Me apresentei a elas logo que cheguei por esses cantos de cá de Leça da Palmeira. E não foi preciso muito tempo para merecerem minha atenção. Era primavera, época do ano em que tudo são flores.
Mas o inverno, apesar de já tímido e sabedor de que seu tempo chegara ao fim, insistia em ocupar noites e dias que já não lhe pertenciam. Tal qual menino emburrado que perde o jogo e fica criando confusão para não reconhecer a derrota. Como eu disse, pelo calendário já era o tempo da primavera. Entretanto, o inverno não queria entregar os pontos. Resultado: um vento frio e fora de época soprava do Atlântico, desfilava impunemente pelo calçadão da orla e invadia ruas e vielas aqui de Leça da Palmeira. Dava a impressão de que o inverno viera para ficar, numa dessas tantas reações de impaciência da natureza diante da insensatez dos humanos com o meio ambiente.
Pois ainda assim, nesse clima tenso em que os ventos eram mais de inverno, embora os tempos fossem por legitimidade de primavera, lá estavam as florezinhas amarelas. Mostravam a cara com mais ousadia. Estavam mais viçosas. Adensavam-se pelos terrenos baldios. Construíam correntes solidárias. Formavam, no contraste com o verde da grama, verdadeiros arquipélagos dourados a perder de vista. Afinal, aquele já era de fato o seu tempo. Aquela já era de fato a sua hora. Aquela já era sua estação predileta. O berço de sua explosão. Talvez justamente esse detalhe, essa sua disposição para o enfrentamento, tenha despertado em mim uma paixão à primeira vista pelas florezinhas amarelas.
Mais adiante, com a primavera se despedindo e passando a curadoria da próxima estação para o verão, notei, em um dos meus tantos passeios pela área, que as florezinhas amarelas começaram a ficar mais dispersas nos jardins e nos terrenos baldios. O tempo agressivo, quente e seco de agosto me dava a certeza de que as florezinhas amarelas começariam a ficar tristes e desanimadas. Começariam a murchar. Aos poucos perderiam suas pétalas. Por fim, entregariam os pontos e sumiriam da natureza. Engano meu. Lá estavam elas. Entre perdas e danos, reuniam forças vindas não sei de onde. Resistiam com bravura ao desconforto do causticante verão europeu. Embora, justiça se faça, sem a exuberância de sua força durante a primavera.
Quando chegou o outono, não foi diferente. Os dias cinzentos e mau humorados, regados a ventos fortes e muitas chuvas. As árvores vestindo roupas multicoloridas para, pouco tempo depois, se entregarem ao seu processo de desnudamento e hibernação. Pois em meio a esse cenário pouco alentador, lá estavam as danadas das florezinhas amarelas. Mesmo distantes umas das outras. Mesmo sem formar aquelas densas e brilhantes ilhas da primavera. Lá estavam elas. Salpicavam os canteiros e as vastas áreas à beira do mar com sua presença graciosa. Como se estivessem a alertar os passantes de que as coisas ficaram difíceis, mas a vida continuava.
Tinha, então, chegado o inverno. Era minha primeira experiência contínua de convívio com o frio, depois de mais de seis décadas no clima tropical, quente e úmido do coração da Amazônia. Eu até já tinha esquecido um pouco a saga das florezinhas amarelas nas últimas três estações do ano. Mas foi por pouco tempo.
Em meio à vergonha das árvores, despidas de suas plumagens e expondo suas veias esqueléticas acinzentadas cobertas por uma fina camada de neblina, lá estavam elas, as florezinhas amarelas. Desafiavam as baixas temperaturas. Mostravam que, a despeito da aridez melancólica própria da estação, era possível, sim, romper com a mesmice do tempo. Mostravam ser possível encontrar algum alento para as nossas retinas cansadas do cenário monocromático de inverno. Lá estavam, dispersas em pequenos grupos pelos terrenos baldios, as florezinhas amarelas. Com suas pétalas harmoniosamente arrumadas, a dar seu toque de alegria e a insinuar que, mesmo na adversidade, há esperanças na vida.
Desconheço o nome científico ou popular das florezinhas amarelas. Mas isso pouco importa. Importa, isso sim, ter aprendido com a coragem e a determinação das teimosas florezinhas amarelas que o enfrentamento da vida, como gostava de dizer minha Mãe, não deve ter tempo ruim diante das adversidades, desde que saibamos nos reinventar para cada uma das estações.