Esse é um tema que me atravessa tanto pela minha atuação literária como romancista, poeta, cronista e contista, quanto pela experiência recente em um curso sobre práticas de leitura e formação do leitor. A partir desse encontro entre criação literária, reflexão crítica e prática formativa, tornou-se inevitável pensar as políticas de leitura fora dos grandes centros, especialmente em uma cidade como Manaus, onde acesso, mediação, escola, bibliotecas e desigualdade territorial se entrelaçam de maneira profunda.
Durante esse curso, tive contato com a obra O direito de ler e de escrever, de Silvia Castrillón, autora colombiana que afirma a importância das bibliotecas como mediadoras da realidade e como espaços de exercício do pensamento crítico por meio da leitura. Para Castrillón, não há verdadeiro exercício democrático em uma sociedade que se mantém alheia ao mundo das informações disponíveis nos livros, onde o tempo da leitura se alarga e permite uma relação mais profunda com o conhecimento, diferente da pressa das informações que circulam nas telas, muitas vezes consumidas sem reflexão e sem verdadeira assimilação. A biblioteca, nesse sentido, deve contribuir para enfrentar o problema da desinformação, agravado pela manipulação que a mídia e os algoritmos fazem da informação.

Ao me deparar com essas reflexões, pensei no quanto minha cidade ainda está distante de proporcionar esse direito aos seus cidadãos. Manaus possui pouquíssimas bibliotecas públicas, as quais funcionam apenas até as 14h, oferecendo poucas ou nenhuma atividade de mediação e, por isso, não conseguem fazer com que a sociedade se sinta convidada a entrar, permanecer ou buscar nesses espaços uma forma de acesso à informação, ao pensamento e à convivência. Assim, nossas bibliotecas acabam se aproximando mais da ideia de museus: lugares visitados ocasionalmente por alguns alunos, conduzidos em passeios escolares para conhecer um prédio histórico, mas não necessariamente reconhecidos como espaços vivos, comprometidos com a comunidade.
Gostaria que nossas bibliotecas se tornassem oásis da pausa, da leitura coletiva, da escuta e da discussão sobre os grandes temas do nosso tempo. Lugares muito além da simples pesquisa escolar, capazes de acolher leitores em diferentes fases da vida e de despertar neles o gosto pela leitura como experiência de pensamento, pertencimento e transformação. Para isso, também é necessário apostar na qualificação dos bibliotecários, para que compreendam o papel político da atividade que escolheram exercer. A biblioteca deveria ser entendida como missão pelos nossos governantes. Não bastasse o isolamento geográfico que historicamente marca a Amazônia, não precisamos nos distanciar também da informação.
Recordo que minhas colegas de curso eram, em sua maioria, professoras e bibliotecárias da rede pública de São Paulo, e me impressionava a quantidade de ações promovidas por elas nas escolas e bibliotecas pelas quais eram responsáveis. Essa comparação não me levou a pensar que Manaus carece de leitores ou de desejo de leitura, mas revelou a ausência de políticas contínuas, estruturadas e efetivas para que esse desejo encontre espaço, mediação e permanência. Foi nesse momento que percebi o quanto o direito de ler e, por consequência também o direito de escrever, ainda inexiste em Manaus como política pública plena.
Como escreveu Castrillón, ao tratar da importância das bibliotecas comunitárias, “precisamos de bibliotecas que fomentem o interesse e o gosto pela leitura, que permitam a descoberta do valor que ela tem como meio de busca de sentido, como referência de si mesmo no mundo e para o reconhecimento do outro. Bibliotecas onde a leitura não seja concebida como uma forma de passar o tempo, de se divertir, mas como algo imprescindível para um projeto de vida que pretenda superar uma sobrevivência cotidiana.” (2011, p. 38).
Pensar a formação do leitor na Amazônia, portanto, é pensar a biblioteca como espaço de cidadania, de combate à desigualdade informacional e de afirmação democrática. É compreender que formar leitores, em territórios historicamente afastados dos centros de decisão, não é um luxo cultural, mas uma urgência política.