Mesmo diante da tragédia, manteve-se de costas para a porta do crematório, enquanto a esteira o arrastava em direção ao inferno. Ergueu os braços para o céu e ainda encontrou forças para recordar:

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta”.

Mais atrás, quase encoberto pelo desespero dos outros livros, estava um exemplar desgastado de O processo, de Franz Kafka. Josef K. mantinha o semblante imóvel, mas sua expressão parecia denunciar a indignação diante da situação absurda a que estava sendo submetido.

A tragédia parecia confirmar o sentimento de impotência que atravessa a obra: como pode alguém ser julgado sem sequer compreender a acusação que pesa contra si?

Em meio à aflição, Brás Cubas parecia estranhamente tranquilo. Sentado sobre a lombada de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, cruzava os braços e as pernas, indiferente ao desespero dos personagens ao redor.

Não era de surpreender. Afinal, Machado criou um personagem que, depois de morto, decidiu narrar a própria história sem se preocupar com as convenções sociais ou com a moralidade dos vivos.

Alheio à aflição coletiva, Brás Cubas bradou:

“Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Após uma breve pausa, acrescentou, com a ironia que o caracteriza:

“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”.

Em meio aos gritos e às vozes que se confundiam, um exemplar antigo de As vinhas da ira, de John Steinbeck, chamava a atenção. As páginas amareladas e frágeis pareciam tentar escapar do livro, como se qualquer destino fosse preferível ao encontro com as chamas.

Uma folha se desprendeu, mas, em vez de ser levada pelo vento, permaneceu suspensa sobre o volume. Deitado sobre ela, surgiu Tom Joad, protagonista da obra.

Destemido, ele evocou a figura da mãe e observou o cenário de destruição. Sua voz ecoou sobre os milhares de livros condenados, reafirmando o compromisso com a luta coletiva e com os que passam fome.

Era a resistência diante da injustiça, mesmo quando tudo parecia perdido.

Pouco antes da esteira, estavam espalhadas a capa e a sobrecapa de 1984, de George Orwell. A lombada estava danificada, as linhas da costura apareciam e os fascículos se encontravam soltos.

Ainda assim, de uma das páginas, surgiu uma voz ameaçadora:

“O Grande Irmão está de olho em você!”

Em seguida, a voz de O’Brien dirigiu-se a Winston Smith, evocando a brutalidade autoritária que atravessa a obra:

“Se queres uma imagem do futuro, imagina uma bota esmagando um rosto humano — para sempre”.

Naquele cenário, a destruição dos livros parecia ultrapassar a perda de objetos físicos. O que estava em jogo era também a memória, a liberdade de pensamento e a possibilidade de preservar diferentes interpretações da experiência humana.

Por um instante, a imensa fila da morte pareceu diminuir. Era apenas uma ilusão. Outra remessa de livros, já submetidos ao processo de digitalização para alimentar a inteligência artificial, engrossava a fila e se somava ao desespero dos que aguardavam diante do crematório.

Nesse momento, dois livros anônimos, já sem suas capas, conversavam em meio à confusão.

Um deles, com o olhar perdido no infinito do tempo, dizia não compreender tamanha crueldade contra obras que tanto haviam contribuído para o processo civilizatório da humanidade.

O outro permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois, com a voz embargada, respondeu que a ordem parecia ser apagar a presença dos livros no mundo. Mais do que isso, tratava-se, em sua visão, de transferir o conhecimento humano para a inteligência artificial sem deixar rastros da história que o produziu.

A tragédia, concluiu, estava na possibilidade de o próprio ser humano trair sua trajetória e entregar à máquina uma sabedoria construída ao longo de milênios, à custa de tantas vidas, experiências e sacrifícios.

Mais à frente, livros davam seus últimos suspiros antes de serem lançados ao interior do crematório. As línguas de fogo pareciam festejar. À medida que novas vítimas eram tragadas pela fornalha, os tentáculos incandescentes avançavam para além da porta, numa recepção macabra marcada pelo terror.

A cena era dantesca.

E a pergunta que permanecia no ar era inevitável: ao entregar à inteligência artificial o conhecimento acumulado pela humanidade, que garantias existem de que os livros, suas histórias e as vozes que os mantêm vivos continuarão fazendo parte do nosso futuro?

Nota do autor: Este conto é baseado em fatos reais. Cenas e personagens foram adaptados para atender aos propósitos dramáticos da narrativa.

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